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O privilégio de jogar duas Copas

A ALEGRIA DE MARCAR UM GOL E A TRISTEZA DE PERDER UM PÊNALTI

SÓCRATES

Quando pisei no gramado de Sevilha e senti a pulsação que emanava do público presente, correu por meu corpo um arrepio saboroso. O prazer que lambuzava minha alma me fez lembrar, naquele instante, dos anos em que me havia proposto a encarar o maior desafio de minha vida até então. Foram os quatro longos períodos em que, graças a imensos esforços, conciliei meus estudos médicos com o futebol profissional. As centenas de horas que passei acordado sobre os livros, os plantões que teimavam em demorar a acabar, o eterno preocupar-me com as escalas de ambulatório, a correria que se instalava para conseguir trocar de dia com algum colega e poder assim responder às minhas responsabilidades com meu clube - tudo isto me vinha à mente e sorrateiramente uma ponta de orgulho aninhou-se em minha face, fazendo-a tornar-se mais brilhante e altaneira.

Perfilado para o Hino Nacional, pude perceber a importância da tarja verde e amarela que repousava em meu braço direito. Representar minha nação, minha pátria; era assim que me sentia. Uma responsabilidade absoluta que jamais iria ser suplantada. Aqueles momentos foram mágicos. Parecia que o conteúdo de seus versos eram ainda mais profundos e aquilo me acalmava. Quando enfim começou a partida, voltei a ver cada detalhe com o realismo de antes. Jogo duro, difícil. A bola teimava em não se aproximar da meta adversária e quando o fazia era interceptada por um gigante.

Faltando pouco para o final da partida, e jamais pude saber quanto, tive talvez minha primeira oportunidade de tentar o empate. A bola saiu de meus pés com uma certeza rara e finalmente pôde beijar aquelas redes tão ansiadas. O alívio, a emoção, o regurgitar de euforia, tomou conta de meu corpo como uma paixão fulminante. Joguei tudo para fora. Uma sensação de paz, de calma, apossou-se de meu consciente. Ali era o verdadeiro começo de tudo. Era uma estranha forma de me fazer presente e de me tocar com suavidade.
Ao final daquele dia estava esgotado, suado, satisfeito, feliz, e dormi com a dificuldade dos que sonham com o realismo vivido. Uma forma de estimular a cada instante a mobilização de todos para as várias batalhas que se seguiriam era o de determinar alguns objetivos entre expressões metafóricas. "Faltam x dias para voltarmos para casa" - e estes dias eram exatamente o que faltavam para a final da Copa. "Farei o primeiro e o último gol do time na Copa" - o primeiro plano intuitivo havia correspondido à assertiva.

O samba, que corria solto durante as longas viagens em nosso ônibus para os treinamentos e jogos, nos fazia sorrir. "Voa canarinho voa, mostra para este povo que és um rei". As ágeis mãos de Edvaldo, Júnior, Chulapa, Galo, e o cantar de todos, embalavam nossos sonhos. Meninos ainda e com tanta responsabilidade nos ombros.

E íamos em frente. A grande apresentação contra a Escócia desencadeou uma avalanche de jornalistas em torno de nós. Chegávamos a demorar mais de hora para tomar nossos banhos depois de cada treino. Japoneses, chineses, iranianos, franceses, hondurenhos, argentinos, italianos, albaneses, checos, árabes. Estávamos rodeados pelo mundo. Preocupava-me todo aquele séquito. Poderia provocar alguma onda de estrelismo nos menos avisados. Isso jamais deveria acontecer porque estaríamos colocando em risco nossa maior riqueza: a união e a solidariedade - difícil de ser conquistada e fácil de ser destruída.
Passei muito tempo a observar a todos. Um deles me pareceu algo modificado. Chegamos a perder uma jogada de gol contra a Nova Zelândia, em que éramos quatro contra dois, porque ele resolveu chutar do meio de campo. É claro que a tentativa era válida mas nunca foi comum naquele time. Tentaremos reverter a situação a partir de amanhã, pensei resignado, já me dirigindo a uma sala onde faria o antidoping. Extenuado e desidratado, após uma partida realizada sob um sol de 40 graus, imaginei que não poderia oferecer minha amostra em pouco tempo.

Salto para quatro anos depois, 86. Agora sou o último da fila. A tarja que envergo não está mais no braço. Alçou-se à testa. Foi a forma de demonstrar minha insatisfação com a insanidade humana. Ao primeiro toque do Hino, ouvi uma nota dissonante: "Salve lindo pendão...". Chega...pare! A bela homenagem a nossa bandeira não deveria estar ali. Virei-me, balancei a cabeça em desaprovação, incomodado com tamanho desatino - mas não com minha volta ao meio de campo após perder o precioso pênalti. De cabeça erguida, me despedi das Copas do Mundo. Imensas alegrias, gigantescas tristezas. É por essas variações que valeu a pena ter vivido tão luminoso evento.
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