| Saltos para a história
| Foto: Gazeta Press |
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| Nome: Nelson Prudêncio
Data de nascimento: 4 de abril de 1944
Local: Lins (SP)
Principais conquistas:
Recordista mundial no salto triplo: 17,27m na Cidade
do México-68 (superado na mesma competição pelo russo
Victor Saneyev, que fez 17,39m)
Prata nos Jogos Pan-americanos de Winnipeg-67
Prata nas Olimpíadas da Cidade do México-68
Prata nos Jogos Pan-americanos de Cali-71
Bronze nas Olimpíadas de Munique-72
Participações olímpicas: Cidade do
México-68, Munique-72 e Montreal-76.
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Nelson Prudêncio, minutos antes da quebra do recorde mundial
do salto triplo, talvez haveria de se lembrar da infância
pobre, em Lins, estado de São Paulo. Lembraria, talvez, dos
tempos em que treinava apenas duas vezes por semana, estudava
e trabalhava, em dois locais diferentes. Haveria de pensar
quão grande responsabilidade carregaria nas pernas que, em
instantes, saltariam para a eternidade.
Em momento raro do esporte, o recorde superou o recorde
em segundos. O ano era 1968. O local, a Cidade do México,
que abrigava a 19ª edição dos Jogos Olímpicos da era moderna.
Os protagonistas do espetáculo: Nelson Prudêncio, um dos maiores
fenômenos do esporte brasileiro dos anos 60 , e o russo Victor
Saneyev , um dos maiores triplistas da história.
Os anais da história do esporte mundial haveria de registrar
não somente o dia 17 de outubro daquele ano, mas os segundos
que se sucederam a partir do salto do menino de 24 anos: os
segundos em que Prudêncio deteve o recorde mundial do salto
triplo. Até a data, ninguém havia chegado à marca de 17 metros
e 27 centímetros na modalidade.
Prudêncio respira, ofegante, o ar rarefeito da capital mexicana
parece recrudescer os ânimos. O brasileiro, agora recordista
mundial, é torcedor, como qualquer brasileiro presente na
pista. Olhos incrédulos, que vêem o russo saltar: e superá-lo
por 12 centímetros.
O menino e o professor - O jovem negro, do interior
paulista, tinha o talento estampado no porte físico. Leve,
hábil. Inteligente, com ecos de genialidade já manifestos.
Desponta no esporte nos anos 60. A primeira imagem que vem
à cabeça do leitor seria inevitável: a descrição cabe a Pelé.
Num país que se dá ao luxo de relegar ídolos de outrora ao
esquecimento, cuja assimilação entre segundo lugar e derrota
torna-se discurso por demérito, o menino acima identificado
atende pelo nome de Nelson Prudêncio. Hoje, professor doutor
Nelson Prudêncio.
Nascido a 4 de abril de 1944, em Lins, São Paulo, Prudêncio
participou de sua primeira competição esportiva, no salto
triplo, aos 20 anos de idade, em 1964. Até então, treinava
duas vezes por semana, estudava e trabalhava. Sem tempo para
dedicar-se, corpo e alma, ao esporte.
Por um acontecimento que chama de “identificação do acaso”,
o atleta chegou em menos de um mês à marca de 11m69. E pouco
depois já atingia os 14m. O grande detalhe da ascensão é uma
característica que acompanhou a vida de Prudêncio: o estudo.
As marcas eram atingidas com apenas dois treinos por semana,
alternados com as obrigações escolares. Segundo o triplista,
“a motivação e a dificuldade” o sustentavam.
Em 1967, ocorreu o primeiro grande resultado internacional
com a prata nos Jogos Pan-americanos de Winnipeg, no Canadá
– saltou 16m45. E a preparação para a sua primeira Olimpíada,
no ano seguinte, contou com passagens marcantes, como os treinamentos
no Pacaembu, em São Paulo, atraindo a atenção da imprensa
internacional.
O brasileiro, contudo, seguiu para o México ostentando o
salto de 16m20, o que não alimentava bons sonhos. Assim, Prudêncio
tinha como objetivo bater o recorde sul-americano, que era
de 16m56 e pertencia a Adhemar, e alimentava o grande sonho
de chegar ao pódio.
Os Jogos Olímpicos, no entanto, demonstraram nas eliminatórias
a sua dificuldade: Giuseppe Gentile, da Itália, saltou 17m10,
sete centímetros acima do recorde mundial que pertencia ao
polonês Josez Szmidt e havia sido marcado em 5 de agosto de
1960. Nas finais, no dia seguinte, novo show do italiano com
a marca de 17m22, logo em seguida superada pelos 17m23 do
russo Viktor Saneyev.
A essa altura, enquanto o recorde mundial era batido pela
terceira vez, Nelson Prudêncio já havia cumprido sua meta,
pois se tornou recordista sul-americano com o salto de 16m57,
superando a marca que era de Adhemar Ferreira da Silva e havia
sido estabelecida no Pan da Cidade do México/55. Em nova tentativa,
chegou aos 17m05 e até o pódio estaria garantido, mas acabou
caindo para a quarta posição.
Havia a necessidade de se superar para ganhar uma medalha.
E o rapaz de Lins o fez de maneira grandiosa: chegou aos 17m27,
novo recorde mundial. Só restava torcer contra os concorrentes,
mas a tática não deu resultados. No salto seguinte, Saneyev
roubou o ouro brasileiro com a marca de 17m39, mas não tirou
de Nelson Prudêncio a histórica prata. O recorde do russo
duraria até 5 de agosto de 1971 e seria quebrado pelo cubano
Pedro Pérez com salto de 17m40.
Mesmo com a prata, Prudêncio deixou a Cidade do México com
o maior feito brasileiro na dada edição olímpica e um dos
maiores do salto triplo de todos os tempos, embora o feito
tenha sido ofuscado pelo brilho do medalhista Adhemar Ferreira
da Silva, bicampeão olímpico em 52 e 56 , e pelo recordista
mundial João Carlos de Oliveira, o João do Pulo, que saltou
17,89m nos Jogos Pan-americanos na mesma Cidade do México,
em 75.
Nas competições seguintes, com o nome de Nelson Prudêncio
já forte no esporte, o brasileiro decidiu dividir as pistas
de atletismo com a faculdade de Educação Física. E logo foi
convidado pelos Estados Unidos para estudar no país. Deixou
muitas competições de lado, mas ainda chegou à prata no Pan
de 71, em Cali, na Colômbia.
Em 1972, foi à Olimpíada de Munique, na Alemanha, “pelo
que fez no passado”, segundo suas próprias palavras. Porém,
decidido a voltar a surpreender, arrematou o bronze. Quatro
anos depois, Prudêncio recebeu a inesperada convocação para
os Jogos Olímpicos de Montreal. Desta vez, o objetivo era
apenas estimular João do Pulo, novo expoente do Brasil no
salto triplo.
Hoje, sua obsessão é outra: ensinar. Intercalando a sabedoria
adquirida da prática esportiva, com os conhecimentos científicos
relativos ao esporte, Prudêncio transmite-os aos alunos da
Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), onde tem a cadeira
de professor de licenciatura em Educação Física, desde 1974,
dois anos antes de encerrar sua carreira nas pistas, nas Olimpíadas
de Montreal. “Quero deixar conhecimentos que não tive quando
comecei a correr”, sintetiza o medalhista.
“Prudêncio é tranqüilo, amigo de todos. Faz questão de mostrar
as medalhas aos seus alunos. Não as guardou na prateleira,
tem-na consigo e faz questão de relembrar dos tempos em que
esteve na ativa. Quando alguém quer conversar com ele, atende
a todos. Fácil encontra-lo no seu escritório”, diz Guilherme
Spereta, aluno do professor Prudêncio na mesma faculdade.
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