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A lenda do Cavalo de Aço
Por Marta Teixeira
A fama do Cavalo de Aço foi construída com muito suor e dedicação
pelo pivô Ubiratan Pereira Maciel, o Bira, um dos principais
ídolos do basquete brasileiro. Jogador de raça, Bira sempre
foi figura referencial nas equipes pelas quais passou e principalmente
no Corinthians, time com o qual foi cinco vezes campeão paulista.
Disciplinado, esforçado, Bira era um gigante no garrafão,
território onde dominava seus adversários, deixando-os desconcertados
com seus freqüentes "tapinhas", que tiravam não apenas a bola
da trajetória da cesta, mas também a calma de quem tentava
marcar o ponto.
A fama do Cavalo de Aço cruzou fronteiras e em três
oportunidades (1996, 97 e 98), o jogador foi indicado para
integrar o Hall da Fama do basquete mundial, nos Estados Unidos,
ao lado de outros ídolos como Larry Bird e Aleksander Nikolic.
Seu nome não chegou a ser incluído na relação
que, como declarou na época da indicação,
equivalia a "receber o Oscar de melhor ator ou estar
entre os top 10 do tênis". Para o brasileiro, a primeira indicação,
já havia se tornado a segunda maior alegria de sua vida. A
primeira fora, sem dúvida, a conquista do título mundial no
Campeonato de 1963.
A festa não poderia ter sido em lugar melhor. Em pleno Maracanãzinho,
Bira, então com apenas 18 anos acompanhou extasiado lance
a lance a vitória do Brasil por 85 a 81 contra os Estados
Unidos. Bira ainda era reserva de Succar, mas nunca esqueceu
o carinho e calor que emanaram dos 30 mil torcedores que lotaram
o ginásio naquela noite.
Quando recebeu a segunda indicação, em 98, Bira não escondeu
a expectativa sobre o resultado. Na eleição anterior, o ex-técnico
da seleção espanhola, Antônio Dias Miguel, acabou com a graça
brasileira, levando a melhor na contagem de votos.
As façanhas de Bira nas quadras incluíram a participação
em três Jogos Olímpicos: Tóquio/64, México/68 e Munique/72.
No Japão, a seleção ficou com o bronze, conquistado por aquele
grupo mítico que incluía Amaury, Succar, Mosquito, Rosa Branca,
Wlamir e Edvar Simões. Na edição seguinte o Brasil ficou em
quarto lugar e depois em sétimo.
Bira ficou fora do grupo que lutou por uma vaga para os
Jogos de Montreal/76 por causa de uma contusão na mão direita.
No final, nem Brasil nem Bira foram para o Canadá. O contratempo
custou-lhe a realização do sonho de defender o Brasil em quatro
olimpíadas, já que ele não foi incluído na convocação para
os jogos de Moscou/80.
Das participações em Mundiais também ficaram boas recordações.
Depois de estrear com o ouro de 63, no Rio de Janeiro, Bira
contribuiu para a conquista do bronze no Uruguai/67 e a prata
na Iugoslávia/70, quatro anos depois lá estava ele com o grupo
que foi a Porto Rico (6º lugar). A última participação em
Mundial foi nas Filipinas/78, quando a equipe conquistou mais
uma medalha de bronze.
Mas as façanhas de Bira com a camisa da seleção não se limitaram
apenas aos Mundiais e às Olimpíadas. O pivô conquistou cinco
títulos sul-americanos e três medalhas em Jogos Pan-Americanos:
1963 (prata), 75 e 79 (bronze). Por onde passava, o ídolo
corintiano deixava sua marca e ficava difícil esquecê-lo.
Foram 17 anos a serviço da seleção, dando sempre muito trabalho
para os adversários. Fazer cestas não era sua maior preocupação,
mas na hora de estragar a festa dos adversários ávidos por
mais alguns pontinhos não havia ninguém como o Rei do Tapinha,
outro de seus inúmeros apelidos.
A experiência internacional de Bira não ficou apenas na
seleção. Na década de 70, ele tornou-se o primeiro brasileiro
a atuar no basquete italiano, transferindo-se para o time
veneziano. Lá, ele também brilhou, sendo o reboteiro da competição
por duas temporadas. No retorno ao Brasil, o Cavalo de Aço
também tinha melhorado significativamente seus índices
de aproveitamento nos lances-livres, que sempre foram seu
ponto fraco.
Em 1985, Bira anunciou sua aposentadoria. Retirou-se das
quadras, mas não do esporte. Cavalo de Aço teve uma passagem
rápida como treinador do time de São José dos Campos, comandou
as equipes juvenis do Tênis e foi assistente de Edvar Simões,
depois ainda tentou ser treinador de pivôs da seleção na preparação
para o Mundial da Argentina/90. Durante algum tempo também
estagiou nos Estados Unidos. Quando voltou para o Brasil foi
convidado pelo Rei Pelé, então ministro de Esportes, para
coordenar projetos esportivos para jovens. Bira aceitou o
desavio e mudou-se com a família para Brasília, dando início
a uma nova etapa em sua vida, agora como administrador do
esporte.
O menino que começou a jogar basquete no antigo Clube Floresta,
hoje Espéria, tornou-se o homem que viabilizava o sonho de
outros tantos garotos que, como ele, sonham em um dia vestir
a camisa da seleção brasileira.
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