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A arataca que venceu a São
Silvestre duas vezes
| Foto Gazeta Press |
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Por Claudia Andrade
Ele era ajudante-geral em uma cantina e, numa noite de 31
de dezembro, foi entregar uma pizza no antigo Hospital Matarazzo.
Para chegar ao local, devia cruzar a avenida Paulista, que
estava lotada de corredores. Foi assim que José João
da Silva viu de perto pela primeira vez a prova que mais tarde
o consagraria como atleta, a São Silvestre.
A primeira vitória de José João, em
1980, acabou com um jejum brasileiro de 34 anos. O duelo com
o português Fernando Mamede foi emocionante. O representante
nacional desceu a avenida Brigadeiro Luís Antônio
na frente e liderou até a São João. Mas
no ponto crucial, a subida da Consolação, o
português passou na frente. A reta final, de volta a
Paulista, foi decisiva e nela, o brasileiro, incentivado pelos
gritos da torcida, conseguiu energia extra para ultrapassar
o rival e cruzar a linha de chegada em primeiro lugar. José
João completou os então 8,9km do percurso em
23min40s03. O português, abalado, ainda ficou atrás
do colombiano Sílvio Salazar.
Além da vitória, o pernambucano José
João entraria para a história como o segundo
brasileiro a vencer a corrida desde que ela virou internacional,
em 45. O primeiro atleta a realizar esta proeza foi Sebastião
Alves Monteiro, que ganhou em 45 e 46.
"A primeira vitória foi o ponto mais alto da
minha carreira. Me segue até hoje como uma sombra",
diz o atleta, que agora dedica-se a treinar novos atletas.
Mas ele admite que precisou de tempo para dimensionar o feito.
"Eu não tinha noção da importância
disso. Demorei um ano para entender. Sempre fui muito realista
e fui dimensionando aos poucos", explica.
Nos dois anos seguintes, em 81 e 82, José João
foi terceiro colocado. Em 83, uma fratura no braço,
durante um treinamento, o impediu de disputar a prova. Em
84, ele voltou em boa forma, mas não conseguiu superar
o português Carlos Lopes, medalha de ouro nas Olimpíadas
de Los Angeles (84) e ficou com o vice.
A segunda vitória dele na tradicional corrida veio
em 85, para reafirmar seu nome na lista dos grandes campeões
da São Silvestre. Desta vez, ele completou o trajeto
em 36min48, liderando de ponta a ponta e deixando para trás
o equatoriano Rolando Vera, que seria depois seria tetracampeão
da prova (86-89). No seguinte, ele completou dez participações
na prova, terminando em 11º lugar. Nada mal para quem
foi totalmente desacreditado quando começou a correr,
em 75, por ser desajeitado, o que lhe rendeu o apelido de
arataca (arapuca).
"Acho que o maior serviço que prestei ao esporte
foi vencer a São Silvestre, porque incentivei a participação
popular. Veja, hoje, como a corrida é imensa. Daqui
a pouco vai precisar de duas (avenidas) Paulistas para caber
todo mundo."
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