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FUTEBOL E CIDADANIA

O ESPORTE MAIS POPULAR DO PAÍS TAMBÉM FOI, NO SÉCULO 20, A INSTITUIÇÃO MAIS DEMOCRÁTICA

Carlos Dias

O futebol bem que merecia hoje, último dia do século, uma homenagem especial. Fogos de artifício na Baía da Guanabara e pronunciamento do presidente da República em rede nacional de rádio e televisão seriam pouco para reconhecer a importância da mais fabulosa ferramenta de democracia e cidadania que este País já conheceu. Exagero? Nada disso.

Para ser jogador de futebol no Brasil, o mais importante é ter talento. Pouco importa que o candidato seja pobre ou rico, analfabeto ou intelectual, negro ou branco, feio ou bonito. De nada adianta ter um tio influente, ser de família tradicional ou amigo de um senador. Se não souber dominar uma bola, é melhor arrumar outra coisa para fazer.

Por conta disso, a profissão de jogador de futebol é a que representa com mais justiça a população brasileira em qualquer aspecto, seja racial ou sócio-econômico - e expõe a injustiça que caracteriza o restante da sociedade. Nenhuma outra atividade profissional retrata com mais precisão a realidade do País, incluindo os seus defeitos. Por isso, é a que tem mais iletrados, mais pobres e mais negros - todos com chances inigualáveis de ascensão social. Pelé jamais teria alcançado tamanho sucesso não fosse o futebol.

Mas tudo isso ainda é o de menos. Afinal, apenas uma pequeníssima parcela dos jogadores chega a realizar o sonho do salário de cinco dígitos, em dólar, com direito a um carro importado na garagem. Para a maioria dos brasileiros que sobrevive com parcos vencimentos, o grande benefício do futebol é o resgate da cidadania.

O esporte transforma todos os dias milhares de joões-ninguém em cinderelas, que ao calçarem suas chuteiras se convertem em cidadãos. Com o futebol, eles passam a andar de cabeça erguida e ganham respeito de suas comunidades e de si mesmos.

Para um povo acostumado a ter sua auto-estima ferida constantemente, o futebol é um bálsamo. Isso não é pouco. Afinal de contas, o brasileiro tem pouca confiança nas suas instituições mais importantes. Desconfia dos políticos, tem medo da polícia e nem recorre à Justiça porque não acredita que ela funcione. Já no futebol, o que ele tem é fé, depositada a cada fim-de-semana nas bilheterias dos estádios e manifestada no agitar das bandeiras. E não é só no gramado que a democracia do futebol mostra o seu poder. Uma torcida é capaz até de derrubar técnicos e influenciar a escalação de jogadores. Se os torcedores se dessem conta da força que têm e a exercessem nas urnas, o Brasil mudaria muito.

Tudo isso acontece porque o futebol é provavelmente a única unanimidade nacional. No Oiapoque não se come feijoada e no Chuí ninguém liga para samba. Mas futebol todo mundo joga, até no meio da selva amazonica. Não importa a idade nem o lugar. Basta uma bola - qualquer bola - e um pedaço de chão, algo que o Brasil tem de sobra. Pode ser uma rua, um quintal, o corredor de casa ou uma praia. Com um pouco de boa vontade, um par de chinelos fincado na areia transforma-se em traves e, com imaginação, cria-se um belo e invisível travessão. Não é preciso ter onze contra onze. Pode ser cinco contra quatro, um contra um, três contra dois. Sempre se dá um jeito. O brasileiro joga até sozinho. Até uma folha de papel amassada se converte numa bola boa o suficiente até para praticar embaixadas no meio de um escritório.

Além do mais, trata-se de um dos poucos esportes que não requerem características físicas específicas, como o basquete, por exemplo. Nem dinheiro, como acontece no tênis. É no campo de futebol que os brasileiros - seguidores de Pelé e seus apóstolos de chuteiras - resgatam sua auto-estima e sentem-se em pé de igualdade atletas de países mais desenvolvidos. A capacidade de ir à Lua ou de construir aviões não vale nada no gramado, onde a democracia é exercida com sabedoria divina.

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