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. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . GUERRINHA
Foto Gazeta Press
Foto Gazeta  Press

Gigante na armação

Por Marta Teixeira

O armador Jorge Guerra fez fama nas quadras como jogador ágil e de raciocínio rápido. Daqueles que podiam sacar sempre uma surpresa no momento crucial do jogo. Apesar do talento reconhecido, Guerrinha, como sempre foi chamado, teve que trabalhar muito para assegurar seu espaço em uma época na qual talentos não faltavam no esporte. Com a bola na mão, Guerrinha tornava-se um gigante com um talento especial para a coordenação, que mais tarde provou ter mantido na carreira de técnico. Mas vamos por partes. Guerrinha nasceu em Franca (SP), no dia 21 de junho de 1958. Com sete anos ensaiava os primeiros dribles nas escolinhas da cidade, mas aos 15 já estava com os adultos do Amazonas. A modalidade entrou em sua vida como um processo natural, mas que fugiu ao padrão da família. "Meu pai tinha uma fábrica de chuteiras e meus dois irmãos jogavam futebol como profissionais na Francana", relembra Guerrinha. Antes de fechar com o basquete, Guerrinha praticou natação, futebol e handebol. "Mas meu forte sempre foi o basquete", recorda. Com a concorrência acirrada de talentos, foi obrigado a disputar o Campeonato Infantil em 75 pela equipe de Orlândia.

A saída foi rápida e no ano seguinte já engrossava a fileira dos que sonhavam em ser titular do então, Amazonas Franca. "Meu primeiro jogo foi em 7 de julho", lembra. Só que a disputa não era fácil em um time que contava com Hélio Rubens, Fausto e Fransérgio como opção em quadra. Por mais que o técnico Pedroca gostasse do seu estilo, era difícil fazer frente a tais "adversários". Mas será que a concorrência o amedrontava? "Não, nesta idade (15 anos) a gente não tem noção do perigo", diz rindo. "Eu disputei com o clã. Muito jogador bom desistiu".

Só que desistir não é uma palavra utilizada com freqüência por Guerrinha. "Se tivesse uma palavra para me definir seria a insistência", confessa o ex-jogador. De pouquinho em pouquinho ele foi garantindo seu espaço. "Primeiro peguei a vaga do Fransérgio que fazia medicina e não podia ir sempre. Depois revezei com o Hélio (Rubens) até 1980". A partir deste ano, recorda, a situação se inverteu e ele foi o titular de Franca entre 80 e 92, quando transferiu-se para o Ripasa Monte Líbano. No retorno para a equipe francana, em 94, ele manteve a condição de títular até 96, quando saiu novamente do time.

O primeiro grande título veio quando ainda era reserva e o Francana (sim, o time já tinha mudado de nome) conquistou o tri-campeonato sul-americano em 1977. Guerrinha tinha apenas 17 anos. Três anos depois, na temporada de 80, ele realmente começou a aparecer, sendo apontado como um dos principais destaques da temporada.

Guerrinha entrou para a seleção adulta em 1981, dois anos depois disputou seu primeiro Pan-americano na Venezuela e trouxe para casa a medalha de bronze. Vestindo a camisa do Brasil, o armador participou de alguns dos momentos mais marcantes do basquete brasileiro. Ao lado de Oscar e Marcel, integrou o grupo que conquistou o ouro histórico nos Jogos Pan-americanos de Indianápolis/87.

Mesmo para um jogador não muito afeito a explosões de emoção, a vitória sobre os Estados Unidos, em uma das cidades onde o basquete é mais idolatrado no país, deixou sua marca e muitos anos depois a conquista era lembrada como o ápice em sua trajetória. "Tive muitas alegrias, mas a maior delas foi a medalha de ouro no Pan-americano de Indianápolis", afirmava.

Mas no balanço geral, Guerrinha viu uma vitória em cada degrau que avançava no profissionalismo. "Ter conseguido ser atleta de alto nível também foi um desafio para mim", assegura, lembrando que nunca imaginou passar das categorias de base. "Inicialmente pensava que só poderia ir até o juvenil. Cheguei à equipe adulta de Franca, seleção paulista e brasileira. Tudo isso foi importante para mim".

Quando compara seu tempo de jogador e sua experiência como técnico, Guerrinha não recorre a saudosismo ou qualquer coisa do gênero. "Sou o tipo da pessoa que vive o momento", diz para explicar porque dá um valor todo especial ao que conquistou como técnico. "Olha só, foram 27 anos como jogador e apenas cinco como técnico e já conseguiu resultados importantes. Eu sempre curto o que estou fazendo no momento. Acho que o importante é você fazer o que acredita". E no seu caso não há definição melhor, principalmente porque quem conhece Guerrinha sabe que ele não é do tipo que faz as coisas só para agradar aos outros.

A única vez que fugiu a esta regra, se arrependeu. "Foi quando disputei o Sul-Americano de 94 (tinha 35 anos). O Ary (Vidal) tinha voltado para a seleção, me chamou (Guerrinha tinha anunciado que não jogaria mais pela seleção em 92) e eu fui. Não deveria ter ido. Mas foi bom para aprender a seguir meus instintos", conclui.

Durante 27 anos, parte de sua vida foram os jogos de basquete. A dedicação ao esporte não o impediu de encontrar tempo para os estudos e foi se desdobrando entre as quadras e a escola, que se formou em Educação Física. Pelo time de Franca, ele atuou em 1.050 partidas e marcou mais de 12 mil pontos. Foram 16 anos um mês e 20 dias de atividade no mesmo clube, até a mudança para o Ripasa Monte Líbano.

Com a seleção brasileira, Guerrinha jogou dez anos e disputou 226 confrontos. Além do Pan-americano de 87, participou dos mundiais da Espanha/86 (4º lugar) e da Argentina/90 (5º) e das Olimpíadas de Seul/88 e Barcelona/92. Em ambas o grupo terminou na quinta colocação. A decisão de deixar a seleção brasileira foi anunciada em 92, logo depois do jogo contra a Austrália. "A nossa geração resolveu parar em 92, porque sabíamos que precisava começar um novo ciclo", assegura .

O desligamento abriu espaço para uma reflexão muito franca. "Os dirigentes sempre acham culpados. Acusaram minha geração pela campanha em Barcelona. Falam de boca cheia que não tem mais lugar para individualistas. Se essa nova geração fracassar, alegarão inexperiência e não a falta de estrutura que sofre o basquete, a falta de intercâmbio e de um trabalho mais planejado. Eles (dirigentes) se garantem e continuarão na cabeça de tudo", declarava à Gazeta Esportiva um ano depois da despedida.

Fora da seleção, Guerrinha ainda jogou em clubes mais cinco anos. Decidiu parar em 97, quando defendia o Polti/COC, em Ribeirão Preto. Na verdade, foi ele quem levou o basquete na cidade. "Eu jogava no Dharma Yara quando eles resolveram acabar com o patrocínio no meio da temporada. Eu tinha alguns contatos e consegui levar o time todo para Ribeirão". Guerrinha continuou jogando ainda uns seis meses até que o presidente do clube, Chaim Zaher convidou-o então para ser gerente geral da equipe e depois para ser o técnico, desafio que Guerrinha não recusou. "Ele me deu dois dias para pensar e acertar o que queria".

A decisão de abandonar as quadras foi tomada com tranqüilidade. "Sei que poderia estar jogando até hoje, mas não queria continuar. Estava jogando em função do passado e era melhor começar uma nova fase", assegura. Já quando decidiu trocar de função, Guerrinha via a mudança como resultado de um processo natural. "Na verdade, o armador sempre é um técnico dentro de quadra", diz. Desde aquela época, ele tinha objetivos claros para o desafio. "Eu sempre participei desta função. Tive vários bons técnicos e de cada um tirei alguma coisa que irei aplicar nessa minha nova função". E a fórmula adotada pelo ex-armador provou ter a dosagem certa. "Tornei-me um técnico muito competitivo", analisa.

Depois de levar o grupo de Ribeirão às finais do Paulista e do Nacional, Guerrinha transferiu-se no ano seguinte para o Tilibra/Copimax/Bauru, onde permanece até hoje. Coube a ele caracterizar a equipe bauruense, que já no primeiro ano sob seu comando conquistou resultados impressionantes. A equipe ficou com o título paulista de 99 e com o vice-campeonato sul-americano. No Nacional, terminaram na quarta colocação naquela temporada. No ano seguinte, foram vice-campeões paulistas. "Estamos sempre nos mantendo entres as principais equipes", analisa.

Guerrinha tornou-se assim, um daqueles exemplos de bons jogadores, que conseguiram aliar a experiência e o talento adquiridos na prática e revertê-los em qualidade no comando de equipes. "Meu plano é continuar, mostrando que sou competitivo", assegura.

Em 2002, deu mais uma prova de seu talento como técnico, levando sua equipe ao inédito título Nacional. No entanto, isto não impediu que o patrocinador (Tilibra/Copimax) retirasse seu apoio, levando à saída de vários jogadores. Mesmo assim. a equipe manteve-se competitiva no Paulista e Nacional seguintes. No final do ano, Guerrinha também foi escolhido para integrar a comissão técnica da seleção brasileira, como auxiliar de Lula Ferreira.

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