• Abertura

    Há cinquenta anos, a carreira do maior pugilista brasileiro de todos os tempos era coroada com o título mundial da Associação Mundial de Boxe. Eder Jofre, então com 24 anos no dia 18 de novembro de 1960, erguia o cinturão no peso galo depois de nocautear o mexicano Eloy Sanchez em uma luta de seis assaltos.

    O título de um dos maiores atletas brasileiros em todas as modalidades é lembrado pela Gazeta Esportiva.Net neste site especial. Uma maneira de reviver os feitos e homenagear o primeiro boxeador do país a ser campeão mundial, atualmente com 74 anos, cujos golpes ainda servem de inspiração para os competidores de uma modalidade que sofre com os poucos investimentos e até hoje beira o amadorismo.

    Raio-X

    Nome: Eder Jofre

    Apelido: Galinho de Ouro

    Data de Nascimento: 26/03/1936

    Local de Nascimento: São Paulo (SP)

    Títulos:
    Campeão da Forja de Campeões (amador) - 1953
    Campeão Brasileiro dos galos - 1958
    Campeão Sul-americano dos galos - 1960
    Campeão Mundial da AMB (Associação Mundial de Boxe) dos galos - 1960
    Campeão Unificado dos galos - 1962
    Campeão Mundial dos penas pelo CMB (Conselho Mundial de Boxe) - 1973

  • Carreira

    No ano de 1953, o até então desconhecido moleque Eder Jofre subia nos ringues em São Paulo para disputar o prestigiado torneio de boxe amador "Forja de Campeões", promovido na época pelo jornal A Gazeta Esportiva.

    Nunca um pugilista havia feito tamanho jus ao nome do torneio. Aquele rapaz de dezessete anos, paulistano do bairro do Peruche, triturou os oponentes para conquistar o título dos moscas na competição. Nascia ali a maior e mais vitoriosa lenda brasileira no esporte. Inscrito pelo São Paulo, a conquista invicta já demonstrava sua força.

    Nascido em uma família de boxeadores, Eder tinha a Nobre Arte no sangue. Seu pai, Kid Jofre, havia sido um respeitável pugilista e passara o amor ao esporte para os filhos. Eder, treinado pelo pai, acabou por se tornar o que de mais impressionante havia no Brasil à época nos ringues.

    Ainda como amador, o pugilista recebeu a honra de representar o país nas Olimpíadas de Melbourne, em 1956. Invicto no amadorismo, o atleta parecia ser uma das maiores esperanças de medalha de ouro para o país. Mas a má organização brasileira acabou por impedir esse sonho. Depois de vencer sua primeira luta, Eder participou de uma sessão de treinos com o peso médio Celestino Pinto, muito maior do que ele. O desastrado Celestino acabou quebrando o nariz de Eder no treinamento. O paulista, respirando pela boca, foi derrotado na segunda luta pelo chileno Barrentes, de quem se vingou mais tarde como profissional.

    Mas no profissionalismo estava o grande legado de Jofre. Agora nos galos, onde não teria tanta dificuldade de manter o peso, Eder começou em 1957 a sua carreira profissional. No ano seguinte, já ganhava o título brasileiro da categoria. Em 1960, começou a escrever seu nome na história. No início do ano, ganhou o título sul-americano.

    Em agosto do mesmo ano, Jofre teve uma de suas lutas mais difíceis, válida como um classificatório para disputa do título mundial, contra o mexicano Joe Medel. O adversário passou nove assaltos batendo em Jofre. Mas a determinação do brasileiro e uma duríssima sequência de golpes no último round levaram Medel à lona. Jofre passara no teste. O combate pelo título, em novembro daquele ano, era pouco perto daquela luta contra Medel. Eder era campeão mundial.

    O pugilista conseguiu manter seus cinturões, mas em 1965, numa contestada luta, foi derrotado pelo japonês Masaharu "Fighting" Harada. A revanche, no ano seguinte, também no Japão, com outro resultado controverso a favor do japonês desiludiu Eder, que abandonou o boxe.

    Mas quem tem o esporte no sangue não consegue abandonar fácil. Em 1969, Eder voltou, para lutar e vencer mais 25 combates, agora pelo peso pena. Nem mesmo o "gigante" cubano Jose Legra foi suficiente para o brasileiro, que em 1973 conquista o cinturão também na categoria de peso superior. Eder só foi abandonar de vez o esporte em 1976, após a morte dos pais e irmão.

  • Título Mundial

    Após a conquista do título sul-americano dos galos e das convincentes vitórias sobre todos os adversários que cruzaram seu caminho, Eder se colocava como um dos maiores candidatos ao título. O brasileiro fez jus às expectativas e começou a se preparar para a conquista maior. Mas, para poder se colocar como pretendente ao título, era necessário vencer outros pleiteantes em combates diretos.

    No dia 18 de agosto de 1960, Eder entrou no ringue para enfrentar uma das maiores pedreiras de sua carreira, o mexicano Joe Medel, pugilista muito técnico e pegador. Todos sabiam que seria um combate especial.

    Em nove assaltos, Medel dominou praticamente todos, aplicando uma grande quantidade de golpes sobre o brasileiro. Jofre chegou a afirmar que já dava a luta como perdida, mas não desistiu. No décimo assalto, uma sequência de golpes bem aplicados pelo brasileiro levou o mexicano à lona. Eder caminhava para disputar o título.

    O dono do cinturão era o também mexicano Eloy Sanchez. Para quem já havia passado por Medel, Sanchez parecia uma brincadeira de criança. No dia 18 de novembro, houve a luta. Após um primeiro assalto de estudos, Jofre partiu para cima e dominou os três rounds seguintes. Sanchez tentou equilibrar a luta no quarto assalto, mas foi derrubado no round seguinte. Sabendo que estava com a luta nas mãos, Jofre entrou no sexto assalto decidido a acabar com o combate.

    Um forte golpe na boca foi suficiente para derrubar de vez o mexicano e levar o título para o Brasil. Jofre era campeão mundial dos galos. Com uma recepção calorosa no país após o feito, o pugilista era alçado à condição de herói nacional. A Gazeta Esportiva homenageou-o de forma singela, mas que emocionou o pugilista: uma coroa de louros.

    Nas defesas de título subsequentes, nem mesmo Joe Medel foi páreo para Jofre. O brasileiro caminhava para cada vez mais se consolidar como o maior de todos na categoria. Até mesmo unificar os títulos ele conseguiu. Mas uma pedra vinda do Oriente foi parar no caminho de Eder.

    Em 17 de maio de 1965, Eder enfrentou o japonês "Fighting" Harada. A luta foi realizada em Nagoya. O combate foi muito equilibrado, sendo necessária a decisão dos árbitros após 15 assaltos. Nos pontos, os juízes deram a vitória para Harada, que, segundo testemunhas da luta, havia sido dominado em grande parte da luta.

    Decepcionado, Eder voltou aos treinos e pediu uma revanche, Novamente, no Japão, dessa vez em Tóquio. A história da luta, porém, foi a mesma. No dia 1º de junho de 1966, Eder lutou um combate parelho, mas foi melhor que o japonês. Isso não foi suficiente para os juízes, que novamente apelaram à patriotada e deram vitória a Harada.

    Desiludido por perder de maneira controversa duas vezes, Jofre decidiu que era hora de abandonar os ringues de boxe. Mais tarde, o pugilista reconsiderou.

  • Legado

    Em 1969, Eder Jofre estava de volta à ativa, dessa vez não mais no peso que o consagrou, o galo, mas em uma categoria acima, o peso pena. E voltava mais bem preparado do que nunca.

    Ao nocautear o lutador Rudy Corona em São Paulo no sexto assalto, Eder mostrava ao mundo que os três anos de inatividade, mesmo aos 33 anos, não faziam diferença. Ele estava de volta. Logicamente, um ex-campeão mundial não volta apenas para lutar. Volta para conquistar títulos. Era apenas questão de tempo.

    Questão de tempo e preparação. Após quatro anos de combates em que saiu vitorioso, Eder Jofre decidiu, em 1973, que estava pronto para voltar a disputar o cinturão mundial de boxe. E fez isso em grande estilo. No dia 5 de maio daquele ano, em Brasília, enfrentou o cubano Jose Legra para ganhar o título.

    O cubano era bem maior que Eder. Na cerimônia de pesagem, o brasileiro estava com medo. O cubano parecia um gigante perto do brasileiro. Mas um pequeno detalhe acabou com toda a aura do adversário e encheu Eder de brios: na pesagem, Legra parecia maior porque estava com um sapato especial, com salto, e parecia mais forte por causa do enchimento do terno. Legra não foi páreo para Jofre. Impulsionado pela torcida, o brasileiro despachou o cubano na decisão por pontos após os quinze assaltos de domínio total. Era realmente um prodígio: aos 37 anos, Eder estava novamente de posse do cinturão mundial, que defendeu em algumas oportunidades.

    Porém, o trágico ano de 1976 selou definitivamente a carreira de Eder. O pugilista já tinha perdido a mãe, e a morte de seu pai e treinador, Kid Jofre e de seu irmão, semanas depois, desmotivaram o atleta. Muito abalado, o brasileiro não conseguia mais forças para entrar nos ringues. Então, no auge, pendurou as luvas aos 40 anos, dessa vez definitivamente.

  • Aposentadoria

    Éder Jofre pendurou as luvas em 1976, mas sua paixão pelo esporte não permitiria que ele abandonasse de vez os ringues. Um dos maiores ícones do esporte nacional ainda participou de uma série de lutas de exibição como "aposentado" e, mais tarde, decidiu entrar para a vida pública, quando conseguiu se eleger a vereador por São Paulo, seu estado natal.

    O engravatado Eder conseguiu emplacar uma sólida carreira política, mas as derrotas por nocaute nas urnas em suas últimas eleições decretaram-lhe mais uma aposentadoria.

    Posteriormente, o pugilista resolveu passar a se dedicar novamente à nobre arte. Passou a ministrar aulas para a elite paulistana, formada, principalmente, por modelos, atores e empresários.

    Mas o 'Galinho de Ouro' pode dormir tranquilo. O seu legado influencia as novas gerações e seu reconhecimento está garantido. O CMB (Conselho Mundial de Boxe), premiou-o com a honrosa posição de melhor peso galo de todos os tempos. Além disso, pugilistas que defenderem com sucesso o seu cinturão nos galos ganham o "Troféu Eder Jofre".

    Em 1992, Éder conseguiu chegar ao considerado o 'Olimpo' do boxe internacional: foi indicado para o Hall da Fama, honraria para poucos. Em 2002, a revista norte-americana especializada "The Ring" colocou-o como o nono melhor pugilista dos últimos cinquenta anos, ranqueado ao lado de monstros do esporte como Sugar Ray Robinson, Muhammad Ali, Julio Cesar Chavez, Sugar Ray Leonard, Roberto Duran, Carlos Monzón.

    No início dos anos 2000, Eder ainda mostrou tino no esporte ao depositar suas fichas em Acelino de Freitas, o Popó, campeão mundial dos super-penas e da categoria leve e que fez o brasileiro voltar a passar a madrugada torcendo por um pugilista verde-amarelo.

    Terminando a carreira com 78 lutas, sendo 72 vitórias, 50 delas por nocaute, quatro empates e apenas duas derrotas (os dois contestados combates contra Harada), Éder tem todo o direito de se considerar o maior boxeador da história do Brasil e um dos maiores do mundo. Com certeza, muito mais do que aquele garoto - nascido no bairro de Peruche e que recebeu as primeiras orientações de seu pai (o puglilista argentino 'Kid Jofre' - poderia sonhar.

  • Galeria

  • Cartel

    Data Adversário Local Resultado Round
    26/03/57 Raul Lopez São Paulo Vitória - KO 5
    23/04/57 Raul Lopez São Paulo Vitória - KO 3
    05/05/57 Oswaldo Perez São Paulo Vitória - KO 10
    07/06/57 Oswaldo Perez São Paulo Vitória - KO 2
    14/06/57 Juan C. Gonzales São Paulo Vitória - KO 5
    05/07/57 Raul Jaime São Paulo Vitória - PP 10
    19/07/57 Raul Jaime São Paulo Vitória - KO 10
    16/08/57 Ernesto Miranda São Paulo Empate 10
    30/10/57 Luiz Jimenez Vitória Vitória - KO 8
    13/12/57 Adolfo Pendas Vitória Vitória - PP 10
    22/12/57 Carlos Garbisans Rio Janeiro Vitória -PP 10
    24/01/58 Avelino Romero São Paulo Vitória - KO 2
    07/03/58 Carlos Garbisans São Paulo Vitória - KO 6
    13/04/58 German Escudero São Paulo Vitória - KO 2
    27/04/58 German Escudero Rio de Janeiro Vitória - KO 2
    14/05/58 Rubens Caceres Montevidéu Empate 10
    10/07/58 J. C. Acebal São Paulo Vitória - KO 2
    09/08/58 Roberto Olmedo São Paulo Vitória - KO 5
    12/09/58 José Casas São Paulo Vitória - PP 10
    10/10/58 José Casas São Paulo Vitória - KO 5
    14/11/58 José Smecca São Paulo Vitória - KO 7
    12/12/58 Roberto Castro São Paulo Vitória - KO 2
    23/03/59 Aniceto Pereyra São Paulo Vitória - PP 10
    20/04/59 Sal Suarez São Paulo Vitória - KO 4
    04/06/59 Leo Espinosa São Paulo Vitória - PP 10
    19/06/59 Angel Bustos São Paulo Vitória - KO 4
    06/07/59 Angel Bustos São Paulo Vitória - KO 1
    31/07/59 Rubens Caceres São Paulo Vitória - KO 7
    09/10/59 Angel Bustos São Paulo Vitória - KO 4
    30/10/59 Gianni Zuddas São Paulo Vitória - PP 10
    12/12/59 Danny Kid São Paulo Vitória - PP 10
    19/02/60 Ernesto Miranda São Paulo Vitória - PP 15
    10/06/60 Ernesto Miranda São Paulo Vitória - KO 3
    15/10/60 Claudio Barrientos São Paulo Vitória - KO 8
    18/08/60 Joe Medel Los Angeles Vitória - KO 10
    30/09/60 Ricardo Moreno São Paulo Vitória - KO 6
    18/11/60 Eloy Sanches Los Angeles Vitória - KO 6
    16/12/60 Billy Peacock São Paulo Vitória - KO 2
    25/03/61 Pierre Rollo Rio de Janeiro Vitória - KO 10
    18/04/61 Sugar Ray São Paulo Vitória - KO 2
    26/07/61 Sadao Yaoita São Paulo Vitória - KO 10
    19/08/61 Ramon Arias Caracas Vitória - KO 7
    07/12/61 Fernndo Soto São Paulo Vitória - KO 8
    18/01/62 Johnny Caldwell São Paulo Vitória - KO 10
    04/05/62 Herman Marques São Francisco Vitória - KO 10
    11/09/62 Joe Medel São Paulo Vitória - KO 6
    04/04/63 Katsutoshi Aoki Tóquio Vitória - KO 3
    18/05/63 Johnny Jamito Manila Vitória - KO 12
    27/11/64 Bernardo Caraballo Bogotá Vitória - KO 7
    17/05/65 Fighting Harada Nagoya Derrota - PP 15
    05/11/65 Manny Elias São Paulo Empate 10
    01/01/66 Fighting Harada Tokyo Derrota - PP 15
    27/08/69 Rudy Corona São Paulo Vitória - KO 6
    30/01/70 Nevio Carbi São Paulo Vitória - PP 10
    29/05/70 Manny Elias São Paulo Vitória - PP 10
    25/09/70 Roberto Wong São Paulo Vitória - KO 3
    05/12/70 Giovanni Girgenti São Paulo Vitória - KO 10
    26/03/71 Jerry Stokes São Paulo Vitória - KO 2
    10/06/71 Domenico Chiloiro São Paulo Vitória - PP 10
    10/09/71 Tony Jamão São Paulo Vitória - PP 10
    16/11/71 Robert Porcel São Paulo Vitória - KO 2
    24/03/72 Guillermo Morales São Paulo Vitória - KO 6
    28/04/72 Felix Figueroa São Paulo Vitória - PP 10
    30/06/72 José Bisbal São Paulo Vitória - KO 2
    18/08/72 Shig Fukuyama São Paulo Vitória - KO 9
    29/09/72 Ejiemei Belhadf São Paulo Vitória - KO 3
    05/05/73 José Legra Brasília Vitória - PP 15
    21/07/73 Godfrey Stevens São Paulo Vitória - KO 4
    26/08/73 Frankie Crawford Bauru Vitória - PP 10
    20/10/73 Vicente Saldivar Salvador Vitória - KO 4
    03/01/73 Filiberto Herrera Jundiaí Vitória - PP 10
    24/02/76 Enzo Farnelli Porto Alegre Vitória - KO 4
    01/05/76 Michel Lefebvre Brasília Vitória - KO 3
    29/05/76 Pasqualino Morbidelli São Paulo Vitória - KO 4
    02/10/76 Gitano Jimenez São Paulo Vitória - PP 10
    13/08/76 Juan Lopez São Paulo Vitória - PP 10
    08/10/76 Octavio Gomez São Paulo Vitória - PP 12