| Foto: Acervo/Gazeta Press |
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Amarildo, o homem que substituiu
Pelé
Por Bruno Ceccon, especial
para a GE Net
O dia amanheceu ensolarado em Vinã del Mar no dia
seis de julho de 1962. O povo chileno andava entusiasmado
pelas ruas, ansioso para testemunhar o confronto entre Brasil
e Espanha no estádio Sausalito. Lesionado, o rei Pelé
estava fora da Copa e a desconfiança passou a rondar
a concentração da seleção brasileira,
que defendia o título mundial conquistado na Suécia.
No primeiro treinamento após o empate contra a Tchecoslováquia,
o técnico Aimoré Moreira não teve dúvidas
e entregou o colete de titular para o garoto Amarildo, de
apenas 21 anos.
Independentemente do resultado do confronto com a Fúria,
a vida do garoto de Campos mudaria completamente. Uma derrota
poderia comprometer a carreira do promissor ponta esquerda
do Botafogo, que seria obrigado a conviver com o trauma para
o resto da vida. A simplicidade do pedido do treinador canarinho
antes do jogo com a Espanha contrastava com a complexidade
da missão do jogador: "Vai ali do lado do Zagallo,
no lugar do Pelé". Esforçado, Amarildo
Tavares Silveira cumpriu à risca a instrução
de Aimoré e entrou na história justamente por
conseguir preencher o lugar do insubstituível camisa
10.
Amarildo sabia que só ficar do lado do Zagallo não
adiantaria e mostrou o suficiente para justificar seu apelido
de Possesso. Jogando com ferocidade em busca do gol, o ponta
marcou o primeiro chutando com violência após
boa jogada do Velho Lobo. Ele ainda fechou a contagem com
uma cabeçada certeira num cruzamento preciso de Garrincha.
O jogador fala com carinho desta partida. "Os grandes
momentos da minha vida foram conseguidos com a camisa da seleção
brasileira. Não poderei nunca mais esquecer os dois
gols contra a Espanha no Mundial de 1962 que nos classificaram
para as quartas-de-final".
A performance na decisão contra a Tchecoslováquia
coroou a trajetória do Possesso na Copa do Mundo. "Considero
o gol marcado na final como o mais importante da minha carreira.
Eles estavam ganhando o jogo e aquele empate foi muito bom",
lembrou o bi-campeão do mundo. Amarildo fala com gratidão
da seleção canarinho. "Serei sempre, com
muito orgulho, brasileiro", declarou. O desempenho do
ponta esquerda no Chile chamou a atenção dos
principais clubes da Europa e o jogador deixou General Severiano
para defender as cores do poderoso Milan.
Amarildo atuou durante nove temporadas na Itália, onde
conseguiu sua independência financeira, e conquistou
o scudetto de 1969 pela Fiorentina. Antes de retornar ao Brasil,
ele ainda vestiu a camisa da Roma. A passagem do Possesso
pelo Vasco da Gama marcou o início da fase descendente
de sua carreira. Ele operou o joelho esquerdo e teve uma passagem
discreta em São Januário. A volta precipitada
aos gramados provocou complicações, que levaram
o ponta a encerrar a carreira em 1974. Desiludido com o futebol
brasileiro, ele resolveu retornar à Europa aos 34 anos.
"Não preciso mais do futebol para viver e só
estou interessado em continuar nele, porque sempre gostei
muito da minha profissão. Tinha a intenção
de ficar no Brasil definitivamente, mas vou realmente voltar
para a Itália. Fui para lá muito cedo, era ainda
muito novo e fiz grandes amizades que, confesso, não
consigo esquecer até hoje", assumiu o atleta na
época. Ele chegou a atuar como treinador após
o final da carreira dentro das quatro linhas.
Amarildo guarda boas recordações de seus quase
20 anos como jogador de futebol. "Sempre fui um profissional
competente e nunca faltei a um treinamento em toda a minha
vida em clube algum. Por isso consegui sempre ser respeitado
e acabei aproveitando bem o que o futebol me rendeu. O futebol
me deu alegrias e, sinceramente, não tenho o que reclamar
dele", reconheceu Amarildo. Atualmente a família
do ex-jogador vive em Florença, na Itália. Ele
teve duas filhas, uma brasileira e uma italiana, assim como
sua mulher Fiamma. O Possesso também teve um filho
homem e já tem um neto.
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