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Atualização: 26/12/2007
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ROBSON CAETANO

Polêmicas e bronzes olímpicos: o tom da carreira de Robson Caetano

Foto: Gazeta Press
Foto: Gazeta Press

Nome: Robson Caetano da Silva
Data de nascimento: 4 de setembro de 1964
Local: Rio de Janeiro (RJ)
Provas: 100m, 200m e revezamento
Recordes:
- Recordista sul-americano nos 100m, com 10s
Principais conquistas:
. Bronze no 4x100m do Pan de Caracas-83;
. Campeão dos 200m na Copa do Mundo de Camberra-85;
. Prata nos 200m do Pan de Indianápolis-87;
. Bronze nos 200m no Mundial Indoor de Indianápolis-1987;
. Bronze nos 200m nas Olimpíadas de Seul-88;
. Campeão dos 200m no Grand Prix da IAAF em 1989;
. Bicampeão dos 200m na Copa do Mundo de Barcelona-89;
. Ouro nos 100m do Pan de Havana-91;
. Ouro nos 200m do Pan de Havana-91;
. Tricampeão dos 200m na Copa do Mundo de Havana-92;
. Bronze no 4x100m nas Olimpíadas de Atlanta-96
Participações olímpicas: Seul-88, Barcelona-92 e Atlanta-96

Ele saiu de uma favela carioca para ganhar as pistas do mundo todo. Disputou finais olímpicas e grandes torneios internacionais com atletas lendários. Também foi banido da delegação nacional nas Olimpíadas de Los Angeles por passar a noite em uma festa, fora do alojamento. Gosta de vôo-livre e pára-quedismo. Além do esporte, já fez ponta no cinema, foi disque-jóquei e até posou para uma revista de nu masculino. Hoje é um dos contratados da equipe esportiva da Rede Globo. História é o que não falta para uma biografia de Robson Caetano da Silva, um dos maiores velocistas do Brasil.

E ele planeja, um dia, escrevê-la. "Os grandes escultores perpetuam-se através de suas obras. Acho que escrever um livro seria uma forma de conseguir o mesmo. Tenho muita história e gostaria de deixar isso impresso", diz. Mas ele já se sente realizado por não ter sido esquecido, e a função de comentarista e repórter esportivo na televisão ajuda a manter a memória do público em dia. "Num país como o nosso, ser reconhecido em larga escala é muito gratificante."

Robson Caetano foi estrela mundial nos tempos áureos das provas de velocidade. "Eu corri contra os melhores do mundo em uma época em que era muito mais difícil do que hoje. Os grandes nomes do atletismo aconteceram dos anos 80 até meados de 90, quando os resultados eram muito expressivos e a consciência de treinar para alcançar resultados era muito maior. Hoje (a consciência) é mais mercadológica que ideológica", analisa. "Venci o Carl Lewis, o Linford Christie e até mesmo Michael Johnson quando ele começou a aparecer. Nunca ganhei dinheiro com o esporte, mas não reclamo porque isso abriu portas para mim e para outros atletas ganharem dinheiro agora", acredita.

Para se tornar um atleta consagrado, ele teve de enfrentar o estigma que o acompanhou por muito tempo, em especial no início da carreira, o período mais crítico para qualquer pessoa: ser taxado de irresponsável, indisciplinado, inconseqüente. Muitos treinadores não apostavam nele por causa da rebeldia, mesmo reconhecendo seu talento indiscutível. Quem ousou investir no "moleque", deu um presente ao país.

Foi o caso do presidente da Coca-Cola, John Shurman, que adotou Robson como atleta, passando a dar uma ajuda de custo para que ele se dedicasse aos treinos e tivesse uma alimentação mais balanceada. Até então, ele já tinha desistido uma vez, para trabalhar como zelador do prédio em que morava e arrumar um trocado. Mas logo voltou a treinar no Botafogo, clube em que começou, no salto triplo. "Era a época do João Carlos de Oliveira (João do Pulo) e por isso fui para o salto. Depois fiz uma prova de 100m e não saí mais", lembra.

Ampliando horizontes - "O mais importante eu tive em casa. Mesmo não tendo condições financeiras, meus pais me deram muito apoio", afirma, com ressalva para o avô, que queria ver o neto trabalhando como estivador no Porto. "Na época, ser esportista era ser vagabundo, por isso ele era contra", explica. O atletismo levou Robson exatamente para o caminho contrário do temido pelo seu avô. Fez o atleta evoluir. "O esporte também me fez conhecer a Zona Sul, para onde eu ia duas vezes por semana para treinar. Me fez conhecer mais o Rio", completa.

O crescimento profissional acompanhou o pessoal e não demorou muito até que ele fosse convocado para a seleção brasileira principal, participando da primeira edição do Mundial, em Helsinque-83. O primeiro grande título veio em 85, quando ele foi campeão dos 200m na Copa do Mundo de Canberra, ganhando também destaque na mídia. Repetiria o feito em Barcelona-89, quando marcou 20s05, então novo recorde da competição, e Havana-92.

Uma de suas últimas grandes conquistas foi o bronze no revezamento 4x100m, nas Olimpíadas de Atlanta-96, junto com Arnaldo de Oliveira, Edson Luciano Ribeiro e André Domingos. Este, aliás, um de seus sucessores favoritos. "Quando parei, minhas apostas eram todas no André, que tinha características semelhantes às minhas. Ainda o acho um atleta brilhante", elogia.

Mas que não conseguiu quebrar o recorde brasileiro de Robson nos 100m, 9s9, registrado em abril de 95, e que baixou a marca de 10s que já era dele desde junho de 88. "Correr esse tempo nos 100m te credencia como um homem muito rápido. É um resultado bom, mas que já deveria ter caído. Hoje não é tão difícil correr em menos de 10 segundos. Tem que treinar bastante, mas é possível. Por isso, eu acho que o recorde está com os dias contados.", disse no início de 2004. Entretanto, a marca ainda segue em suas mãos.

O bronze olímpico e o doping - A final olímpica dos 100m rasos nas Olimpíadas de Seul-88 foi marcada pelo início da era olímpica do doping. O canadense Bem Johnson venceu a prova com incríveis 9s79, conquista que seria anulada três dias depois, com o resultado do exame que apontou uso de anabolizante. Ele perdeu o ouro, que foi herdado por Carl Lewis. Robson Caetano foi testemunha da história - o primeiro brasileiro finalista olímpico na distância - e também ganhou uma posição, passando para o quinto lugar. "Cinco anos depois de eu ter parado, as pessoas ainda perguntam como foi aquela final", contou o brasileiro em 2002, que também acrescentou ter parado para "preservar a dignidade." "O esporte está tão envolvido com doping que você fica assustado até."

Com a divulgação mais tarde de de que o norte-americano Lewis também poderia ter usado substâncias proibidas ao longo de sua carreira, é possível refazer as contas e perceber que Robson teria ido mais longe. Como a prata ficou com Linford Christie, mesmo com a detecção de psudoefedrina em seu teste (o Comitê Olímpico Internacional lhe concedeu o benefício da dúvida, porque o britânico alegou que a droga estaria em um suplemento alimentar), o brasileiro subiria ao pódio para receber a medalha de bronze, com a exclusão dos competidores.

O resultado dos 200m seria ainda mais favorável ao carioca. Ele conquistou o bronze na corrida, ficando atrás de Joel De Loach e Carl Lewis. Os dois teriam sido pego em exames antidoping antes das Olimpíadas, mas teriam sido liberados pela Federação dos Estados Unidos para participar dos Jogos, fato nunca confirmado pelas autoridades. "Sinto-me lesado porque eu não perdi, mas deixei de ganhar o que era meu de direito. Se eu fosse norte-americano, talvez fosse diferente", diz Caetano, que considera difícil recuperar as medalhas.

Apesar disso, ele considera o triunfo nos 200m o momento de maior felicidade em sua carreira, mas não o ponto alto. Este foi ser o número 1 do mundo, em 89, nos 200m. "Sem dúvida. Eu venci 33 provas seguidas. Na final do Grand Prix fui segundo, mesmo assim consegui o título de melhor do mundo", lembra, orgulhoso.

Foi em 89 também que ele fez sua primeira temporada nos Estados Unidos. Ele já tinha tido oportunidade antes, mas não quis sair do Brasil. "Só sai daqui depois de ganhar medalha. Juntei dinheiro para ir, não ganhei bolsa, como geralmente acontecia. Fui para ver como era e vi que não tinha nada demais", afirma. le passaria também os anos de 94 e 95 nos EUA e, na volta, subiria novamente ao pódio em uma Olimpíada, ao conquistar o em Atlanta-96, com o revezamento 4x100m.

"Treinar no Brasil foi importante para criar empatia com as pessoas que viam a luta de treinar em pista esburacada e conquistar medalha assim mesmo. Se eu fosse para os Estados Unidos seria mais um e eu nunca quis ser mais um. Ainda mais no atletismo, que não tem tanto apoio, ter reconhecimento foi muito gratificante. A consciência que eu tomei treinando no Brasil me fez crescer como atleta e ganhar o carinho do público."

As polêmicas - Olimpíadas de Los Angeles-84. O jovem Robson Caetano sai da concentração com três amigas, passa a noite fora da Vila e perde a hora da final do revezamento 4x100m. Cortado da delegação, é enviado de volta ao Brasil. Esta foi possivelmente a maior polêmica da carreira do velocista, mas não a única. Ele evitou falar do assunto logo depois, mas chegou a revelar que sua atitude teria sido uma forma de protesto contra a colocação do colega Nelson Rocha na reserva. "Não lamento nada. Tudo o que fiz teve um propósito, um objetivo. Não faria nada diferente", analisou anos mais tarde.

Em 88, foi acusado de ser pai de um garoto que não reconhecia. Em 89, foi para San Diego, na Califórnia, onde teria enfrentado problemas com os outros atletas brasileiros, por dizer que carregava o atletismo nacional nas costas. Os desentendimentos duraram até os Jogos Olímpicos de Barcelona, quando ele terminou em quarto lugar nos 200m. Robson reclamou que os brasileiros torceram contra ele na final e até aplaudiram o norte-americano Michael Bates, quando o ultrapassou e ficou com o bronze.

Foi desclassificado na semifinal dos 200m no Mundial Indoor de Stuttgart-93, por ter invadido a raia interna, indignou-se com o resultado e reclamou muito da arbitragem. "Na verdade isso aconteceu duas vezes. No Mundial de 87 eu também levei bandeira vermelha. Você se acostuma também com notícias ruins. Tudo é aprendizado."

No Pan de Mar del Plata-95, foi a vez do técnico Carlos Alberto Cavalheiro reclamar que o velocista não havia se empenhado como deveria. Segundo o treinador que o acompanhou por mais de uma década, ele só correu o suficiente para chegar à final. Se tivesse se esforçado mais, daria ao Brasil uma raia melhor e a chance de pódio. Na época, o atleta disse que havia mudado sua preparação. "Agora treino quando estou disposto, no ritmo que meu organismo aceita. Assim, acho que terei até mesmo mais prazer."

Ao voltar ao assunto motivação, agora com o distanciamento de quem não compete mais, Robson diz que a falta de empenho às vezes é resultado da falta de reconhecimento e retorno financeiro. "Eu dediquei minha vida ao esporte, mas vivo de aluguel. O lado bom é que não me isolei, porque ganhar dinheiro é uma faca de dois gumes", avalia.

Ele também garante ter somente lembranças boas. "Não carrego mágoa para casa. É meu jeito carioca. Eu vou de encontro ao mar. Se tiver uma pedra no caminho, eu desvio, e se o choque for inevitável, que aconteça da melhor forma. Também não corro atrás da felicidade, porque acaba cansando. Tem que deixar as coisas acontecerem", filosofa. "Por mais importante que você seja, é uma pessoa e comete erros. Por isso vou continuar sempre assim, brincalhão."


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