
Uma
edição cheia de cenas insólitas. Após
vencer a eleição da sede por apenas um voto
(12 contra 11 de Saint Louis, nos EUA), a cidade de Cali viu
um show de trapalhadas. Logo na cerimônia de abertura,
o colombiano Jaime Aparício queimou a mão e
o antebraço esquerdo, enquanto tentava colocar a chama
da tocha na pira olímpica.
No dia seguinte, o brasileiro Danilo Batista enfrentou
uma verdadeira via crucis para disputar as provas de boxe.
O peso mosca chegou à Cali três quilos acima
do peso e teve de ser inscrito no peso galo. A medida não
adiantou. A comissão técnica resolveu colocar
Batista sob o sol de 30ºC, fez o atleta passar fome
na véspera da competição, colocou o
pugilista sob inúmeros cobertores à noite.
Tudo isso para perder peso e lutar. Mas o esforço
foi em vão e, por apenas 150 gramas, o pugilista
ficou fora.
Ainda em 1º de agosto, o brasileiro Carlos Alberto
passou mal durante a prova dos 10.000m rasos, desmaiou e
foi levado ao hospital. Seis dias depois, outro brasileiro
sofreu. Alfredo Botelho havia se classificado com o oitavo
melhor tempo das eliminatórias para a final dos 200m
livre. Entretanto, por um erro da cronometragem, o brasileiro
ficou fora da final. A equipe nacional protestou e Botelho
conseguiu a vaga, mas após a prova ser realizada.
Por isso, o brasileiro foi obrigado a entrar sozinho na
piscina e marcar tempo. No final, Botelho foi sétimo
colocado.
Ao mesmo tempo, o Pan começou a sentir os primeiros
efeitos da Guerra Fria. O conflito entre Cuba e EUA ficou
mais evidente em Cali, realizado dez anos após a
tentativa de invasão das tropas norte-americanas
na Baía dos Porcos. Pela primeira vez, Cuba ficou
em segundo lugar na classificação geral, mas
o regime de Fidel Castro passou a enfrentar também
os primeiros focos de resistência.
Durante os Jogos, mais de 40 atletas e técnicos
aproveitaram a competição para desertar e
procurar novos destinos fora da Ilha. Para combater, a polícia
cubana colocou agentes infiltrados na equipe e o conflito
chegou ao ápice em 7 de agosto, quando o massagista
Domingo Sanchez foi encontrado morto na frente do prédio
em que estava a delegação cubana. Na época,
suicídio, acidente e até homicídio
cometido pelos agentes eram as hipóteses levantadas.
Outras nações também aproveitaram
para protestar. Imitando um gesto feito por norte-americanos
nas Olimpíadas de Cidade do México-1968, o
porto-riquenho Amado Morales ergueu o punho e virou de costas
para os concorrentes, enquanto o hino norte-americano era
executado no pódio do lançamento de dardo.
O atleta faturou o bronze e alegou que o protesto era para
mostrar o inconformismo contra o imperialismo dos EUA em
seu país. O ato foi reprovado pelo restante da delegação.
Internamente, a Colômbia ainda enfrentou repressões.
Uma semana após o início do Pan, 14 pessoas
foram presas sob suspeita de planejar ato terrorista contra
atletas na Vila Pan-americana. A segurança foi reforçada
e, infelizmente, o alerta não adiantou. Um ano depois,
14 israelenses foram fuzilados por grupos extremistas da
Palestina nas Olimpíadas de Munique-1972.
Lado esportivo Nos esportes, o Pan também
teve surpresas. A equipe dos EUA perdeu de Cuba e acabou
eliminada ainda na fase classificatória do basquete
masculino. O Brasil perdeu dos norte-americanos, mas venceu
Cuba e ficou com a vaga. Depois disso, o time comandado
por Hélio Rubens, Mosquito e Marquinhos derrotou,
outra vez, Cuba por 63 a 62 na final, e ficou com o ouro.
No feminino, as brasileiras foram bicampeãs com
Norminha, Maria Helena Cardoso e Heleninha, que comandaram
vitória sobre Cuba por 66 a 62. A equipe se recuperou
de uma derrota frente ao Canadá, e bateu cubanas
e o time dos EUA para levar o ouro. Ainda nos esportes coletivos,
o futebol decepcionou e não competiu em Cali. No
vôlei, o Brasil foi bronze no masculino.
Já nas modalidades individuais, tiro, remo e levantamento
de peso tiveram boas performances para o Brasil. O tiro
comemorou o primeiro ouro em seis edições
com a vitória de Bertino de Souza na pistola livre.
O esporte ainda teve mais uma prata (Athos Carlos Pasini)
e dois bronzes (José Hamilton Cordova e José
Cristiano de Oliveira) na prova de mestre-atirador.
No remo, o Brasil vibrou com três ouros (quatro sem,
dois com e double skiff), marca que jamais foi repetida
no Pan. Já no levantamento de peso, os brasileiros
trouxeram cinco bronzes, graças a quatro medalhas
de Tamer Chain e outra de Luís Gonzaga de Almeida.
O iatismo também se destacou com três ouros,
incluindo o bicampeonato de Joerg Bruder na classe Finn.
Além das trapalhadas, o Pan de Cali também
será lembrado como a primeira exibição
do peso pesado Teófilo Stevenson, um dos únicos
pugilistas tetracampeões olímpicos da história.
Na Colômbia, o cubano foi apenas o terceiro colocado
nos pesos pesados, subindo no pódio ao lado do brasileiro
Maximiliano de Campos.
Outro nome notável do Pan é o norte-americano
Gary Deal. O halterofilista ganhou quatro medalhas, sendo
três de ouro, na categoria peso pesado do levantamento
de peso. A performance coroou uma carreira que chegou a
ser ameaçada pela poliomielite (paralisação
de parte do corpo) quando Deal tinha apenas sete anos. Mesmo
com a mão e o braço direito paralisados pela
doença, o norte-americano usava o braço esquerdo
para compensar e foi o grande destaque dos Jogos.