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. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . AUTOMOBILISMO

A incrível saga dos nossos brazucas

O BRASIL SE INFILTROU, COM SUCESSO, NUM NEGÓCIO EUROPEU E NORTE-AMERICANO

Por Alec Duarte

O automobilismo é um esporte genuinamente europeu e norte-americano. Foram nessas duas regiões do planeta que a paixão pela velocidade acabou transportada para o plano esportivo, com a criação de corridas, algumas delas disputadas até hoje.

A diferença de postura entre europeus e norte-americanos é flagrante: os últimos sempre preferiram competir entre si, abdicando da participação em torneios internacionais e criando seus próprios — e quase exclusivos — campeonatos. Nós não: poderíamos ter nos fechado em copas, talvez até temendo a concorrência, disputando campeonatos nacionais de fórmulas variadas que, internacionalmente, não teriam qualquer expressão. Optamos por outro caminho e nos demos muitíssimo bem.

A grande pergunta que deve ser respondida ao se relembrar um século de uma das modalidades que mais público atraiu em todos os tempos é: como o Brasil conseguiu se inserir nesse contexto? Como é possível um país, sem nenhum apoio às categorias de base, ter oito título mundiais de F-1, três de Fórmula Indy e diversos representantes nas duas categorias tope do esporte?
Conhecido o retrospecto geral, então, essa vocação brasileira para o automobilismo é ainda mais misteriosa. O que dizer, por exemplo, da França, criadora da primeira competição oficial e considerada um dos berços do esporte, que só tem os quatro títulos mundiais conquistados por Alain Prost na F-1?

Mistério. Longe da Europa e dos Estados Unidos, o Brasil colhe os frutos de um desempenho individual aliado ao apoio do empresas estrangeiras que decidiram investir em nossos talentos.

Nada além do kart está reservado a um jovem piloto brasileiro. Tirando isso, a ascensão fica completamente comprometida. Mas, mesmo assim, nossos atletas continuam disputando, cabeça a cabeça, com os principais nomes do automobilismo mundial.

Quem já acompanhou provas no exterior sabe exatamente do que estamos falando. A paixão e a infra-estrutura que cercam o evento automobilístico europeu e norte-americano está muito além do que poderia supor nossa vã filosofia. Lá, os autódromos são como templos sagrados, têm programações de corridas para praticamente o ano inteiro, com todo tipo de fórmulas e gente de idades variadas competindo e evoluindo.

É desta ciranda que vão saindo os nomes dos pilotos que anos depois, na F-1, atingem o estrelato, acumulam milhões de dólares e entram definitivamente na galeria de heróis. No Brasil? Não, aqui é tudo completamente diferente. É por isso que nos admiramos com histórias como a de Chico Landi, o pioneiro da velocidade em nosso país, que fazia balançar a floresta da Tijuca e a Gávea com sua destreza.

A saga de Emerson Fittipaldi é ainda mais empolgante, até porque foi justamente por causa de seu sucesso que o Brasil ganhou o direito de sediar seu primeiro Grande Prêmio de Fórmula 1. Depois de brilhar nas pistas, Emerson foi pioneiro também fora delas, quando comandou um sonho: o da primeira escuderia de Fórmula 1 inteiramente nacional.

O sonho da Coopersucar durou pouco, é verdade, mas na sua esteira nasceram todos os outros ídolos da história contemporânea. E a posição do Brasil em meio aos competidores estrangeiros ficou cada vez mais marcada pelo sucesso. Foi assim com Nelson Piquet, numa época em que o poderio brasileiro já tinha sido reforçado pelos dois títulos de Fittipaldi. Com Piquet, chegamos à consagração definitiva. Demos um aviso ao mundo: olha, tem gente aqui num país chamado Brasil que sabe pilotar um carro com a obstinação necessária aos grandes campeões.

Mas pouco ou nada foi feito até que aparecesse Ayrton Senna, um ídolo mundial e, sem dúvida, um dos maiores expoentes do automobilismo.
A passagem de Senna pelas pistas do mundo deixou também outra bela lição: a da persistência, da crença no sonho e na capacidade própria. Pode parecer obra divina, mas Ayrton Senna era brasileiro. Outra vez, a magia, esse mistério que mantém inexplicável os segredos do bom desempenho do Brasil. Nem mesmo o fenômeno Senna contribuiu para que alguma coisa mudasse. Continuamos vivendo do brilhantismo de um e de outro.

Na base, abandono total: ainda hoje vale a máxima de que o piloto que quer triunfar num mercado extremamente competitivo precisar mudar de país para poder ter o trabalho avaliado adequadamente e, na hora certa, partir para as categorias de maior destaque.

É assim que vem acontecendo desde os tempos de Emerson Fittipaldi e se repetiu sucessivamente com Piquet, Senna e Rubens Barrichello. Desde a época de Fittipaldi, nossos atletas já sabiam o que teriam de enfrentar pela enfrentar. O próprio Emerson conta, num determinado trecho deste caderno, que a sensação de vitória de italiano que ganhasse uma corrida na Inglaterra não seria a mesma de um sul-americano largado no meio das feras. A conclusão a que estamos chegando é, de certa forma, que a criação de campeonatos menores em nosso país poderá ser capaz de nos transformar, definitivamente, na maior potência mundial do automobilismo, sem dúvida. Os exemplos de Inglaterra (cheia de títulos mundiais) e Itália (onde o fanatismo pela máquina e pela Ferrari falam mais alto) estão aí para serem seguidos. Se com nenhum planejamento e estrutura conseguimos escrever, neste Século 20 que termina, algumas das páginas mais bonitas do esporte que também move multidões, a solução para todos os nossos problemas é óbvia.

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