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Quando a bola começou
a rolar
CHARLES MILLER INTRODUZ O FUTEBOL NO PAÍS EM 1894
Agora, parem de falar de Pelé, Garrincha, Maradona,
Di Stefano, Eusébio, Puskas e de outros gênios que seguiriam
os rastros de Charles Miller. Voltem o relógio do tempo.
Recuem 100 anos. Conheçam o primeiro dono da bola. O
introdutor do futebol no País mal sabia o alvoroço que
iria arrumar. Quem diria que aquele corre-corre nos
pastos esburacados iria se transformar em uma coisa
muito séria neste País?
Diz-se que o ponto de referência oficial é 1894, o que
está correto. Mas os primeros registros escritos estão
na virada do século. Nosso pioneiro não apenas ensinou
as regras, mas também jogava direitinho no São Paulo
Athletic Club. Já falaram um monte de vezes que Charles
Miller era inglês. É bom esclarecer: seus pais - John
e Carlota Alexandrina - é que eram. Eles chegam da Europa
para viver aqui. O filho paulistano nasceu no Brás,
na rua Monsenhor Andrade, mas estudou na Inglaterra.
Charles atuou como centroavante no Southampton. Aos
19 anos, integrou uma seleção de Hampshire contra o
famoso Corinthians, que daria origem ao alvinegro daqui.
Como era baixinho, o chamam de Nipper(garoto). Ao voltar
à Europa, ele trouxe duas bolas. Além de introduzir
o futebol no País, Charles ocupou a presidência do São
Paulo Athletic, vestiu a camisa nove (como capitão)
e carregou o time nas costas. Um dia, virou até árbitro.
A moda pegou. Então, Miller sugeriu aos jornais da época
que divulgassem o futebol. No entanto, os editores de
"O Estado de São Paulo", de "A Platéia" e do "Diário
Popular", desconfiados, responderam que "tal assunto
não nos interessa".
Em 1900, Charles Miller, Hans Nobiling (um dos craques
da época) e Antonio Casimiro da Costa, o Costinha, passaram
a colocar ordem na casa. Em 1901, criaram a Liga Paulista.
Costinha, atacante do Internacional (rival do Mackenzie
College) ocuparia a presidência da entidade. Os três
clubes de São Paulo protagonizariam duelos acirradíssimos
nos campos do Velódromo e da Chácara dos Ingleses.
O começo da estrutura
Depois que Costinha decide assinar a ata de fundação
da Liga Paulista, em dezembro de 1901, na rua José Bonifácio
(esquina com São Bento), o futebol não pára mais de
evoluir. A futura estrutura iria se profissionalizar.
Antes da passagem do século, existem o São Paulo Athletic
Club (desde 1888, o clube dos ingleses praticam o cricket,
semelhante ao rúgbi). Em 1894, Charles Miller entra
no circuito. Em 1897, o alemão Hans Nobiling desembarca
na capital paulista e reúne os amigos comerciários para
formar mais uma equipe da colônia. Em agosto 1899, Nobiling
prefere que se dê o nome de Germania ao time avulso.
Prevalece SC Internacional. Em 7 de setembro, os dissidentes,
inclusive Nobiling, fundam o Germania, atual Pinheiros.
Na verdade, o primeiro time essencialmente de brasileiros
é o Mackenzie College (1898).
Portanto, é engano pensar que a Ponte Preta é o clube
mais antigo do país. Em janeiro de 1900, dão um sopro
de vida ao Savóia, de Sorocaba, que se transformaria
no Votorantim. Sem caráter oficial, o Fortaleza e o
Sorocabano já rolam a bola na periferia. No dia 14 de
julho, fundam o Sport Club Rio Grande-RS. Depois, sim,
vem a Ponte Preta de Campinas (14 de agosto) e o Paulistano
(dia 29 de dezembro).
A polêmica que não tem fim
Se vocês participarem de uma animada conversa nos botequins
das esquinas do futebol, certamente perceberão que a
polêmica nunca tem fim. Os mais antigos juram que Friedenreich
e Araken Patuskas foram melhores que Pelé. Os antigos
fãs de Leônidas da Silva, ou de Zizinho, batem o pé.
Não admitem comparações. Se é para esquentar o bate-boca,
acrescentaremos outro nome que arrancou aplausos no
século 19: Hermann Friese, contemporâneo de Charles
Miller. Em 1903, o alemãozinho sai de Hamburgo e emigra
para o Brasil. Ao desembarcar em São Paulo, procura
o pessoal do Germania. Friese, 21 anos, é um `fenômeno.
Relatos da época mostram que o 'Reizinho' merece até
versos de D´Emetége (Paulicéia, 1905). Um trecho: "Este
é o mestre cá da terra/Não teme vento nem sol/Quando
joga o futebol/E não teme temporais/ Ao jogo se dedica/Em
trinta se multiplica..." Além do talento no futebol,
ele dedica-se ao atletismo e conquista títulos europeus.
Em maio de 1907, Friese vai aos Juegos Olimpicos Internacionales,
em Montevidéu, Uruguai, como "único representante brasileiro".
Contundido na véspera, participa "só de três provas"
e ganha nos 800m e nos 1500m. Nos 400m, fica em segundo.
Uma das crônicas de "O Estado de São Paulo" (1903) o
considera "o jogador mais sensacional de todos os tempos".
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