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Superstição
e Fé
| Foto: Acervo/ Gazeta Press |
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Por Matheus Pichonellii, especial
para a GE Net
No princípio, eles se negam a reconhecer a superstição.
Dizem que as manias, tiques nervosos, medalhões e sinais
da cruz executados antes das partidas nada mais são
que hábitos comuns, não uma crença indispensável
de que o acessório há de tornar-se um elemento
que decida o futuro de uma partida, um lance ou jogada.
Mesmo tendo a plena convicção de que não
possuem convicção alguma de que, ao entrar com
o pé direito no gramado o jogo estará ganho,
ou que os três sinais da cruz desenhados sobre testa
e peito nada têm a ver com o destino de uma competição,
eles jamais entram em campo sem antes dialogarem por alguns
minutos com alguma entidade divina, metafísica, ou
o diabo que for.
Até que, em determinada altura, surgem os Atletas
de Cristo como que por geração espontânea.
Ao leitor a nomenclatura não deve ser estranha, basta
puxar à memória algum relato dos homens que
em certa feita deixaram o gramado jogando às mãos
de Cristo o mérito pela conquista, gol ou vitória.
Esses sim, autoproclamam-se membros do povo eleito e atribuem
os feitos da atuação esportiva à oração.
Este mesmo leitor, em cuja mente logo surgem nomes como os
de Marcelinho Carioca, Muller, César Sampaio e Evair,
encontrará algumas dificuldades em relembrar algum
representante dessa facção antes de escutar
as primeiras releituras da Palavra de um certo Baltazar Maria
de Morais Junior.
Um dos precursores nessa tarefa de intercalar passes, chutes
e gols com elucidações do Salmo 116, o ex-atacante
de Grêmio, Palmeiras, Flamengo, Celta de Vigo e seleção
brasileira somou ao longo de sua carreira algumas anedotas
de tal forma estranhas que impedem com que o torcedor lembre-se
dele como jogador comum. Tanto é que, dentre todas
as conquistas que marcaram a passagem do atleta pelo futebol
gaúcho, por exemplo, a história sobre o dia
em que esquecera a Bíblia em casa momentos antes de
embarcar rumo ao Rio de Janeiro, onde o Grêmio enfrentaria
o Flamengo, seja talvez a ilustração mais perfeita
do que foi Baltazar em campo.
Conta a lenda que, em certa feita, o atacante tricolor acabava
de entrar no avião e, ao encostar a cabeça na
poltrona, procurou em vão a Bíblia em sua bolsa.
Um calafrio percorreu então a noção de
situação do jogador que, imediatamente, comunicou
ao chefe da delegação que não voaria.
Pálido, Baltazar deixou todos os jogadores do elenco
gremista preocupados ao pedir insistentemente para descer
naquele exato instante. Nada lhe servia de alento: sem a Bíblia
na bagagem, não haveria viagem, não haveria
vôo, não haveria gols.
"Tenho que buscar o Livro de Deus", alegou o atacante
ao chefe da delegação. "Nem que seja para
pegar o vôo seguinte, pagar a passagem do meu próprio
bolso, e me encontrar com vocês lá no Rio".
Ao ter o pedido negado, por pouco não desmaiou. Comovido
com aquele desespero, o chefe da delegação ofereceu
a própria Bíblia. Baltazar não aceitou:
queria a sua, de tantos anos.
Milagre - Anos mais tarde, o ex-atacante do Grêmio
guardaria aquela experiência como a pior viagem de sua
vida. Durante todo o trajeto, não falou com ninguém:
fechou o rosto e chorou discretamente.
Aqueles que o acompanhavam na viagem poderiam jurar que
ele estava dopado. Quando o almoço foi servido pela
aeromoça, ele continuava inerte, feito um robô,
esperando que uma força divina o eliminasse daquele
desespero. Não sentia o gosto do que ingeria, O pensamento
andava longe. Algo que não foi alterado nem mesmo quando
os amigos lhe compraram, assim que desembarcaram no aeroporto
do Rio, uma Bíblia na primeira livraria que avistaram.
O esforço dos amigos fez com que Baltazar aceitasse
a oferenda como que por respeito. Mas sabia que, no fundo,
sem a Bíblia original, nada poderia fazer contra os
adversários dentro de campo. Mal chegara ao hotel,
telefonou ligeiro para a casa de sua noiva, a fim de relatar
seu desespero. "Estou perdido", sentenciou.
Em campo, não deu outra. Mal pegava na bola, e os adversários
flamenguistas caçavam-no como uma presa fácil
e sem defesa. Às vezes sem querer, numa entrada pouco
pretensiosa, acertavam-lhe o tornozelo, o joelho, deixavam-lhe
marcas - algo que só fez aumentar o terror das horas.
Era a pior partida de sua vida.
Quando voltou a campo para o segundo tempo, porém,
sentiu que algo havia mudado. Transbordado por uma noção
então não apreciada desde que a bola começara
a rolar, Baltazar ganhou um ar de auto-confiança que
pouco mais tarde tornou-se peça fundamental ao marcar
com um arremate fatal o gol da vitória do Grêmio
por 1 a 0. "Senti que Deus havia perdoado o meu lamentável
esquecimento", confessou anos mais tarde.
A resposta, porém, ia além da misericórdia
divina. Ao voltar aos vestiários, sentindo que todo
o peso do mundo havia sido retirado de suas costas, Baltazar
tomou banho, trocou de roupa e, ao abrir a bolsa, sua alma
transbordou em alegria: por milagre, a Bíblia ali estava.
Como se, durante o intervalo, ela tivesse voado de Porto Alegre
à capital fluminense para iluminar os passos de Baltazar
em campo.
A explicação para o feito, porém, não
constava nas ações da metafísica, mas
era sim fruto da atuação de sua esposa que,
ao desligar o telefone com o jogador, correu ao apartamento
dele com a cópia da chave, pegou a Bíblia, tomou
o primeiro avião, desceu no Rio, chegou de táxi
ao Maracanã já com o jogo em andamento, foi
ao vestiário, pediu a devida permissão ao roupeiro,
colocou o Livro de Deus na bolsa do noivo e, sem dizer nada,
correu a testemunhar a colheita do esforço a poucos
metros, já dentro de campo, onde Baltazar, para alegria
de toda a torcida gremista, salvou sua equipe. "Não
fosse isso, não sei o que teria acontecido naquele
jogo".
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