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. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . PERFEITA SOLIDARIEDADE
Perfeita solidariedade

O companheirismo exigido pelos esportes coletivos é condição natural para sua existência

REINALDO CARRERA

As competições coletivas são o fiel retrato da solidariedade esportiva e que deveria ser a marca de nossas próprias vidas. Ou seja, quando se trabalha e vive em conjunto não se deve abrir espaço para individualidades específicas. Não que o esporte seja marcado exclusivamente por um um todo. Afinal, estrelas sempre vão brilhar nas quadras, piscinas e campos de todo o mundo.

Quando se começou a criar esportes com a participação de um grupo, o princípio era o de que cada atleta exerceria uma função, para cobrir um espaço determinado e uma atividade complementar do companheiro. Não se pensava em indivíduos isoladamente. Deveria haver cumplicidade, confiança e crença em uma outra pessoa que estava ao seu lado.

Só assim era possível igualar os altos com os de estatura inferior, os mais fortes com os de menor potência e os mais velozes com aqueles que vêm atrás mas que, certamente, vão chegar. Tudo com simplicidade e harmonia.

Mas era chegado o momento de demonstrar esse 'pequeno discurso' ao público. E a resposta foi a melhor possível. A alegria, a disputa, o sorriso, a lágrima, tudo, enfim, seduziu o mais frio dos observadores. E são exatamente as equipes - sejam elas de que modalidade for - que atraem multidões, que desenvolvem paixões alucinadas e permitem uma intimidade além de qualquer fronteira psicológica.

O espelho do desempenho coletivo é, e sempre será, o reflexo do que todos nós imaginamos em nosso cotidiano: a revolta momentânea com o erro ou a falha do parceiro e a divisão dos melhores instantes apenas sugerem que devemos ser humildes e solidários. O tempo inteiro.

No século que está terminando agora, as imagens que nos vêm à lembrança ultrapassam os ensinamentos de qualquer professor em sala de aula. Sempre é bom saber que atrás de um atacante há um goleiro, de que atrás de um pivô há um assistente, de que atrás de um cortador há um levantador - mais parecendo um garçom que não se importa em ser chamado durante toda uma noite para servir pessoas (que na maioria das vezes não conhece) e, mesmo assim, se sentir feliz pela tarefa cumprida.
E é cada vez mais comum a criação de novas modalidades que permitam a aproximação dos indivíduos e, saber que se pode dividir frustrações e equívocos, é melhor que amargar o gosto da derrota sozinho. Não que isso isente qualquer um de nós de assumir as falhas, porém, serve de estímulo para a amizade e a confraternização.

A mesma que se pode acompanhar a cada dia pela tevê ou Internet em todas as partes do planeta. Todos nós somos capazes de nos emocionar com uma luta acirrada entre potências esportivas no basquete, vôlei ou futebol e, ao mesmo tempo, nos sentir tocados por jogos em que as diferenças técnicas são indiscutíveis.

Assim como a música não nos deixa esquecer de bandas como Beatles, Rolling Stones, Dire Straits e U2, existem times que são verdadeiros referenciais para os apaixonados pelo esporte. Como esquecer o Dream Team norte-americano de basquete que pôde reunir, de uma vez só (e do mesmo lado da quadra), astros da grandeza de Michael Jordan, Magic Johnson, Larry Bird, Patrick Ewing, John Stokton, Scottie Pipen, Karl Malone, David Robinson e Charles Barkley? Nem mesmo o All Star Game - seleção dos melhores de cada Conferência -, promovido anualmente dentro dos Estados Unidos foi capaz disso.

E, provavelmente, aquele tenha sido um dos grandes momentos mágicos de esforço coletivo, aliado ao desprendimento individual, pois todos aqueles jogadores (com exceção do jovem Chris Laettner) não precisam estar ali para provar mais nada.

Ricos, famosos e transportados aos céus como uma verdadeira constelação de estrelas, o que os uniu foi o desejo e também uma certa pressão da opinião pública de seu país de conquistar uma simples 'medalha' de ouro olímpica. Afinal, eles ainda se sentiam ofendidos e chocados com a derrota para os brasileiros nos Jogos Pan-americanos de Indianápolis, em 1987.

Mas, daquele saudoso ano de 1992, talvez se possa traçar o melhor paralelo do esporte neste século e, por que não dizer, com a vida de todos nós. Não que aqueles grandes jogadores não tivessem problemas de relacionamento ou desejos individuais - esportivos e financeiros. Longe disso. Mas, em quadra, eles estiveram sujeitos a dividir prestígio, preocupações, lágrimas e felicidade, mesmo que por poucos jogos.
E é exatamente esse relacionamento, de abrir mão de recompensas exclusivas, que buscamos em nossa vida com todas as outras pessoas: para estarmos juntos e unidos - como qualquer equipe, de qualquer esporte - é bom aprendermos a lição de que um mais um é sempre mais que apenas dois.
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