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O mineiro campeão da
São Silvestre e recordista mundial
| Foto Gazeta Press |
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Por Ricardo Godoy, especial para a GE.net
Ronaldo da Costa nasceu em Descoberto, pequena cidade mineira
situada a 80 km de Juiz de Fora. Caçula entre 11 irmãos,
desde pequeno mostrava que seu futuro estava longe dos estudos.
Inquieto, não conseguia se concentrar na escola e logo
começou a trabalhar. Entre as várias profissões
exercidas por ele antes de ingressar no atletismo, estavam
a de soldador, costureiro e oleiro.
Foi Paulo Lima, então prefeito de Descoberto, que colocou
Ronaldo no atletismo. Ele inscreveu o na época fabricante
de tijolos em uma corrida da cidade, e Ronaldo não
fez feio. Mesmo descalço, chegou na segunda posição.
Começava assim sua carreira como corredor.
No entanto, a falta de recursos para uma preparação
adequada desanimou o atleta, que decidiu então arriscar
a carreira de jogador de futebol. Atuou como goleiro do Descoberto
F.C., mas o diretor do clube, Mazinho Mauas, conseguiu recursos
para que Ronaldo voltasse às pistas.
Pouco a pouco, Ronaldo foi se firmando como um fundista de
nível nacional. Até que, em 93 terminou o ano
como o melhor brasileiro da Corrida de São Silvestre,
cruzando a linha de chegada na sétima posição.
O resultado o colocou na condição de favorito
da edição seguinte.
O atleta não decepcionou e garantiu o título
da Corrida em 94. Era a primeira vez em nove anos que um brasileiro
vencia a São Silvestre - o último havia sido
José João da Silva, em 85. Foi o bastante para
que os holofotes se voltassem a Ronaldo, que passou assim
a se tornar um dos mais respeitados atletas do país.
Tudo indicava que 95 seria um grande ano para o brasileiro,
mas não foi o que aconteceu. "95 foi péssimo.
Perdi minha irmã de AIDS e ainda sofri um acidente
de carro", resume. Seu melhor resultado foi a medalha
de bronze nos 10 mil metros dos Jogos Pan-americanos, disputado
em Mar Del Plata, na Argentina. Na São Silvestre, foi
apenas o 20º colocado.
O ano de 95 pode não ter sido dos melhores, mas pelo
menos garantiu a Ronaldo da Costa o índice para disputar
as Olimpíadas de Atlanta, também na prova dos
10 mil metros. No entanto, não conseguiu passar da
primeira eliminatória.
Sem conseguir repetir grandes feitos como o da São
Silvestre, Ronaldo acabou caindo novamente no anonimato. Com
um problema no calcanhar, passou boa parte de 98 parado.
Como forma de se preparar melhor para a volta às pistas,
Ronaldo decidiu participar da maratona de Berlim. Ele não
só venceu a prova como bateu o recorde mundial com
o tempo de 2h06min05s. A marca anterior havia sido estabelecida
dez anos antes, pelo etíope Belayneh Dinsamo, em Roterdã,
na Holanda.
O resultado pegou o brasileiro de surpresa, mesmo porque aquela
era apenas a segunda maratona de sua carreira - a primeira
havia sido em 97, também em Berlim, com Ronaldo chegando
na quinta posição. "Meu objetivo era correr
bem. Não pensava em vencer, muito menos em bater o
recorde", contou.
Na verdade, as condições nas quais são
submetidos os participantes da maratona de Berlim favorecem
bons tempos como o de Ronaldo, já que a temperatura
é amena e o traçado é plano, evitando
assim o desgaste dos corredores. A Iaaf inclusive não
utiliza o termo recorde para maratonas, mas sim "melhor
performance", já que cada prova tem sua peculiaridade.
Mas para a imprensa o público estes detalhes pouco
importavam. Ronaldo chegou ao Brasil recebido com festa pela
marca obtida e tornou-se ídolo nacional. Sua cidade
natal, Descoberto, passou semanas recebendo as câmeras
de TV.
Mais uma vez, no entanto, a maré de azar pegou o atleta.
As lesões voltaram a incomodá-lo e ele foi obrigado
a se retirar das pistas mais uma vez. A isso aliaram-se outros
problemas: na mesma época separou-se de sua mulher
e foi obrigado até a se refugiar em Porto Alegre, depois
de receber ameaças de morte na cidade onde morava.
Sem condições de treinar, Ronaldo desistiu de
disputar a São Silvestre daquele ano e abriu mão
também dos Jogos Pan-americanos de Winnipeg em 99.
Sua marca na maratona também acabou não durando
muito tempo. No dia 24 de outubro de 99, o marroquino Khalid
Khanouchi estabeleceu o novo recorde da maratona de Chicago,
com 2h05min42s.
Nesta época Ronaldo estava nos Estados Unidos, trabalhando
em sua recuperação e com um novo objetivo em
mente: as Olimpíadas de Sydney. No entanto, acabou
não obtendo o índice. "Foram três
meses de treinos puxados em San Diego. Eu esperava fazer o
índice, mas ele não veio. Fazer o quê...",
lamentava.
A série de insucessos afetou o atleta, que passou por
momentos de depressão. "Teve uma época
que ninguém podia falar de corrida comigo, não
queria nem ouvir nada a respeito. Uma vez cheguei a ficar
duas semanas sem sair do quarto, só vendo as notícias
pela televisão".
Agora em 2002, Ronaldo só pensa em voltar aos bons
momentos. Afinal, ele enfim está livre das lesões.
De volta às competições, ele já
obteve alguns bons resultados, como a vitória na Corrida
Resgate da Fronteira, realizada no início de dezembro
em Bogotá, na Colômbia. "Não quero
mais falar do passado, só penso em começar de
novo", garante.
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