| Recordista mundial por 10 anos
| Foto: Reuters |
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| Nome: João Carlos de Oliveira
Data de nascimento: 28 de maio de 1954
Local: Pindamonhangaba (SP)
Data de falecimento: 29 de maio de
1999
Principais conquistas no salto triplo:
. Bicampeão pan-americano na Cidade do México/75
e San Juan/79
. Bronze olímpico em Montreal/76 e Moscou/80
. Tricampeão mundial (1977, 1979 e 1981)
. Tricampeão mundial militar (1976, 1978 e 1980)
. Tricampeão sul-americano (1974, 1975, 1981)
. Hexacampeão do Troféu Brasil (1975, 1976,
1977, 1978, 1980 e 1981)
. Bicampeão brasileiro (1973 e 1977)
. Bicampeão do Troféu Brasil de Clubes (1973
e 1974)
. Bicampeão paulista (1973 e 1975)
Principais conquistas no salto em distância:
. Bicampeão pan-americano na Cidade do México/75
e San Juan/79
Participações olímpicas: Montreal/76
e Moscou/80
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Nascido em 1954 na cidade de Pindamonhangaba, João Carlos
de Oliveira dividia-se entre a escola e o trabalho para ajudar
a família durante a infância. Nos momentos de lazer, o menino
João dividia-se entre os ensaios de um bloco carnavalesco,
no qual tocava bumbo, e os jogos na várzea, onde pensava em
ser jogador de futebol.
Mas o menino João cresceu demais. Ainda adolescente, passava
de 1,80m de altura. As quadras de vôlei e basquete de sua
escola pareciam mais adequadas ao porte do garoto, mas o destino
foi o atletismo, levado pela velocidade, pela coordenação
e pelos 1,89m de altura que tinha aos 17 anos. Em 71, o então
aspirante fazia sua estréia em competições, representando
o Núcleo Ferroviário de Ensino, onde estudava, no Campeonato
Colegial de Esportes.
A estréia não foi das melhores. Saltando 1,75m ficou apenas
em 10º no salto em altura – suficiente para chamar a atenção
de José Roberto de Vasconcelos, à época estudante na Escola
Superior de Educação Física na cidade de Cruzeiro. Juiz da
prova, José viu no biótipo do jovem um grande potencial e
comentou com seu professor Oswaldo Gonçalves. O professor
quis conhecer o garoto de Pindamonhangaba, o que aconteceu
já no dia seguinte. Depois de uma série de testes de impulsão
e salto, o resultado apontou mesmo vocação para saltos em
extensão e triplo do futuro campeão. Nascia aí o herdeiro
de Adhemar Ferreira da Silva e Nelson Prudêncio.
A partir daí, o jovem começou a treinar semanalmente em
Cruzeiro, continuando a preparação na cidade-natal no restante
do tempo. O resultado do apoio de José Roberto e Oswaldo surtiu
efeito já em 72, quando João voltou ao Campeonato Colegial
de Esportes e conseguiu o 6º lugar no salto em altura. O atleta
surpreendeu também no salto triplo, conseguindo a 3ª colocação
ao pular 14,06m.
A atuação de João lhe valeu um contrato com o São Paulo
Futebol Clube, onde ficou por um ano e iniciou sua carreira
federativa e profissional. Participando do Campeonato Brasileiro
juvenil, conseguiu seu primeiro título nacional no salto triplo,
sendo selecionado para o Sul-americano da categoria. Outra
vitória. Aos 18 anos, João quebra seu primeiro recorde mundial
ao saltar 14,75m. A estréia em competições adultas acontece
em 73 com uma vitória no Estadual que o tira do São Paulo
rumo ao Pinheiros.
Pelo novo clube, o atleta consegue bons resultados e a vaga
para o Sul-americano adulto, em 74, no Chile. Aos 20 anos,
João fez a marca de 16,34m e bateu o veterano Nélson Prudêncio.
Se ainda existiam dúvidas, a certeza de um novo ídolo no atletismo
nacional seria dada em 75, que começa com título do salto
triplo no Campeonato Paulista e no Troféu Brasil.
Mas a consagração viria no mês de outubro, com a equipe
que disputaria os Jogos Pan-americanos da Cidade do México-75
– a primeira competição de amplitude mundial que João participaria,
aos 21 anos. Logo na estréia, uma surpresa com a vitória no
salto em distância com 8,19m.
Quatro dias depois, o brasileiro
entraria na pista para competir no salto triplo, sua grande
especialidade. Eram dez finalistas na prova, com milhões de
brasileiros na torcida pela TV. Na primeira tentativa, ele
queima o salto. No segundo pulo, porém, o estádio Asteca é
testemunha do inacreditável. São três passos. Três pequenos
vôos horizontais: 6,08m, 5,37m e 6,34m. Somadas, as distâncias
completam 17,89m. O novo recorde mundial do salto triplo era
marcado por um brasileiro no dia 15 de outubro de 1975, superando
o índice anterior em 45cm. Nunca uma marca mundial seria batida
por diferença tão grande.
O recorde de João, agora do Pulo,
permaneceria inabalável pelos próximos dez anos, até ser quebrado
pelo norte-americano Willie Banks em 16 de junho de 1985,
que saltou 17,97m e que só teve sua marca derrubada também
após outros dez anos, em 18 de julho de 1995 pelo britânico
Jonathan Edwards.
Após o recorde mundial no México, a medalha de ouro brasileira
no salto triplo dos Jogos Olímpicos de Montreal-76 parecia
certa, mas um inesperado problema físico acabou afastando
João de sua melhor forma. Mesmo acometido das dores na região
lombar, ele seguiu para o Canadá e conseguiu o terceiro melhor
salto, trazendo o bronze para casa.
Em 77, o brasileiro mostrou sua recuperação vencendo todas
as provas que disputou no ano. Em seus planos, o Pan-americano
de San Juan-79 e os Jogos Olímpicos de Moscou-80. Ainda em
77, ele disputou na cidade de Dusseldorf a primeira edição
da Copa do Mundo, competição que reúne seleções dos cinco
continentes, e ganhou o ouro no salto triplo com tranqüilidade,
deixando em segundo o soviético Anatoly Piskulin.
Para o Pan de 79, João dedicou-se a uma forte rotina de
treinos com seu técnico Pedro Camargo de Toledo. O resultado
veio com o bi no salto triplo com 17,27m e o ouro também no
salto em distância. Estava tudo pronto para os Jogos de Moscou-80.
Para a edição russa dos Jogos, João já era considerado o virtual
campeão do triplo, tanto na imprensa especializada quanto
na opinião popular. As Olimpíadas de 1980, entretanto, começaram
de uma forma conturbada. Com as brigas ideológicas da Guerra
Fria chegando até mesmo ao esporte, habitualmente privado
de disputas dessa ordem, o presidente norte-americano Jimmy
Carter anunciou o boicote dos EUA aos Jogos.
O Brasil não se envolveu no impasse diplomático e mandou
normalmente sua delegação a Moscou. João do Pulo entrou na
pista como amplo favorito para a conquista do ouro no salto
triplo, no qual enfrentaria os soviéticos Jaak Uudmäe e Viktor
Sansev e ficou na liderança da prova por três tentativas.
Na quarta tentativa, acreditou ter pulado próximo ao seu recorde
(17,89m), o que consolidaria sua vitória, mas a marca é invalidada,
os juízes levantam a bandeira vermelha e indicam que o salto
foi queimado. De suas 12 tentativas, nove foram desconsideradas.
Ainda assim, o brasileiro conseguiu o salto de 17,22m dentre
suas três chances válidas, o que lhe garantiu a medalha de
bronze. O ouro ficou com Uudmäe e a prata com Sansev. Mais
uma decepção olímpica para João.
O ano de 81 poderia ser o da redenção, à medida que o atleta
tornou-se tricampeão mundial do salto triplo, campeão sul-americano
e do Troféu Brasil. Mas era impossível imaginar que aqueles
seriam os três últimos títulos de João do Pulo que, em 22
de dezembro daquele ano, foi convidado para ser o paraninfo
de uma turma de formandos em Educação Física em Campinas.
No mesmo dia, foi considerado o melhor atleta latino-americano
da temporada, em uma pesquisa da agência de notícias cubana
Prensa Latina.
João, no entanto, nem comemorou seu mais novo título. Após
participar da cerimônia, dirigia seu Passat de volta a São
Paulo, quando um veículo atravessou a pista e, em sentido
contrário, atingiu seu carro. O recordista mundial sofreu
traumatismo craniano, fraturas múltiplas, hemorragias abdominais
e entrou em coma. Era o início de mais uma luta - não por
um título, mas pela própria vida.
Quatro dias após o acidente, João saíra do coma, mas sua
recuperação seria lenta e dolorosa. Foram inúmeras as intervenções
cirúrgicas que sofreu. O atleta recebeu alta somente em 1º
de abril de 82, com a ressalva de que sua perna direita, esmagada
no acidente, corria riscos de ser amputada pela falta de irrigação
sanguínea. O que aconteceu oito dias depois.
João do Pulo tornou-se João Sete Vidas, mas estavam terminadas
suas chances de competir e, principalmente, de lutar pelo
ouro olímpico que seria colocado em jogo novamente dali a
dois anos, em Los Angeles. O atleta tentou reconstruir sua
vida e se graduou em Educação Física. Em 86, elegeu-se deputado
estadual, reconquistando a vaga nas eleições de 90. Queria
lutar pelos deficientes físicos.
No entanto, os reveses voltaram a aparecer, inicialmente
quando João perdeu a vaga à Assembléia nas eleições de 94.
Aventurou-se no mundo dos negócios, abrindo uma padaria e
uma transportadora. As empresas faliram. Os amigos desapareceram.
João sentia-se esquecido. O sustento vinha da aposentadoria
do Exército, mas, tomado pela depressão e pelo álcool, o ex-atleta
chegou a ser preso por não pagar a pensão alimentícia da filha.
Em 99, o atleta tentou frear a decadência, trocou sua prótese
e decidiu retornar às pistas. João do Pulo queria competir
nas Paraolimpíadas de Sydney-00. Mas não houve tempo. Em abril,
aos 42 anos, o ex-campeão deu entrada no Hospital Beneficência
Portuguesa com uma infecção pulmonar. Na UTI paga pelo Exército,
foi constatada também hepatite C no fígado do ex-atleta, que
vivia sua última e mais importante disputa, agora contra a
cirrose.
A agonia durou um mês. Em 27 de maio, o ex-atleta ficou
inconsciente. No dia 29, após completar 45 anos, morria João
do Pulo, vítima de falência múltipla dos órgãos e infecção
generalizada. Cerca de 500 pessoas se despediram do atleta
em velório realizado na Assembléia Legislativa de São Paulo.
Entretanto, João foi recebido como herói em Pindamonhangaba,
no capítulo final da história vitoriosa do menino João Carlos
de Oliveira. |