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Atualização: 26/12/2007
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . JOÃO DO PULO

Recordista mundial por 10 anos

Foto: Reuters
Foto: Reuters

Nome: João Carlos de Oliveira
Data de nascimento: 28 de maio de 1954
Local: Pindamonhangaba (SP)
Data de falecimento: 29 de maio de 1999
Principais conquistas no salto triplo:
. Bicampeão pan-americano na Cidade do México/75 e San Juan/79
. Bronze olímpico em Montreal/76 e Moscou/80
. Tricampeão mundial (1977, 1979 e 1981)
. Tricampeão mundial militar (1976, 1978 e 1980)
. Tricampeão sul-americano (1974, 1975, 1981)
. Hexacampeão do Troféu Brasil (1975, 1976, 1977, 1978, 1980 e 1981)
. Bicampeão brasileiro (1973 e 1977)
. Bicampeão do Troféu Brasil de Clubes (1973 e 1974)
. Bicampeão paulista (1973 e 1975)
Principais conquistas no salto em distância:
. Bicampeão pan-americano na Cidade do México/75 e San Juan/79
Participações olímpicas: Montreal/76 e Moscou/80

Nascido em 1954 na cidade de Pindamonhangaba, João Carlos de Oliveira dividia-se entre a escola e o trabalho para ajudar a família durante a infância. Nos momentos de lazer, o menino João dividia-se entre os ensaios de um bloco carnavalesco, no qual tocava bumbo, e os jogos na várzea, onde pensava em ser jogador de futebol.

Mas o menino João cresceu demais. Ainda adolescente, passava de 1,80m de altura. As quadras de vôlei e basquete de sua escola pareciam mais adequadas ao porte do garoto, mas o destino foi o atletismo, levado pela velocidade, pela coordenação e pelos 1,89m de altura que tinha aos 17 anos. Em 71, o então aspirante fazia sua estréia em competições, representando o Núcleo Ferroviário de Ensino, onde estudava, no Campeonato Colegial de Esportes.

A estréia não foi das melhores. Saltando 1,75m ficou apenas em 10º no salto em altura – suficiente para chamar a atenção de José Roberto de Vasconcelos, à época estudante na Escola Superior de Educação Física na cidade de Cruzeiro. Juiz da prova, José viu no biótipo do jovem um grande potencial e comentou com seu professor Oswaldo Gonçalves. O professor quis conhecer o garoto de Pindamonhangaba, o que aconteceu já no dia seguinte. Depois de uma série de testes de impulsão e salto, o resultado apontou mesmo vocação para saltos em extensão e triplo do futuro campeão. Nascia aí o herdeiro de Adhemar Ferreira da Silva e Nelson Prudêncio.

A partir daí, o jovem começou a treinar semanalmente em Cruzeiro, continuando a preparação na cidade-natal no restante do tempo. O resultado do apoio de José Roberto e Oswaldo surtiu efeito já em 72, quando João voltou ao Campeonato Colegial de Esportes e conseguiu o 6º lugar no salto em altura. O atleta surpreendeu também no salto triplo, conseguindo a 3ª colocação ao pular 14,06m.

A atuação de João lhe valeu um contrato com o São Paulo Futebol Clube, onde ficou por um ano e iniciou sua carreira federativa e profissional. Participando do Campeonato Brasileiro juvenil, conseguiu seu primeiro título nacional no salto triplo, sendo selecionado para o Sul-americano da categoria. Outra vitória. Aos 18 anos, João quebra seu primeiro recorde mundial ao saltar 14,75m. A estréia em competições adultas acontece em 73 com uma vitória no Estadual que o tira do São Paulo rumo ao Pinheiros.

Pelo novo clube, o atleta consegue bons resultados e a vaga para o Sul-americano adulto, em 74, no Chile. Aos 20 anos, João fez a marca de 16,34m e bateu o veterano Nélson Prudêncio. Se ainda existiam dúvidas, a certeza de um novo ídolo no atletismo nacional seria dada em 75, que começa com título do salto triplo no Campeonato Paulista e no Troféu Brasil.

Mas a consagração viria no mês de outubro, com a equipe que disputaria os Jogos Pan-americanos da Cidade do México-75 – a primeira competição de amplitude mundial que João participaria, aos 21 anos. Logo na estréia, uma surpresa com a vitória no salto em distância com 8,19m.

Quatro dias depois, o brasileiro entraria na pista para competir no salto triplo, sua grande especialidade. Eram dez finalistas na prova, com milhões de brasileiros na torcida pela TV. Na primeira tentativa, ele queima o salto. No segundo pulo, porém, o estádio Asteca é testemunha do inacreditável. São três passos. Três pequenos vôos horizontais: 6,08m, 5,37m e 6,34m. Somadas, as distâncias completam 17,89m. O novo recorde mundial do salto triplo era marcado por um brasileiro no dia 15 de outubro de 1975, superando o índice anterior em 45cm. Nunca uma marca mundial seria batida por diferença tão grande.

O recorde de João, agora do Pulo, permaneceria inabalável pelos próximos dez anos, até ser quebrado pelo norte-americano Willie Banks em 16 de junho de 1985, que saltou 17,97m e que só teve sua marca derrubada também após outros dez anos, em 18 de julho de 1995 pelo britânico Jonathan Edwards.

Após o recorde mundial no México, a medalha de ouro brasileira no salto triplo dos Jogos Olímpicos de Montreal-76 parecia certa, mas um inesperado problema físico acabou afastando João de sua melhor forma. Mesmo acometido das dores na região lombar, ele seguiu para o Canadá e conseguiu o terceiro melhor salto, trazendo o bronze para casa.

Em 77, o brasileiro mostrou sua recuperação vencendo todas as provas que disputou no ano. Em seus planos, o Pan-americano de San Juan-79 e os Jogos Olímpicos de Moscou-80. Ainda em 77, ele disputou na cidade de Dusseldorf a primeira edição da Copa do Mundo, competição que reúne seleções dos cinco continentes, e ganhou o ouro no salto triplo com tranqüilidade, deixando em segundo o soviético Anatoly Piskulin.

Para o Pan de 79, João dedicou-se a uma forte rotina de treinos com seu técnico Pedro Camargo de Toledo. O resultado veio com o bi no salto triplo com 17,27m e o ouro também no salto em distância. Estava tudo pronto para os Jogos de Moscou-80. Para a edição russa dos Jogos, João já era considerado o virtual campeão do triplo, tanto na imprensa especializada quanto na opinião popular. As Olimpíadas de 1980, entretanto, começaram de uma forma conturbada. Com as brigas ideológicas da Guerra Fria chegando até mesmo ao esporte, habitualmente privado de disputas dessa ordem, o presidente norte-americano Jimmy Carter anunciou o boicote dos EUA aos Jogos.

O Brasil não se envolveu no impasse diplomático e mandou normalmente sua delegação a Moscou. João do Pulo entrou na pista como amplo favorito para a conquista do ouro no salto triplo, no qual enfrentaria os soviéticos Jaak Uudmäe e Viktor Sansev e ficou na liderança da prova por três tentativas. Na quarta tentativa, acreditou ter pulado próximo ao seu recorde (17,89m), o que consolidaria sua vitória, mas a marca é invalidada, os juízes levantam a bandeira vermelha e indicam que o salto foi queimado. De suas 12 tentativas, nove foram desconsideradas. Ainda assim, o brasileiro conseguiu o salto de 17,22m dentre suas três chances válidas, o que lhe garantiu a medalha de bronze. O ouro ficou com Uudmäe e a prata com Sansev. Mais uma decepção olímpica para João.

O ano de 81 poderia ser o da redenção, à medida que o atleta tornou-se tricampeão mundial do salto triplo, campeão sul-americano e do Troféu Brasil. Mas era impossível imaginar que aqueles seriam os três últimos títulos de João do Pulo que, em 22 de dezembro daquele ano, foi convidado para ser o paraninfo de uma turma de formandos em Educação Física em Campinas. No mesmo dia, foi considerado o melhor atleta latino-americano da temporada, em uma pesquisa da agência de notícias cubana Prensa Latina.

João, no entanto, nem comemorou seu mais novo título. Após participar da cerimônia, dirigia seu Passat de volta a São Paulo, quando um veículo atravessou a pista e, em sentido contrário, atingiu seu carro. O recordista mundial sofreu traumatismo craniano, fraturas múltiplas, hemorragias abdominais e entrou em coma. Era o início de mais uma luta - não por um título, mas pela própria vida.

Quatro dias após o acidente, João saíra do coma, mas sua recuperação seria lenta e dolorosa. Foram inúmeras as intervenções cirúrgicas que sofreu. O atleta recebeu alta somente em 1º de abril de 82, com a ressalva de que sua perna direita, esmagada no acidente, corria riscos de ser amputada pela falta de irrigação sanguínea. O que aconteceu oito dias depois.

João do Pulo tornou-se João Sete Vidas, mas estavam terminadas suas chances de competir e, principalmente, de lutar pelo ouro olímpico que seria colocado em jogo novamente dali a dois anos, em Los Angeles. O atleta tentou reconstruir sua vida e se graduou em Educação Física. Em 86, elegeu-se deputado estadual, reconquistando a vaga nas eleições de 90. Queria lutar pelos deficientes físicos.

No entanto, os reveses voltaram a aparecer, inicialmente quando João perdeu a vaga à Assembléia nas eleições de 94. Aventurou-se no mundo dos negócios, abrindo uma padaria e uma transportadora. As empresas faliram. Os amigos desapareceram. João sentia-se esquecido. O sustento vinha da aposentadoria do Exército, mas, tomado pela depressão e pelo álcool, o ex-atleta chegou a ser preso por não pagar a pensão alimentícia da filha.

Em 99, o atleta tentou frear a decadência, trocou sua prótese e decidiu retornar às pistas. João do Pulo queria competir nas Paraolimpíadas de Sydney-00. Mas não houve tempo. Em abril, aos 42 anos, o ex-campeão deu entrada no Hospital Beneficência Portuguesa com uma infecção pulmonar. Na UTI paga pelo Exército, foi constatada também hepatite C no fígado do ex-atleta, que vivia sua última e mais importante disputa, agora contra a cirrose.

A agonia durou um mês. Em 27 de maio, o ex-atleta ficou inconsciente. No dia 29, após completar 45 anos, morria João do Pulo, vítima de falência múltipla dos órgãos e infecção generalizada. Cerca de 500 pessoas se despediram do atleta em velório realizado na Assembléia Legislativa de São Paulo. Entretanto, João foi recebido como herói em Pindamonhangaba, no capítulo final da história vitoriosa do menino João Carlos de Oliveira.


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