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. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . JOGOS PAN-AMERICANOS

Cali/71 (30 de julho a 13 de agosto)

Uma edição cheia de cenas insólitas. Após vencer a eleição da sede por apenas um voto (12 contra 11 de Saint Louis, nos EUA), a cidade de Cali viu um show de trapalhadas. Logo na cerimônia de abertura, o colombiano Jaime Aparício queimou a mão e o antebraço esquerdo, enquanto tentava colocar a chama da tocha na pira olímpica.

No dia seguinte, o brasileiro Danilo Batista enfrentou uma verdadeira via crucis para disputar as provas de boxe. O peso mosca chegou à Cali três quilos acima do peso e teve de ser inscrito no peso galo. A medida não adiantou. A comissão técnica resolveu colocar Batista sob o sol de 30ºC, fez o atleta passar fome na véspera da competição, colocou o pugilista sob inúmeros cobertores à noite. Tudo isso para perder peso e lutar. Mas o esforço foi em vão e, por apenas 150 gramas, o pugilista ficou fora.

Ainda em 1º de agosto, o brasileiro Carlos Alberto passou mal durante a prova dos 10.000m rasos, desmaiou e foi levado ao hospital. Seis dias depois, outro brasileiro sofreu. Alfredo Botelho havia se classificado com o oitavo melhor tempo das eliminatórias para a final dos 200m livre. Entretanto, por um erro da cronometragem, o brasileiro ficou fora da final. A equipe nacional protestou e Botelho conseguiu a vaga, mas após a prova ser realizada. Por isso, o brasileiro foi obrigado a entrar sozinho na piscina e marcar tempo. No final, Botelho foi sétimo colocado.

Ao mesmo tempo, o Pan começou a sentir os primeiros efeitos da Guerra Fria. O conflito entre Cuba e EUA ficou mais evidente em Cali, realizado dez anos após a tentativa de invasão das tropas norte-americanas na Baía dos Porcos. Pela primeira vez, Cuba ficou em segundo lugar na classificação geral, mas o regime de Fidel Castro passou a enfrentar também os primeiros focos de resistência.

Durante os Jogos, mais de 40 atletas e técnicos aproveitaram a competição para desertar e procurar novos destinos fora da Ilha. Para combater, a polícia cubana colocou agentes infiltrados na equipe e o conflito chegou ao ápice em 7 de agosto, quando o massagista Domingo Sanchez foi encontrado morto na frente do prédio em que estava a delegação cubana. Na época, suicídio, acidente e até homicídio cometido pelos agentes eram as hipóteses levantadas.

Outras nações também aproveitaram para protestar. Imitando um gesto feito por norte-americanos nas Olimpíadas de Cidade do México-1968, o porto-riquenho Amado Morales ergueu o punho e virou de costas para os concorrentes, enquanto o hino norte-americano era executado no pódio do lançamento de dardo. O atleta faturou o bronze e alegou que o protesto era para mostrar o inconformismo contra o imperialismo dos EUA em seu país. O ato foi reprovado pelo restante da delegação.

Internamente, a Colômbia ainda enfrentou repressões. Uma semana após o início do Pan, 14 pessoas foram presas sob suspeita de planejar ato terrorista contra atletas na Vila Pan-americana. A segurança foi reforçada e, infelizmente, o alerta não adiantou. Um ano depois, 14 israelenses foram fuzilados por grupos extremistas da Palestina nas Olimpíadas de Munique-1972.

Lado esportivo – Nos esportes, o Pan também teve surpresas. A equipe dos EUA perdeu de Cuba e acabou eliminada ainda na fase classificatória do basquete masculino. O Brasil perdeu dos norte-americanos, mas venceu Cuba e ficou com a vaga. Depois disso, o time comandado por Hélio Rubens, Mosquito e Marquinhos derrotou, outra vez, Cuba por 63 a 62 na final, e ficou com o ouro.

No feminino, as brasileiras foram bicampeãs com Norminha, Maria Helena Cardoso e Heleninha, que comandaram vitória sobre Cuba por 66 a 62. A equipe se recuperou de uma derrota frente ao Canadá, e bateu cubanas e o time dos EUA para levar o ouro. Ainda nos esportes coletivos, o futebol decepcionou e não competiu em Cali. No vôlei, o Brasil foi bronze no masculino.

Já nas modalidades individuais, tiro, remo e levantamento de peso tiveram boas performances para o Brasil. O tiro comemorou o primeiro ouro em seis edições com a vitória de Bertino de Souza na pistola livre. O esporte ainda teve mais uma prata (Athos Carlos Pasini) e dois bronzes (José Hamilton Cordova e José Cristiano de Oliveira) na prova de mestre-atirador.

No remo, o Brasil vibrou com três ouros (quatro sem, dois com e double skiff), marca que jamais foi repetida no Pan. Já no levantamento de peso, os brasileiros trouxeram cinco bronzes, graças a quatro medalhas de Tamer Chain e outra de Luís Gonzaga de Almeida. O iatismo também se destacou com três ouros, incluindo o bicampeonato de Joerg Bruder na classe Finn.

Além das trapalhadas, o Pan de Cali também será lembrado como a primeira exibição do peso pesado Teófilo Stevenson, um dos únicos pugilistas tetracampeões olímpicos da história. Na Colômbia, o cubano foi apenas o terceiro colocado nos pesos pesados, subindo no pódio ao lado do brasileiro Maximiliano de Campos.

Outro nome notável do Pan é o norte-americano Gary Deal. O halterofilista ganhou quatro medalhas, sendo três de ouro, na categoria peso pesado do levantamento de peso. A performance coroou uma carreira que chegou a ser ameaçada pela poliomielite (paralisação de parte do corpo) quando Deal tinha apenas sete anos. Mesmo com a mão e o braço direito paralisados pela doença, o norte-americano usava o braço esquerdo para compensar e foi o grande destaque dos Jogos.

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