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  O privilégio de jogar
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Foto Gazeta Press
Foto Gazeta Press
A primeira conquista

O BRASIL É O ÚNICO PAÍS A VENCER UMA COPA FORA DE SEU CONTINENTE

Aqui, o mundo passaria a respeitar o futebol brasileiro. A Suécia é indicada como sede pela neutralidade do país na guerra. Assim, a Fifa adota o mesmo critério utilizado para a escolha anterior da Suíça. O divino casamento entre a bola e Pelé iria selar uma eterna cumplicidade. De repente, o menino, que começa a virar o Rei do planeta, libera o choro de felicidade nos ombros do goleiro Gilmar. Ah, mas não é só ele. Incomparável, sim, mas não o único ator do show. Só quem viu Garrincha bailar na frente dos Joões — todo lateral parecia um João desengonçado — pode testemunhar. Djalma Santos, que arremessava um lateral como se desse um chute, de tão longe que lançava. Didi, que inventou o chute folha-seca. Nilton Santos, a Enciclopédia. Vavá, o Peito de Aço. Zagallo, o Formiguinha.

Apelidos, enfim, que reaquecem o repertório dos narradores Edson Leite, Pedro Luís, Fiori Gigliotti e Geraldo José de Almeida, as principais feras do rádio esportivo mais romântico de todos os tempos. Muito tempo depois, Osmar Santos, absoluto, entraria no circuito.

Sem teipes ou transmissão direta, só o rádio podia contar que o título é do Brasil contra a Suécia, que organiza tudo, mas não leva. Vavá (dois), Pelé (dois) e Zagallo definemos 5 a 2. Até alcançar a final da Copa do Mundo, os brasileiros passam pela Áustria — 3 a 0, Mazola (dois) e Nilton Santos — Inglaterra — 0 a 0 — União Soviética — 2 a 0, Vavá (dois) — País de Gales — 1 a 0, Pelé — e França — 5 a 2, Vavá, Didi e Pelé (três). O Brasil supera o penúltimo degrau, vai à final diante dos suecos e se impõe e goleia fácil no estádio Solna (Raasunda-Estocolmo).

Os mitos ficam na reserva

Nem Pelé nem Garrincha. Os futuros mitos iniciam o Mundial da Suécia como simples reservas. Contra os autríacos, o técnico Vicente Feola escala Gilmar; De Sordi, Bellini, Orlando e Nilton Santos; Dino Sani e Didi; Joel, Mazola, Dida e Zagallo. Diante dos ingleses, Feola repete o time. Pelé e Garrincha — a exemplo de Zito — estréiam nos 2 a 0 contra os soviéticos. Entre lendas e folclores, contam que os líderes do grupo teriam exigido a presença de ambos nas vagas de Joel e Dida. Zito substitui Dino Sani. Feola cede. Discutir o quê? A Seleção embala e dispara. Logo, Vavá aparece na equipe. Djalma Santos entra somente na finalíssima. De Sordi sai da lateral-direita. Daqueles que começam como titulares, Mazola também dança. O francês Just Fontaine marca 13 dos 126 gols do torneio. Recorde, aliás, que o transforma no principal artilheiro da história das Copas. No entanto, Pelé, franzino e esguio, encanta os torcedores. É o rei das manchetes, que destacam o futebol arte do menino e dos novos monstros sagrados do futebol.

Todos enaltecem o trabalho do chefe da delegação, Paulo Machado de Carvalho, o “marechal da vitória”. Os jornalistas Ary Silva, Flávio Iazzetti e Paulo Planet Buarque o ajudam a montar o planejamento. Bastaria acionar a estrutura inteligentemente preparada. Na base da conversa ao pé do ouvido, o marechal motiva o grupo. Cria e recria estímulos individuais ou coletivos. E não é que ele sugere as camisas azuis — e não mais as amarelas — para que o Brasil dê sorte na final contra os suecos? Diz aos jogadores que a cor da manta de Nossa Senhora santificaria os jogadores. Será que não foi isso mesmo?
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