|
Mais um vitorioso contra a pobreza
| Foto: Reuters |
 |
|
Nome: Claudinei Quirino da Silva
Data de nascimento: 19 de novembro de 1970
Local: Lençóis Paulistas
(SP)
Especialidade: 100m, 200m e 4x100m rasos
e 400m
Principais resultados: Bronze nos 200m
do Mundial de Atletismo de Atenas/97, com 20s26,
Prata no Mundial de Sevilha/99, na mesma prova,
com 20s,
Ouro nos 200m na etapa final do Grand Prix da
IAAF em Munique/99 (19s89),
Jogos Pan-americanos de Winnipeg-99:
Ouro nos 200m, com 20s30, e no revezamento 4x100m,
com 38s18 (com Edson Luciano Ribeiro, Raphael
Raymundo e André Domingos),
Prata no revezamento 4x400m, com 2min58s56 (ao
lado de Anderson Jorge dos Santos, Eronildes Araújo
e Sanderlei Parrela) e
Bronze nos 100m, com 10s13,
Olimpíada de Sydney-00:
Prata no revezamento 4x100m com 37s90 (no quarteto
formado por Edson Luciano, André Domingos
e Vicente Lenílson),
Jogos Pan-americanos de Santo Domingo-2003:
Prata no 4x100m, com a mesma formação
de Sydney
Participações olímpicas:
Atlanta-96 e Sydney-2000
|
Eu disse: 'Vai negão,
que é a última. E foi.' Assim, com a voz
embargada, Vicente Lenílson reproduz sua fala
para o companheiro Claudinei Quirino, segundo homem
do revezamento 4x100m vencedor do Troféu Brasil
de Atletismo de 2005. A prova, disputada no estádio
Ícaro de Castro Melo, no Ibirapuera, em São
Paulo, marcou a despedida de Claudinei, que abandonou
as pistas por não conseguir se recuperar de um
problema no púbis.
A corrida do adeus foi com Vicente e André Domingos,
que o acompanharam também em uma das principais
conquistas do atletismo nacional, a prata nas Olimpíadas
de Sydney-00. O jovem Bruno Pacheco fechou a corrida,
cruzando a linha de chegada em 39s24 e garantindo a
vitória.
Sem conter as lágrimas, André, o terceiro
homem na corrida, descreveu o que ouviu do colega. 'Uma
voz enfraquecida disse: 'Vai André!'. Mas senti
que ele não queria passar o bastão, queria
que a prova durasse toda a eternidade. É uma
dor muito grande, não dá pra descrever.'
Claudinei diz ter gritado muito depois de cumprir sua
última missão pelo atletismo e também
ter feito um agradecimento a Deus. 'Estou triste por
estar parando assim, porque não queria que fosse
agora, mas estou orgulhoso por ter feito parte de uma
geração vitoriosa', ressaltou.
O técnico Jayme Neto, que orientou o velocista
nos últimos 13 anos, preferiu acompanhar a prova
do Troféu Brasil mais de longe, para tentar controlar
a emoção. Mas pelo que viu, já
sabe qual imagem vai guardar do atleta Claudinei, vice-campeão
olímpico e mundial, e campeão da final
do GP da Iaaf em 99, quando bateu Maurice Greene. 'A
de hoje é suficiente. Ele correu como um gigante.'
A sensação de ter cumprido sua missão
no atletismo não diminui o sentimento de perda
por ter de abrir mão do sonho de correr o Pan
Rio 2007. 'Ganhei muitas competições no
exterior, mas meu sonho era terminar minha trajetória
em um grande evento internacional no Brasil. Mas tenho
que respeitar o limite de meu corpo', lamentou ao final
da prova em 2005.
'Não estou parando feliz. Vai ser difícil,
quando parar e olhar tudo o que ficou para trás.
Mas todos os meus sonhos no atletismo, eu tentei realizar.
Conquistei tudo o que podia, dentro de minhas condições
como atleta', finalizou.
O começo
Claudinei Quirino é exemplo de atleta que começou
tarde mas alcançou o sucesso logo. Ainda criança,
quinto filho em uma família de seis, foi levado
para um orfanato com o irmão José Claudiomiro,
o Miro, pelo pai José Quirino da Silva, que alegou
não ter como cuidar de todas as crianças
depois da morte da esposa. Foi sair de lá só
aos 17 anos, depois de quase cair na marginalidade.
"Passei fome e quase precisei roubar para comer",
lembra. Quando saiu, voltou para a casa, reencontrou
a família e foi se virar em sub-empregos.
Três anos depois, trabalhando em um bar de beira
de estrada em Lençóis Paulista, cidade
do interior de São Paulo onde nasceu. Um dia
um cliente do bar chamou a atenção do
jovem, que perguntou como ele havia conseguido ficar
forte daquele jeito. "Fazendo atletismo" foi
a resposta.
Claudinei Quirino
e sua maior conquista
Quem pensa que a prata olímpica no revezamento
4x100m em Sydney foi a maior conquista da carreira de
Claudinei Quirino está enganado. O velocista
é categórico ao afirmar que o melhor momento
foi a vitória na etapa final do Grand Prix da
IAAF (Associação Internacional das Federações
de Atletismo) em Munique, Alemanha, em 99.
"Realizei três sonhos de uma só vez:
bati os recordes sul-americano e brasileiro, algo que
eu sempre quis, derrotei o campeão mundial Maurice
Greene, que estava no auge, e ainda fui campeão
do GP", diz, para explicar que os dois primeiros
sonhos tinham caráter pessoal, enquanto o terceiro
tinha aspecto financeiro, já que ele embolsou
US$ 50 mil pelo título.
Naquele 11 de setembro, o brasileiro marcou 19s89
nos 200m correndo contra um vento de 0,8 m/s. E melhorou
em sete centésimos o recorde anterior, que pertencia
a Robson Caetano da Silva há 10 anos. A marca
de Claudinei ainda está em vigor.
A conquista teve um gosto especial por causa de uma
antiga rivalidade entre os dois atletas. Durante os
treinos do revezamento para o Mundial da Grécia,
em 97, Claudinei começou a ganhar destaque, o
que não agradou Robson, que teria passado então
a bater com o bastão no pulso do colega. Os dois
chegaram à agressão física. Claudinei
só lamenta o fato de ter começado a correr
tentando imitar exatamente aquele que considerava um
ídolo no início da carreira.
A vitória sobre Greene, por sua vez, veio acompanhada
de um acontecimento no mínimo insólito.
O brasileiro terminou a prova apenas frações
de segundo à frente do norte-americano, recordista
mundial dos 100m. Os organizadores acabaram entregando
a Greene o ursinho da pelúcia e o buquê
de flores reservados ao campeão. O segundo colocado,
no entanto, acabou dando a volta olímpica abraçado
ao vencedor, que só foi anunciado pelos alto-falantes
algum tempo depois. Com um inglês sofrível,
o brasileiro disse ao rival "I winner", para
reclamar as flores e o bichinho de pelúcia que
afinal, eram seus.
Naquela prova, o representante demorou 141 milésimos
de segundo para reagir ao tiro de partida, quase 1 centésimo
a menos que Greene. O título de Claudinei foi
o terceiro já conseguido por um brasileiro no
Grand Prix. Antes, Robson Caetano vencera os 200m em
89 e Zequinha Barbosa os 800m, em 86.
Os mundiais
e os Pan-americanos
Em sua estréia em Campeonatos Mundiais, Claudinei
Quirino conseguiu uma quinta colocação
nos 200m em Gotemburgo, Suécia, em 95. Dois anos
depois veio a primeira medalha, de bronze, com o tempo
de 20s26, no torneio de Atenas, na Grécia. Mesmo
com a conquista, o atleta estava insatisfeito. "Mais
uma vez larguei mal, demorei muito. Se tivesse feito
uma boa largada, poderia ter chegado em segundo lugar",
disse, à época. "Minha sorte é
que tenho uma chegada muito boa", completou.
Na final, o brasileiro perdeu para dois favoritos,
Ato Boldon, de Trinidad Tobago, foi ouro com 20s04 e
Frank Fredericks, da Namíbia, prata com 20s23.
A marca de Claudinei foi seu melhor tempo pessoal e
um décimo mais rápida que os 20s27 que
ele havia registrado nas quartas-de-final. Na semi,
venceu sua bateria com 20s35 e já comemorou a
vaga garantida na decisão. "Já que
cheguei à final, vou partir para as cabeças",
prometeu. E cumpriu.
Pelo bronze, ele embolsou US$ 20 mil como prêmio
da IAAF, a Federação Internacional, e
outros US$ 3 mil da CBAt, a Confederação
Brasileira de Atletismo. Esta foi a primeira grande
conquista de Claudinei em competições
internacionais, e abriu as portas para uma série
delas.
"Foi a partir dali que passei a ser considerado
um atleta de fato, com apoio, melhores patrocínio.
Pude passar a treinar mais na Europa e competir de igual
por igual com os estrangeiros", lembra. "Ainda
hoje, o Brasil tem muitos talentos sem apoio, mas a
situação melhorou bastante", completa.
Dois anos depois,
em Sevilha (Espanha), ele ficou com a prata, atrás
apenas de Maurice Greene. A medalha veio com o tempo
de 20s cravados. Greene registrou o melhor tempo do
ano, com 19s90 e em terceiro lugar ficou o nigeriano
Francis Obikwelu, com 20s12. "Eu considero Sevilha
uma continuação do mundial de Atenas,
a diferença é que eu estava com mais experiência",
define.
Claudinei foi o segundo brasileiro
na história a conquistar medalha em dois mundiais
seguidos. O primeiro foi Zequinha Barbosa, prata em
Tóquio/91 e bronze em Roma/87, sempre nos 800m.
Foi para o Mundial de Sevilha embalado por nada menos
que quatro subidas ao pódio no Pan-americano
de Winnipeg, um mês antes. Das terras canadenses,
o brasileiro voltou com duplo ouro, um do revezamento
4x100m (com Edson Luciano Ribeiro, Raphael Raymundo
e André Domingos), com o tempo de 38s18, e outro
nos 200m, com 20s30.
Para vencer nos 200m, ele usou o famoso jeitinho brasileiro.
Impedido de usar sapatilhas com pregos importados na
semifinal, driblou a arbitragem na decisão. "Mostrei
uma sapatilha mas vesti outra", lembra. Com isso,
deixou para trás o norte-americano Curtis Perry,
prata com 20s58, e o chileno Sebastian Keitel, bronze
com 20s82.
Conquistou ainda uma prata no revezamento 4x400m (ao
lado de Anderson Jorge dos Santos, Eronildes Araújo
e Sanderlei Parrela), com 2min58s56 e um bronze nos
100m, com 10s13.
Mas as histórias em mundiais teriam continuidade.
O quarteto brasileiro que competiu em Edmonton-2001
viveu uma experiência que foi um balde de água
fria para todos os corredores, fazendo-os até
considerar uma aposentadoria precoce. A equipe se classificou
para a final com o segundo melhor tempo, 37s90, pouco
atrás dos Estados Unidos, que marcaram 37s40.
Mas na hora decisiva, deixaram o bastão cair
e abandonaram a prova.
Quatro anos depois, recuperados do trauma, eles conquistariam
o bronze no Mundial de Paris, com o tempo de 38s26,
mas Claudinei não participaria da festa. Ele
integrou o grupo vice-campeão no Pan de Santo
Domingo, realizado poucos dias antes, mas acabou sofrendo
uma lesão no calcanhar que o deixou fora do Mundial.
Vale lembrar que no Pan, os brasileiros ficaram atrás
apenas dos Estados Unidos, que tiveram um de seus integrantes
pego em exame antidoping.
A cirurgia e
o começo do fim
Em Sydney, Austrália,
no ano 2000, Claudinei Quirino subiu pela primeira vez
em um pódio olímpico, ao conquistar a medalha
de prata no revezamento 4x100m, ao lado de Edson Luciano,
André Domingos e Vicente Lenílson. O quarteto
nacional marcou 37s90 e ficou atrás apenas do norte-americano,
que fez 37s61 com Maurice Greene cruzando a linha de chegada
em primeiro lugar.
A emoção foi grande, mas em nada comparável
ao título do Grand Prix da IAAF (Associação
das Federações Internacionais de Atletismo)
conquistado depois da vitória nos 200m sobre
o favoritíssimo norte-americano Greene. "Sou
individualista, por isso gostei mais do pódio
em Munique", admite Claudinei, que em Sydney teve
de dividir o pódio com outros três colegas.
Por isso, a busca de uma medalha olímpica em
prova individual foi um objetivo não alcançado.
No final de 2001, Claudinei teve de se submeter a uma
cirurgia para retirada de um cisto no púbis.
A recuperação foi lenta e por conta disso,
a paciência tornou-se uma virtude. "Tenho
feito um trabalho psicológico para conseguir
enfrentar essa fase. Parei no auge e não consegui
voltar. O maior desafio é saber que tenho de
recomeçar do zero, não posso querer voltar
de onde parei", dizia, no início de 2003.
Em agosto, ele integrou o quarteto que foi vice-campeão
nos Jogos Pan-americanos de Santo Domingo, atrás
apenas dos Estados Unidos, que tiveram um de seus atletas
pego em teste antidoping. A comemoração
foi grande, mas logo em seguida, nova lesão impediu
Claudinei de competir no Mundial de Paris. Sem ele,
o quarteto conquistou o bronze.
Em 99, ano em que conquistou o maior número
de títulos, o então técnico do
velocista, Jayme Neto, fez uma previsão. "O
auge do Claudinei será daqui a dois ou três
anos." O atleta estava então com 28 anos.
Aos 33, ele não pensava em aposentadoria. "Se
deixar, eu corro até os 50 anos", afirmava.
Mas as freqüentes dores o impediam de manter a
regularidade nos treinos. Sempre que enfrentava uma
seqüência mais forte, era obrigado a ficar
dias 'de molho', em recuperação. No início
de 2004, ele apresentou evolução, como
revelou seu técnico. "Pela primeira vez
estou conseguindo fazer um início de trabalho
forte com ele", disse, comparando com as dificuldades
encontradas nos anos anteriores.
Mas a empolgação não durou muito.
As dores voltaram e precipitaram o fim da carreira de
Claudinei nas pistas. "Não queria terminar
assim, mas tenho de respeitar meus limites", resignou-se.
Traumatizado com a primeira cirurgia, que também
minou suas forças psicologicamente, ele nem sequer
cogitou a idéia de submeter-se à uma nova
operação. 'Foi o pior momento da minha
vida', afirmou, categórico. 'Depois da cirurgia,
queria voltar no auge, onde eu estava antes. E não
conseguia', justificou.
Até hoje ele tem apoio de especialista para
lidar com as dificuldades. A partir de agora, no entanto,
terá de passar segurança e experiência
à nova geração de velocistas do
país. Como consultor, será o braço
direito de Jayme Neto no desenvolvimento de corredores.
Para o treinador, a presença do novo assistente
será um consolo para a perda de um grande atleta.
"É raro termos talentos como o dele",
ressalta. Mas, a despedida no Troféu Brasil foi
apenas o ato final de um fim que já era anunciado.
"Difícil mesmo foram as últimas Olimpíadas,
o último Mundial. Difícil foi ver um atleta
que corria os 200m em 20s10 passar a correr 21s. Isso
é mais triste. Eu venho sofrendo antecipadamente."
Claudinei ficou fora do Mundial de Paris-2003 porque
sofreu uma lesão no calcanhar pouco depois de
integrar o quarteto vice-campeão pan-americano
em Santo Domingo. Nos Jogos Olímpicos de Atenas,
já não vinha apresentando o desempenho
que o colocou entre os melhores do mundo no final da
década passada e início desta, ficou sem
índice e sem vaga na equipe.
Este ano, viu que teria dificuldades para conseguir
classificação para o Mundial de Helsinque,
em agosto. Ao menos em sua última prova, pôde
correr sem dor. "Não senti nada. Estou como
um menino, mas um menino que está parando",
disse Claudinei, logo após sua derradeira vitória.
|