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O esporte perseguido
O boxe tem histórias notáveis, mas coleciona detratores
na mesma proporção que ganha fãs
ALEC DUARTE
Quem passa rapidamente os olhos pela história do boxe
no século 20 custa a entender por que tanta gente -
e gente esclarecida, com opiniões fortes e consistentes
- continua a perseguir o esporte não por acaso denominado
nobre arte. Os que atacam, pedindo inclusive a extinção
do pugilismo, dizem as mais variadas coisas. Pura bobagem.
Os detratores do boxe parecem se esquecer da sensibilidade
de Muhammad Ali, seu principal expoente. Uma boa oportunidade
de se checar toda a personalidade contraditória de Ali
é o documentário Quando éramos reis, que chegou
a ganhar o Oscar.
A fita mostra a reação do mundo e especialmente do Zaire,
cenário da luta quando Ali e George Foreman se enfrentaram
na disputa pelo título mundial em 1974.
Multidões voltaram sua atenção para o centro da África.
O combate ganhou todas as manchetes dos jornais e foi
o assunto dos bares, das ruas, das escolas e das favelas.
O planeta Terra respirou boxe.
No ringue, a questão não era quem iria massacrar quem.
O boxe, como qualquer outro esporte, tem regras, táticas
e estratégias e um árbitro, entre os dois pugilistas,
que também deve zelar pela saúde de todos.
É por isso que o boxe não pode ser considerado um massacre.
Um lutador profissional treina muitas semanas, às vezes
meses a fio sem descanso, para encarar um rival igualmente
preparado.
Foi o que aconteceu no Zaire, em 74. Reveja as cenas
do documentário. Tenha uma mostra, bastante reduzida,
de todo o trabalho que antecede o combate. Suor, lágrimas
e sangue, é claro. É uma modalidade genuinamente de
contato físico (que é, por sinal, o que determina o
vencedor).
Mesmo assim, a campanha contra o boxe prossegue. E o
principal aspecto nunca é tocado: o da responsabilidade
de treinadores pouco capazes que jogam seus pupilos
na fogueira. É nessa situação que acontecem as grandes
tragédias. Percorra as páginas desse caderno e tente
descobrir se algum lutador importante ou bem assessorado
do boxe mundial teve problemas durante suas lutas. Os
registros são pífios, quase bissextos.
Os dramas acontecem sempre com gente mal-preparada que,
por um infortúnio qualquer ou falta de escrúpulo de
quem acompanha sua carreira, acaba cruzando o caminho
de uma lutador muito mais qualificado. A culpa é do
boxe ou dos métodos utilizados pelas pessoas que nele
trabalham?
No Brasil, felizmente o esporte não fez vítimas recentes.
Ao contrário: nos últimos anos, assistimos ao preocupante
surgimento de Acelino Freitas, tornado Popó pela mídia
louca por um novo ídolo que seja um bom campeão de audiência
e, conseqüentemente, um bom vendedor de produtos.
Popó é bom de briga e tem boa técnica, mas pode se tornar
uma vítima da falta de planejamento na carreira. Por
enquanto, enfrentou rivais de qualidade duvidosa e corre
o risco de trilhar o mesmo caminho percorrido por Maguila
- que se converteu numa piada quando decidiu enfrentar
os grandes do boxe mundial e deu com a cara no chão.
Eder Jofre, ao contrário, é tudo aquilo que a gente
sempre quis: um campeão de verdade. Talvez o boxe, em
nosso país, esteja mesmo precisando de outros Jofres
para aplacar a fúria daqueles que, sem ter para quem
torcer, torcem o nariz para uma das modalidades mais
técnicas e plásticas que o homem ousou criar.
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