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. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . MARIA HELENA CARDOSO

Caso de amor com o basquete

Por Ricardo Godoy

Maria Helena Cardoso tem um caso de amor com o basquete feminino. Foi ao esporte que ela dedicou toda a sua vida, seja como jogadora ou técnica. Dentro das quadras, fez parte de uma das melhores seleções brasileiras da história, no início dos anos 70. Como treinadora, continuou fazendo história, classificando o Brasil pela primeira vez às Olimpíadas e acumulando títulos nos clubes. Sua experiência e seu estilo ‘linha-dura’ a ajudaram a superar barreiras e se tornar uma das mais respeitadas treinadoras da modalidade, sempre preocupada em fazer um trabalho sério e privilegiando a formação das jogadoras.

Nascida na cidade paulista de Descalvado, em uma família de esportistas, o destino de Maria Helena Cardoso não poderia ter sido diferente. Seguindo os passos de sua irmã mais velha, Cida, destaque da seleção brasileira nos anos 50 e 60, ela começou a jogar basquete aos 12 anos, no colégio em que estudava. Três anos mais tarde, a garota de 1m80 já era convidada a jogar pela seleção brasileira principal. Aceitou o convite e permaneceu lá durante 16 anos.

Maria Helena começou no Pinheiros, mas foi em Piracicaba, onde passou a jogar a partir de 68, que fez história, conquistando o heptacampeonato dos Jogos Abertos do Interior. Na seleção brasileira, fez parte de uma das maiores gerações do basquete feminino nacional, jogando ao lado de feras como Norminha, Lais Elena, Nilza e Eleninha. Com esta equipe, o Brasil chegou, em 71, ao terceiro lugar no Campeonato Mundial, além da medalha de ouro no Pan-americano de Cali (Colômbia), no mesmo ano.

Apesar de ter se aposentado em 71, Maria Helena não encerrou sua carreira vencedora, muito pelo contrário. Como técnica, colecionou ainda mais alegrias e colocou definitivamente seu nome na história do basquete feminino nacional.

O fato de uma mulher se tornar treinadora, a princípio, fez com que muitos olhassem com desconfiança. "Quando deixei as categorias de base para assumir o time principal de Piracicaba, um dirigente afirmou que eu não tinha pulso e nem era enérgica o suficiente para manter a disciplina da equipe", conta.

A resposta veio em 85, três anos depois de assumir a equipe, com o título paulista. Maria Helena repetiu o feito em 86, com o bicampeonato, obtendo respeito suficiente para assumir a seleção brasileira. Mais uma vez, o fato de ser mulher gerou surpresa e resistência de muitos dirigentes. "Nem eu esperava. Se acreditassem no meu trabalho, já teriam me chamado antes", disparou.

Sempre ao lado da auxiliar Heleninha Campos, sua colega na seleção nos tempos de jogadora e quem considera uma das maiores atletas que já viu jogar, Maria Helena logo iniciou um trabalho de renovação na equipe brasileira, comandada por Hortência e Paula.


O primeiro desafio seria classificar a equipe brasileira pela primeira vez aos Jogos Olímpicos, em Seul. Entretanto, a o time fracassou no Pré-olímpico de Cingapura. "O time ainda estava muito verde, não estávamos preparadas para disputar as Olimpíadas", afirmou. "A média de idade era de 22 anos. Tecnicamente, o time era bom, mas ainda não havia a preparação psicológica necessária".

As Olimpíadas já eram uma obsessão para Maria Helena desde os tempos de jogadora. Um dos momentos que ela guarda com carinho na memória é o jogo entre Brasil e Tchecoslováquia, em 65. A partida foi organizada pelo Comitê Olímpico Internacional para decidir se a o basquete feminino possuía nível técnico suficiente para disputar os Jogos.

"Foi um jogo lindo, muito disputado. Perdemos, mas valeu a pena", diz Maria Helena. Apesar de aprovado pelo COI, o basquete feminino só entrou nas Olimpíadas em 76, em Montreal (Canadá). "Fui ver os Jogos por conta própria. Fiz a mesma coisa em 80, em Moscou, e em 84, em Los Angeles. Percebi que o Brasil não devia nada a nenhuma seleção do mundo. Só precisávamos de um trabalho sério".

Aplicando este trabalho, a seleção foi evoluindo e, aos poucos, obtendo resultados significativos, como a histórica medalha de ouro no Pan-americano de Havana, em 91. O título foi conquistado diante do time da casa, sobre os olhares de Fidel Castro. No ano seguinte, veio a tão sonhada classificação para os Jogos, obtida no Pré-olímpico de Vigo, na Espanha.

Entretanto, a eliminação ainda na primeira fase nas Olimpíadas de Barcelona deixou todo o elenco em baixa, fazendo a CBB pensar em uma renovação na equipe. "Decidi então apresentar minha demissão. Saí com a cabeça erguida, com a certeza de que dei minha contribuição. Só lamento que não deram a chance de avaliar o meu trabalho, discutir os erros e acertos", disse a treinadora.

Dois anos mais tarde, sob o comando de Miguel Ângelo da Luz, o Brasil conquistava o título mundial, na Austrália. Mesmo assistindo à conquista de longe, Maria Helena não conseguiu deixar de conter sua emoção, uma vez que foi ela quem iniciou todo o trabalho para que as brasileiras chegassem no topo do pódio.

Fora da seleção, Maria Helena aceitou o convite para treinar a Ponte Preta, que estava disposta a montar um supertime de basquete. Com Paula e Hortência jogando juntas, o time de Campinas conquista, em dois anos, todos os títulos possíveis: campeã dos Jogos Regionais, Jogos Abertos do Interior, paulista, brasileiro e mundial.

O casamento com a Ponte Preta terminou em 95, após um desentendimento com a diretoria da Ponte. Ela retornou assim a Piracicaba, voltando a comandar o BCN – na época, disputando a segunda divisão do Campeonato Paulista. "Vou voltar a trabalhar em um lugar que tenho carinho e respeito. Voltei a fazer basquete para ser feliz", disse.


Comandando um sério trabalho de base - chegou a trabalhar com 600 garotas nas categorias inferiores - ela conquista o bicampeonato paulista em 97 e 98 e o título mundial em 98, todos quando o time já havia se mudado para Osasco. Apesar das vitórias, ela acaba se desentendendo com a diretoria, que exigiu mudanças na comissão técnica – entre elas a demissão de sua auxiliar Heleninha, com quem trabalhava desde início de sua carreira como treinadora – e decide abandonar a equipe.

A saída do BCN/Osasco quase significou o fim de sua carreira como treinadora. Ela ficou parada durante um ano, quando então foi contratada pelo Vasco da Gama. "Decidi deixar as quadras um pouco de lado para recarregar as pilhas. Nunca considerei isso uma aposentadoria, mas sim uma ‘licença’ por todo o tempo que trabalhei", explicou. "Já havia recebido outros convites antes, mas só Deus sabe a hora certa de voltar. O Vasco me convidou e decidi encarar o desafio de fazer um time forte no Rio de Janeiro".

Maria Helena assumiu o Vasco em maio de 2000 e sob seu comando o time cruzmaltino conquistou os títulos carioca e nacional de 2001. Em 2003, a técnica entrou em acordo com o presidente vascaíno Eurico Miranda e conseguiu uma licença especial para dirigir o P.C. Mendibil, na primeira divisão da Liga Espanhola, tornando-se a primeira treinadora brasileira a comandar uma equipe na Europa. Permaneceu no clube europeu até 2005, quando decidiu retornar ao Brasil, anunciando um possível fim da carreira.

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