O menino-prodígio da NBA
Marta
Teixeira
O título de jogador mais valioso (MVP) do All-Star Game
2002, o Jogo das Estrelas, da NBA foi apenas mais um detalhe
na carreira do armador do Los Angeles Lakers, Kobe Bryant.
Mas parece que foi uma das únicas coisas que demorou para
se concretizar em sua história. Apontado há anos como uma
das principais estrelas da liga na atualidade, Bryant é
o tipo do jogador que sempre faz diferença.
Na vida do filho caçula do ex-jogador Joe ‘Jellybean’
Bryant tudo sempre ocorreu de maneira precoce. Dizem que
o berço da criança era decorado com pequenas bolas de espuma
laranja. Quando Kobe tinha quatro anos de idade, seu pai
decidiu deixar a carreira pouco expressiva como ala na NBA
- Philadelphia 76ers (1975 a 1979), San Diego Clippers (1980
a 1982) e Houston Rockets (1982/83) - e levou a família
- a mulher e três filhos - para a Itália onde foi defender
o Caserta e Pavia, que contava então com o brasileiro Oscar
Schmidt no grupo. As lembranças que o garoto deixou no Mão
Santa são as de um menino que adorava ficar na quadra, jogando
bola e que chegava a "ser chato" de tanto que queria jogar
com os adultos. "Nunca imaginei que ele seria o que é hoje",
declarou Oscar em 2000, quando Kobe já era um dos destaques
da liga. A admiração é recíproca porque em uma entrevista
dada um pouco antes, o norte-americano disse que lembrava
de Oscar jogando com seu pai e admirava a carreira do brasileiro.
Da temporada italiana, Kobe carrega não apenas as boas
recordações do brasileiro, mas também a fluência no idioma
e o amor pelo país, para onde ele espera um dia retornar,
ou para jogar no final de sua carreira ou depois da aposentadoria.
Kobe chegou mesmo a comprar uma equipe de basquete no país,
o Adecco Milano, mas decidiu vendê-lo há dois anos.
De volta aos Estados Unidos, o armador começou a fazer
fama cedo nas quadras. Com apenas 16 anos, ele já tinha
contrato de patrocínio o que explica como conseguiu passar
direto do colegial para a liga profissional, pulando a etapa
universitária. Defendendo o Lower Marion High School, Kobe
tornou-se o recordista em pontos da Southeastern Pennsylvania
com 2.883 pontos, superando o membro do Hall da Fama da
NBA, Wilt Chamberlain (2.359 pontos). A performance do estudante
levou-o a ser eleito pelo USA Today e Parade Magazine como
o melhor jogador colegial do país, além de receber outros
prêmios: Naismith Player of the Year, Gatorade Circle of
Champions High School Player of the Year e ser eleito para
o All-America Team do McDonald's. Kobe mantinha então médias
de 30,8 pontos, 12 rebotes e 6.5 assistências por jogo.
Com 18 anos, foi selecionado pelo Charlotte Hornets como
a 13ª escolha no draft de 96, mas caiu nas graças do dirigente
dos Lakers, Jerry West, que deu o veterano pivô Vlade Divac
aos Hornets e contratou o novato pela quantia de US$ 3,6
milhões por três temporadas. Atualmente, ele tem o segundo
melhor contrato da equipe, atrás apenas de Shaquille O’Neal.
O contrato de Kobe é por seis anos, termina na temporada
de 2004/05, e seu valor total era estimado em US$ 70,9 milhões
(aproximadamente R$ 169.451 milhões). Shaq tem um contrato
de US$ 193,41 milhões por dez anos, até 2005/06, aproximadamente
R$ 462.249 milhões*.
Em quadra, Kobe fez valer cada centavo investido em seu
contrato inicial. Foi chamado para o jogo dos rookies (novatos)
do All-Star e deixou a quadra como o MVP com 31 pontos marcados.
Na temporada seguinte (98), tornou-se o jogador mais jovem
eleito para o quinteto titular do All-Star, Kobe tinha então
19 anos e meio (até então, a condição de titular mais jovem
pertencia ao companheiro de equipe Earvin Magic Johnson,
que estreou com 20 anos, na temporada de 80). De uma temporada
para outra, ele praticamente dobrou seu tempo em quadra,
passando de 1.103 minutos para 2.056 minutos jogados, ninguém
mais duvidava que aquele rapaz, batizado pelos pais com
o nome de um bife (o casal Bryant escolheu o nome do caçula
em um cardápio de restaurante poucos dias antes do seu nascimento)
era uma das grandes promessas de sua geração.
Desta constatação para as comparações com o gênio das
quadras Michael Jordan foi só um pulinho. Mas não há nada
que deixe o normalmente diplomático Kobe mais irritado,
que tais comparações. Não que ele não considere isto uma
honra, afinal, quem não gostaria de ser apontado como o
substituto de um dos maiores mitos do basquete norte-americano,
mas o armador acha que mais que um novo Jordan ele é o primeiro,
e único, Kobe Bryant.
Se a pergunta formulada é direta: Você gostaria de ser
um novo Michael Jordan? Ele responde de maneira direta também
e afirma que está cansado do assunto. Para Kobe, não haverá
outro Jordan e o melhor é saber que ele é o primeiro Kobe
Bryant, alguém capaz de fazer outros jovens sonharem ser
como ele e não como um segundo Jordan. Ser um ídolo para
a garotada não é um peso. Sem sentir-se pressionado, Kobe
afirma que sua única preocupação é ser ele mesmo e viver
a vida, torcendo para que os jovens aprendam com os erros
que os ídolos podem cometer.
As palavras firmes e a tranqüilidade são marcas da personalidade
do armador, que reconhece ter passado por muitas coisas
ainda com pouca idade, mas ao mesmo tempo faz questão de
lembrar que nada foi obra do acaso. Kobe classifica a si
mesmo como alguém que traça seus objetivos de forma clara
e trabalha para atingi-los. Quando ainda era um estudante
na Itália precisou responder um questionário onde lhe perguntavam
o que gostaria de ser quando crescesse. A resposta foi direta:
ser jogador da NBA e provocou espanto no professor, que
fez questão de lembrá-lo que isto era coisa para um em um
milhão. "Pois eu serei este um", disse o garoto. Para saber
com exatidão a melhor maneira de atingir seus objetivos
costumava manter no caderno um calendário que lhe permitisse
estar sempre preparado para ser o melhor no que tivesse
que fazer. Com o passar dos anos transferiu esta disciplina
para suas metas nas quadras.
No verão ele aproveita para treinar. Na temporada 2002/03,
ele fez um trabalho geral antes do início das disputas.
Começou aperfeiçoando os lançamentos em todos os tipos de
situação (dentro ou fora do garrafão, com ou sem pressão),
depois dedicou-se à leitura do jogo e aos esquemas defensivos.
Para completar, treinou forte a potência dos saltos para
furar o espaço dos pivôs adversários.
Temporada após temporada, prova estar seguindo uma receita
para chegar à perfeição. Os números que mantém na liga atestam
seus avanços. Nos dois títulos conquistados pelos Lakers,
ele foi um dos personagens principais, mesmo tendo a seu
lado o fenômeno Shaquille O’Neal. Na luta pelo bicampeonato,
na temporada de 2000/01, os comentários sobre um duelo de
egos na equipe cresceram. De briga pelo destaque para inimigos
que jogam junto, foi um pulo. No final, ambos admitiram
que têm um estilo de vida bem diferente - Shaquille, além
do talento nas quadras é conhecido como cantor de rap e
festeiro inveterado. Kobe faz o gênero tranqüilo, que gosta
de um bom livro e de jogar videogame -, mas que se respeitavam
e, na quadra, jogavam com o mesmo objetivo. Trato feito,
trato cumprido e a dupla levou os Lakers a seu segundo título
consecutivo.
Na temporada seguinte, o menino-prodígio da NBA chegou
ao tricampeonato. O troféu de MVP do All-Star Game foi um
bom termômetro de qual seu grau de determinação nesta batalha.
Mas no na campanha seguinte, os Lakers ficaram na saudade
e tiveram de ver o San Antonio Spurs comemorar a conquista.
A vida de Bryant seguiu perfeita até o final de
2003, quando o jogador viu seu nome envolvido em um processo
por estupro. Pouco antes do início da pré-temporada,
o jogador foi submeter-se a uma cirurgia no Colorado e foi
acusado pela funcionária do hotel em que se hospedou
de violentá-la. A questão seguiu na Justiça
até 2005 e chegou a ameaçar sua participação
na temporada 2004/05, contudo jogador e reclamante entraram
em acordo financeiro e o caso não foi a julgamento.
Segundo os advogados da suposta vítima, a decisão
foi tomada porque ela não gostaria de passar pela
experiência de depôr em um tribunal.
*Os valores são estimativas feitas por analistas da liga
porque nem NBA nem equipes divulgam os valores oficiais
de seus contratos.