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Um penetra na festa

POR QUE FALAR EM ERIC MOUSSAMBANI NUM CADERNO QUE REMEMORA OS SUPER-HERÓIS DO SÉCULO?

ALEC DUARTE

Você não vai encontrar neste caderno especial que repassa 100 anos de natação nenhuma referência a Eric Moussambani. Também, pudera: o atleta da Guiné Equatorial é dono da pior marca de todos os tempos nos 100m nado livre, uma das provas clássicas da Olimpíada.

Este ano, em Sydney, Moussambani emocionou o mundo ao sair da água com a espantosa marca de 1min52s72. Se recuássemos 104 anos no tempo descobriríamos que o primeiro recordista olímpico, o húngaro Alfred Hagus, cravou 1min22s02 para a mesma distância - com a ressalva que, em Atenas/1896, as provas foram disputadas em águas abertas, no mar revolto.

Por que, então, a história de Eric Moussambani foi a escolhida para abrir um caderno preocupado essencialmente em contar as glórias daqueles que, com dedicação e esforço, escreveram as páginas mais belas da história da natação? Porque Moussambani, um simples mortal, conseguiu penetrar no mundo dos super-heróis.

A natação, assim como o atletismo, é uma fábrica de super-heróis. A frase não é apenas recurso de retórica se lembramos a trajetória do romeno naturalizado norte-americano Johnny Weissmuller. Ele brilhou tanto nas competições que acabou recebendo um convite para se tornar Tarzan, o rei da selva.

Mark Spitz, outra lenda da natação, virou estrela de televisão depois de faturar sete medalhas de ouro em Munique/72. Mas o filme mais trágico que ele participou, para seu desespero, era pura verdade: o massacre de 5 de setembro de 72, quando um grupo terrorista invadiu a Vila Olímpica e fez membros da delegação de Israel como reféns. A ação terminou com um total de 15 mortos.

Spitz, de origem judaica, temeu por sua vida. Assim que acabaram as competições na piscina olímpíca de Munique, ele armou um esquema de guerra para deixar a Alemanha em segurança. De volta aos Estados Unidos, não ficou tranqüilo: viajou pelo mundo, sem destino certo, até que sentisse em segurança para retomar a vida.

Os super-heróis modernos da natação não precisam temer pela vida. Pelo contrário: dispõem de um séquito preocupado em lhes dar totais condições de superar marcas e, assim, contar com verbas ainda mais generosas dos patrocinadores.

Pense em Pieter van Hoogenband, o holandês que bateu o recorde mundial dos 100m nado livre em Sydney/2000 com 47s84. Assim como o fenômeno australiano Ian Thorpe, ele tem todo o respaldo para trabalhar com tranqüilidade.

Hoje, a natação é assim: uma caça aos que usam substâncias proibidas, enquanto foras-de-série convivem diariamente com a desconfiança. Um exemplo clássico de sensação da vitória da tecnologia pró-drogas - que se esmera em superar o rigor dos controles - é a performance das alemãs orientais Kornelia Ender e Kristin Otto, até hoje colocadas sob suspeita, no banco dos réus, apesar de nunca terem sido pegas num exame. O cartel das duas é brilhante: Kornelia tem quatro ouros e quatro pratas olímpicas, enquanto Otto faturou seis ouros, com direito a seis recordes mundiais. Mulheres maravilha ou apenas produtos das drogas?

É por isso que Moussambani e seus 1min52s72 merecem um lugar de destaque nessa história. Um ser humano comum, sem grandes aspirações, decidiu que poderia encarar super-homens nos Jogos Olímpicos. Deixou a piscina de cabeça erguida, aplaudido pelo mundo.

E deu um belo exemplo de que a competição, apenas pela competição, é a maior virtude de quem decide praticar um esporte.
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