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04/04/2007
CLAUDINEI QUIRINO. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Mais um vitorioso contra a pobreza
Foto: Reuters
Foto: Reuters

Nome: Claudinei Quirino da Silva
Data de nascimento: 19 de novembro de 1970
Local: Lençóis Paulistas (SP)
Especialidade: 100m, 200m e 4x100m rasos e 400m
Principais resultados: Bronze nos 200m do Mundial de Atletismo de Atenas/97, com 20s26,
Prata no Mundial de Sevilha/99, na mesma prova, com 20s,
Ouro nos 200m na etapa final do Grand Prix da IAAF em Munique/99 (19s89),
Jogos Pan-americanos de Winnipeg-99:
Ouro nos 200m, com 20s30, e no revezamento 4x100m, com 38s18 (com Edson Luciano Ribeiro, Raphael Raymundo e André Domingos),
Prata no revezamento 4x400m, com 2min58s56 (ao lado de Anderson Jorge dos Santos, Eronildes Araújo e Sanderlei Parrela) e
Bronze nos 100m, com 10s13,
Olimpíada de Sydney-00:
Prata no revezamento 4x100m com 37s90 (no quarteto formado por Edson Luciano, André Domingos e Vicente Lenílson),
Jogos Pan-americanos de Santo Domingo-2003:
Prata no 4x100m, com a mesma formação de Sydney
Participações olímpicas: Atlanta-96 e Sydney-2000

Eu disse: 'Vai negão, que é a última. E foi.' Assim, com a voz embargada, Vicente Lenílson reproduz sua fala para o companheiro Claudinei Quirino, segundo homem do revezamento 4x100m vencedor do Troféu Brasil de Atletismo de 2005. A prova, disputada no estádio Ícaro de Castro Melo, no Ibirapuera, em São Paulo, marcou a despedida de Claudinei, que abandonou as pistas por não conseguir se recuperar de um problema no púbis.

A corrida do adeus foi com Vicente e André Domingos, que o acompanharam também em uma das principais conquistas do atletismo nacional, a prata nas Olimpíadas de Sydney-00. O jovem Bruno Pacheco fechou a corrida, cruzando a linha de chegada em 39s24 e garantindo a vitória.

Sem conter as lágrimas, André, o terceiro homem na corrida, descreveu o que ouviu do colega. 'Uma voz enfraquecida disse: 'Vai André!'. Mas senti que ele não queria passar o bastão, queria que a prova durasse toda a eternidade. É uma dor muito grande, não dá pra descrever.'

Claudinei diz ter gritado muito depois de cumprir sua última missão pelo atletismo e também ter feito um agradecimento a Deus. 'Estou triste por estar parando assim, porque não queria que fosse agora, mas estou orgulhoso por ter feito parte de uma geração vitoriosa', ressaltou.

O técnico Jayme Neto, que orientou o velocista nos últimos 13 anos, preferiu acompanhar a prova do Troféu Brasil mais de longe, para tentar controlar a emoção. Mas pelo que viu, já sabe qual imagem vai guardar do atleta Claudinei, vice-campeão olímpico e mundial, e campeão da final do GP da Iaaf em 99, quando bateu Maurice Greene. 'A de hoje é suficiente. Ele correu como um gigante.'

A sensação de ter cumprido sua missão no atletismo não diminui o sentimento de perda por ter de abrir mão do sonho de correr o Pan Rio 2007. 'Ganhei muitas competições no exterior, mas meu sonho era terminar minha trajetória em um grande evento internacional no Brasil. Mas tenho que respeitar o limite de meu corpo', lamentou ao final da prova em 2005.

'Não estou parando feliz. Vai ser difícil, quando parar e olhar tudo o que ficou para trás. Mas todos os meus sonhos no atletismo, eu tentei realizar. Conquistei tudo o que podia, dentro de minhas condições como atleta', finalizou.

O começo

Claudinei Quirino é exemplo de atleta que começou tarde mas alcançou o sucesso logo. Ainda criança, quinto filho em uma família de seis, foi levado para um orfanato com o irmão José Claudiomiro, o Miro, pelo pai José Quirino da Silva, que alegou não ter como cuidar de todas as crianças depois da morte da esposa. Foi sair de lá só aos 17 anos, depois de quase cair na marginalidade. "Passei fome e quase precisei roubar para comer", lembra. Quando saiu, voltou para a casa, reencontrou a família e foi se virar em sub-empregos.

Três anos depois, trabalhando em um bar de beira de estrada em Lençóis Paulista, cidade do interior de São Paulo onde nasceu. Um dia um cliente do bar chamou a atenção do jovem, que perguntou como ele havia conseguido ficar forte daquele jeito. "Fazendo atletismo" foi a resposta.

Claudinei Quirino e sua maior conquista

Quem pensa que a prata olímpica no revezamento 4x100m em Sydney foi a maior conquista da carreira de Claudinei Quirino está enganado. O velocista é categórico ao afirmar que o melhor momento foi a vitória na etapa final do Grand Prix da IAAF (Associação Internacional das Federações de Atletismo) em Munique, Alemanha, em 99.

"Realizei três sonhos de uma só vez: bati os recordes sul-americano e brasileiro, algo que eu sempre quis, derrotei o campeão mundial Maurice Greene, que estava no auge, e ainda fui campeão do GP", diz, para explicar que os dois primeiros sonhos tinham caráter pessoal, enquanto o terceiro tinha aspecto financeiro, já que ele embolsou US$ 50 mil pelo título.

Naquele 11 de setembro, o brasileiro marcou 19s89 nos 200m correndo contra um vento de 0,8 m/s. E melhorou em sete centésimos o recorde anterior, que pertencia a Robson Caetano da Silva há 10 anos. A marca de Claudinei ainda está em vigor.

A conquista teve um gosto especial por causa de uma antiga rivalidade entre os dois atletas. Durante os treinos do revezamento para o Mundial da Grécia, em 97, Claudinei começou a ganhar destaque, o que não agradou Robson, que teria passado então a bater com o bastão no pulso do colega. Os dois chegaram à agressão física. Claudinei só lamenta o fato de ter começado a correr tentando imitar exatamente aquele que considerava um ídolo no início da carreira.

A vitória sobre Greene, por sua vez, veio acompanhada de um acontecimento no mínimo insólito. O brasileiro terminou a prova apenas frações de segundo à frente do norte-americano, recordista mundial dos 100m. Os organizadores acabaram entregando a Greene o ursinho da pelúcia e o buquê de flores reservados ao campeão. O segundo colocado, no entanto, acabou dando a volta olímpica abraçado ao vencedor, que só foi anunciado pelos alto-falantes algum tempo depois. Com um inglês sofrível, o brasileiro disse ao rival "I winner", para reclamar as flores e o bichinho de pelúcia que afinal, eram seus.

Naquela prova, o representante demorou 141 milésimos de segundo para reagir ao tiro de partida, quase 1 centésimo a menos que Greene. O título de Claudinei foi o terceiro já conseguido por um brasileiro no Grand Prix. Antes, Robson Caetano vencera os 200m em 89 e Zequinha Barbosa os 800m, em 86.

Os mundiais e os Pan-americanos

Em sua estréia em Campeonatos Mundiais, Claudinei Quirino conseguiu uma quinta colocação nos 200m em Gotemburgo, Suécia, em 95. Dois anos depois veio a primeira medalha, de bronze, com o tempo de 20s26, no torneio de Atenas, na Grécia. Mesmo com a conquista, o atleta estava insatisfeito. "Mais uma vez larguei mal, demorei muito. Se tivesse feito uma boa largada, poderia ter chegado em segundo lugar", disse, à época. "Minha sorte é que tenho uma chegada muito boa", completou.

Na final, o brasileiro perdeu para dois favoritos, Ato Boldon, de Trinidad Tobago, foi ouro com 20s04 e Frank Fredericks, da Namíbia, prata com 20s23. A marca de Claudinei foi seu melhor tempo pessoal e um décimo mais rápida que os 20s27 que ele havia registrado nas quartas-de-final. Na semi, venceu sua bateria com 20s35 e já comemorou a vaga garantida na decisão. "Já que cheguei à final, vou partir para as cabeças", prometeu. E cumpriu.

Pelo bronze, ele embolsou US$ 20 mil como prêmio da IAAF, a Federação Internacional, e outros US$ 3 mil da CBAt, a Confederação Brasileira de Atletismo. Esta foi a primeira grande conquista de Claudinei em competições internacionais, e abriu as portas para uma série delas.

"Foi a partir dali que passei a ser considerado um atleta de fato, com apoio, melhores patrocínio. Pude passar a treinar mais na Europa e competir de igual por igual com os estrangeiros", lembra. "Ainda hoje, o Brasil tem muitos talentos sem apoio, mas a situação melhorou bastante", completa.

Dois anos depois, em Sevilha (Espanha), ele ficou com a prata, atrás apenas de Maurice Greene. A medalha veio com o tempo de 20s cravados. Greene registrou o melhor tempo do ano, com 19s90 e em terceiro lugar ficou o nigeriano Francis Obikwelu, com 20s12. "Eu considero Sevilha uma continuação do mundial de Atenas, a diferença é que eu estava com mais experiência", define.

Claudinei foi o segundo brasileiro na história a conquistar medalha em dois mundiais seguidos. O primeiro foi Zequinha Barbosa, prata em Tóquio/91 e bronze em Roma/87, sempre nos 800m.

Foi para o Mundial de Sevilha embalado por nada menos que quatro subidas ao pódio no Pan-americano de Winnipeg, um mês antes. Das terras canadenses, o brasileiro voltou com duplo ouro, um do revezamento 4x100m (com Edson Luciano Ribeiro, Raphael Raymundo e André Domingos), com o tempo de 38s18, e outro nos 200m, com 20s30.

Para vencer nos 200m, ele usou o famoso jeitinho brasileiro. Impedido de usar sapatilhas com pregos importados na semifinal, driblou a arbitragem na decisão. "Mostrei uma sapatilha mas vesti outra", lembra. Com isso, deixou para trás o norte-americano Curtis Perry, prata com 20s58, e o chileno Sebastian Keitel, bronze com 20s82.

Conquistou ainda uma prata no revezamento 4x400m (ao lado de Anderson Jorge dos Santos, Eronildes Araújo e Sanderlei Parrela), com 2min58s56 e um bronze nos 100m, com 10s13.

Mas as histórias em mundiais teriam continuidade. O quarteto brasileiro que competiu em Edmonton-2001 viveu uma experiência que foi um balde de água fria para todos os corredores, fazendo-os até considerar uma aposentadoria precoce. A equipe se classificou para a final com o segundo melhor tempo, 37s90, pouco atrás dos Estados Unidos, que marcaram 37s40. Mas na hora decisiva, deixaram o bastão cair e abandonaram a prova.

Quatro anos depois, recuperados do trauma, eles conquistariam o bronze no Mundial de Paris, com o tempo de 38s26, mas Claudinei não participaria da festa. Ele integrou o grupo vice-campeão no Pan de Santo Domingo, realizado poucos dias antes, mas acabou sofrendo uma lesão no calcanhar que o deixou fora do Mundial. Vale lembrar que no Pan, os brasileiros ficaram atrás apenas dos Estados Unidos, que tiveram um de seus integrantes pego em exame antidoping.

A cirurgia e o começo do fim

Em Sydney, Austrália, no ano 2000, Claudinei Quirino subiu pela primeira vez em um pódio olímpico, ao conquistar a medalha de prata no revezamento 4x100m, ao lado de Edson Luciano, André Domingos e Vicente Lenílson. O quarteto nacional marcou 37s90 e ficou atrás apenas do norte-americano, que fez 37s61 com Maurice Greene cruzando a linha de chegada em primeiro lugar.

A emoção foi grande, mas em nada comparável ao título do Grand Prix da IAAF (Associação das Federações Internacionais de Atletismo) conquistado depois da vitória nos 200m sobre o favoritíssimo norte-americano Greene. "Sou individualista, por isso gostei mais do pódio em Munique", admite Claudinei, que em Sydney teve de dividir o pódio com outros três colegas.

Por isso, a busca de uma medalha olímpica em prova individual foi um objetivo não alcançado. No final de 2001, Claudinei teve de se submeter a uma cirurgia para retirada de um cisto no púbis. A recuperação foi lenta e por conta disso, a paciência tornou-se uma virtude. "Tenho feito um trabalho psicológico para conseguir enfrentar essa fase. Parei no auge e não consegui voltar. O maior desafio é saber que tenho de recomeçar do zero, não posso querer voltar de onde parei", dizia, no início de 2003.

Em agosto, ele integrou o quarteto que foi vice-campeão nos Jogos Pan-americanos de Santo Domingo, atrás apenas dos Estados Unidos, que tiveram um de seus atletas pego em teste antidoping. A comemoração foi grande, mas logo em seguida, nova lesão impediu Claudinei de competir no Mundial de Paris. Sem ele, o quarteto conquistou o bronze.

Em 99, ano em que conquistou o maior número de títulos, o então técnico do velocista, Jayme Neto, fez uma previsão. "O auge do Claudinei será daqui a dois ou três anos." O atleta estava então com 28 anos.

Aos 33, ele não pensava em aposentadoria. "Se deixar, eu corro até os 50 anos", afirmava. Mas as freqüentes dores o impediam de manter a regularidade nos treinos. Sempre que enfrentava uma seqüência mais forte, era obrigado a ficar dias 'de molho', em recuperação. No início de 2004, ele apresentou evolução, como revelou seu técnico. "Pela primeira vez estou conseguindo fazer um início de trabalho forte com ele", disse, comparando com as dificuldades encontradas nos anos anteriores.

Mas a empolgação não durou muito. As dores voltaram e precipitaram o fim da carreira de Claudinei nas pistas. "Não queria terminar assim, mas tenho de respeitar meus limites", resignou-se. Traumatizado com a primeira cirurgia, que também minou suas forças psicologicamente, ele nem sequer cogitou a idéia de submeter-se à uma nova operação. 'Foi o pior momento da minha vida', afirmou, categórico. 'Depois da cirurgia, queria voltar no auge, onde eu estava antes. E não conseguia', justificou.

Até hoje ele tem apoio de especialista para lidar com as dificuldades. A partir de agora, no entanto, terá de passar segurança e experiência à nova geração de velocistas do país. Como consultor, será o braço direito de Jayme Neto no desenvolvimento de corredores.

Para o treinador, a presença do novo assistente será um consolo para a perda de um grande atleta. "É raro termos talentos como o dele", ressalta. Mas, a despedida no Troféu Brasil foi apenas o ato final de um fim que já era anunciado. "Difícil mesmo foram as últimas Olimpíadas, o último Mundial. Difícil foi ver um atleta que corria os 200m em 20s10 passar a correr 21s. Isso é mais triste. Eu venho sofrendo antecipadamente."

Claudinei ficou fora do Mundial de Paris-2003 porque sofreu uma lesão no calcanhar pouco depois de integrar o quarteto vice-campeão pan-americano em Santo Domingo. Nos Jogos Olímpicos de Atenas, já não vinha apresentando o desempenho que o colocou entre os melhores do mundo no final da década passada e início desta, ficou sem índice e sem vaga na equipe.

Este ano, viu que teria dificuldades para conseguir classificação para o Mundial de Helsinque, em agosto. Ao menos em sua última prova, pôde correr sem dor. "Não senti nada. Estou como um menino, mas um menino que está parando", disse Claudinei, logo após sua derradeira vitória.

 

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