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A marca de uma geração
campeã
Por Marta Teixeira
Pernas brancas, tão claras que destoavam dos companheiros
do time. Esta é uma das origens possíveis do
apelido Kanela, que acompanhou o garoto Togo Renan Soares
durante toda sua vida. Figura mítica do basquete nacional,
Kanela é, até hoje, um dos técnicos que
mais conquistou títulos pela equipe.
Sob seu comando, o Brasil foi bicampeão mundial (Chile-56
e Rio de Janeiro-63), uma medalha olímpica de bronze
(Roma-60). Apesar de ser lembrado por seus feitos nas quadras,
não foi apenas nelas que Kanela chamou a atenção.
Antes de tornar-se técnico de basquete, comandou as
categorias de base do time de futebol do Botafogo. Formado
em educação física teve sob seus cuidados
craques como Leônidas da Silva e Domingos da Guia e
foi três vezes campeão carioca da categoria.
Foi em 1948, que Kanela deixou definitivamente o futebol
para se tornar exclusivamente técnico de basquete no
Flamengo. Em 1954, assumiu a seleção brasileira
e começou a gravar seu nome na história.
Duas coisas marcaram especialmente a passagem de Kanela pelo
esporte brasileiro e é até difícil dizer
qual a mais impressionante. A primeira era a maneira como
extraía o melhor de seus comandados e garantia títulos
onde quer que fosse. A segunda, mais polêmica, seu temperamento
intempestivo.
É tão fácil lembrar de Kanela por seus
títulos, quanto pelas cenas antológicas que
protagonizou nas quadras. Uma delas inspirou Nelson Rodrigues
a escrever a crônica "O tapa cívico",
narrando a bofetada desferida em um árbitro de quem
duvidava da imparcialidade durante o Mundial do Uruguai-67.
"Kanela era um grande comandante", resume Antonio
Salvador Sucar, que trabalhou com o técnico na seleção.
"Era esperto e sagaz". Para outro de seus comandados,
o jogador Paulista, Kanela estava a frente do seu tempo. "Ele
nunca foi jogador, mas sabia ensinar e liderar", ressalta.
O feito não é inesperado para quem sabe que
Kanela levou o Botafogo ao título de 44 no pólo-aquático,
mesmo sem saber nadar.
Para Paulista, era a perspicácia do treinador que
possibilitava ao Brasil caminhar no mesmo ritmo dos outros
países e até superá-los. "Na minha
época era super-8. Você não assistia aos
jogos dos outros times. O Kanela antecipava o que estava acontecendo,
ele antevia e nos ensinava".
Com ele, muitos craques aprimoraram seu talento. Amaury Pasos
e Wlamir Marques, duas referências na modalidade no
país e apontados como exemplo de atletas completos,
chegaram à seleção pelas mãos
de Kanela. A dica foi passada pelo também técnico
Mário Amâncio, mas o comandante da seleção
não teve medo de lançar a dupla com apenas 17
anos no Mundial de 1954. A coragem de apostar em jovens sempre
foi uma marca em seu trabalho, que garantiu vaga na seleção
para atletas como Ubiratan, Sucar e outros.
Ao todo Kanela comandou o Brasil em cinco mundiais, cinco
sul-americanos e duas olimpíadas. Em somente uma destas
ocasiões o país ficou fora do pódio
nos Jogos Olímpicos da Alemanha-72, quando o Brasil
terminou em sétimo lugar.
Além dos dois títulos mundiais (59 e 63), a
seleção conquistou dois vice-campeonatos (54
e 70) e a terceira colocação em 67. No Sul-americano,
domínio de Kanela, pentacampeão (58, 60, 61,
64 e 71). Em Olimpíadas, o técnico garantiu
o bronze de Roma-60. "Acredito que nunca mais teremos
no Brasil um técnico mais campeão", diz
Paulista.
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