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TRADIÇÃO
E MODERNIDADE
O TÊNIS ATRAVESSA O SÉCULO 20 COM INOVAÇÕES
CONSTANTES, MAS SEM DESPREZAR SUAS RAÍZES
José Nilton Dalcim
Possível ser tradicional e inovador ao mesmo tempo?
O tênis tentou provar, durante este século, que sim.
O esporte, de veias medievais, renasceu na Inglaterra
em 1877, ao ser criado o torneio de Wimbledon. O evento,
que pretendia apenas aumentar a arrecadação para o All
England Club, precisou estabelecer algumas regras, já
que o tênis de saias longas e roupa social era praticado
de diferentes formas pelos campos aristocráticos. A
quadra se tornou retangular, com pouco mais de 23m de
comprimento, e a contagem foi oficializada no "15, 30,
40 e game", retomando os tempos em que o jogo era disputado
em salões imensos e dava-se 15 passos à frente para
"sacar" a cada ponto ganho.
Estavam criados a forma, o tamanho e as exigências.
O tênis nunca mais mudou. Pouquíssimas coisas foram
introduzidas desde então, geralmente aceitas devido
ao avanço tecnológico do equipamento. A alteração mais
radical talvez tenha sido o tie-break, sistema de desempate
ao final de cada set, mas ainda assim foi uma transformação
penosa. Apesar de existir desde os anos 50, só foi adotado
já na Era Profissional, 20 anos depois. Wimbledon admitiu
o tie-break apenas nos quatro primeiros sets a partir
de 76 e a Copa Davis esperou até a década de 90.
Tradição tem sido palavra-chave no tênis, ainda que
tenha deixado de lado a roupa predominantemente branca,
exceto obviamente em Wimbledon. Jogos eliminatórios,
silêncio e ar elitista são marcas registradas.
Mas o tênis, paradoxalmente, mudou a história do próprio
esporte em muitos aspectos, a começar pelo regime profissional,
que adotou a partir de 68. Na verdade, competir por
recompensa financeira era uma prática dos anos 30, onde
se organizava duelos e campeonatos com premiação e apostas.
A Federação Internacional baniu então os profissionais
de seus eventos, alegando deturpação do espírito esportivo.
O regulamento durou até 68, quando finalmente se admitiu
a presença dos profissionais e, mais que isso, criou-se
um autêntico circuito internacional de torneios, com
premiação em dinheiro a cada vitória. Desde 1970, o
circuito passou a ser encerrado com um Masters, espécie
de tira-teima para definir o melhor jogador da temporada.
A essas inovações, seguiu-se o ranking mundial, em 74
para os homens e no ano seguinte para as mulheres. Ao
se olhar para a estrutura da maciça maioria das modalidades
individuais de hoje, incluindo atletismo e natação,
a figura do circuito, do Masters e do ranking é norma.
O vôlei adotou o tie-break, o "set point" e o "match
point".
A contribuição definitiva, porém, aconteceria na metade
dos anos 80, quando o tênis incluiu a ciência no seu
processo de treinamento. Ivan Lendl e Martina Navratilova
foram os precursores de métodos pouco habituais. Cercaram-se
de especialistas em diversas áreas, que ia da nutrição
à musculação, e recorreram ao estudo de adversários
por estatística e à raquete construída sob medida de
seus golpes. Lendl dançava balé, Martina jogava basquete,
tudo em prol da forma física perfeita, do trabalho de
pé irretocável, da plástica de movimentos. Foi uma revolução,
que dividiu a própria era profissional em duas fases.
A força entrou em ação, nas rebatidas mecânicas de Lendl,
na habilidade incomparável de Martina. Levou-se algum
tempo para assimilar o que significava o tênis-força,
após a troca tão radical entre a raquete de madeira,
que só foi aposentada em 84, e materiais cada vez mais
leves, resistentes e aerodinâmicos. Para provar sua
capacidade de conviver com a tradição e a modernidade,
o tênis precisou então reencontrar o equilíbrio e a
magia, perdidos em meio às dezenas de aces e bolas inalcançáveis.
Não foi tão difícil, nem tão demorado como se imaginava.
Heróis de 40 anos, como Jimmy Connors, brilharam entre
a garotada, enquanto o tênis feminino se mostrava capaz
de revelar caras novas com freqüência quase assustadora.
Apesar das dissidências históricas entre a Federação
Internacional e as Associações profissionais, conseguiu-se
revigorar os Grand Slam e a Copa Davis.
O tênis entra em seu terceiro século com expectativa
animadora. Se é verdade que as estrelas norte-americanas
estão decadentes, o crescimento global nunca foi tão
expressivo. A Europa bate recordes de público e recoloca
o tênis em canal aberto de TV. O circuito profissional
chega de vez ao Terceiro Mundo e programas internacionais
de incentivo à prática se multiplicam. O tênis mantém
a cabeça no passado, mas aprendeu a abrir os olhos para
o futuro.
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