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Batigol eternamente
Por André Rosa
"As vezes leio as estatísticas e digo: eu fiz
isso?". Assim, impressionado com o seu histórico,
um dos nomes mais populares do futebol argentino se despediu
da carreira no dia 13 de março de 2005. Durante anos,
havia uma unanimidade na seleção daquele país:
um jogador que atende pelo apelido de "Batigol".
Rápido e habilidoso, Batistuta foi considerado um dos melhores
atacantes do mundo na década de 90. Mesmo atravessando
uma fase ruim durante a temporada 2001/2002 e após a decepcionante
campanha no Mundial no Japão, sua qualidade técnica dentro
da área fez com que o craque atingisse uma marca histórica:
em janeiro de 2002, o argentino alcançou Roberto Baggio, até
então o maior artilheiro em atividade da história do Campeonato
Italiano.
Mas as constantes lesões no joelho - sempre ela -
transformaram sua velocidade em problema. No início
da temporada 2005, no futebol do Catar, disputou três
partidas oficiais. Sem gols. Pior: dois pênaltis perdidos.
Era o fim do entusiasmo, era a hora de parar. "Anuncio
minha aposentadoria do futebol profissional e agradeço
a todos os que ajudaram para que minha carreira fosse cheia
de êxitos".
Gabriel Omar Batistuta nasceu em 1º de fevereiro de 1969,
em Reconquista. Gostava de jogar basquete e nunca pensou em
ser jogador de futebol. "Meu pai nunca gostou de futebol,
e não esperava ser famoso. Queria estudar medicina.
Por isso nunca me senti seguro como jogador. Mas me esforcei
para conseguir aquilo que nunca imaginei".
Sua persistência, aliada ao imponderável destino,
corrigiu seu rumo de uma forma inusitada: Batistuta acabou
sendo descoberto, casualmente, por um "olheiro" do Newell´s
Old Boys, clube onde começou a carreira profissional em 1988,
aos 19 anos. Época em que o técnico Marcelo
Bielsa observou: "você está gordo. Faça
uma dieta". Começou atuando durante meia hora
numa partida do Campeonato Argentino. Aos poucos, perdeu peso
e ganhou agilidade, para alegria de "El Loco". Fez
seu "batismo de fogo" nas semifinais da Libertadores, diante
do San Lorenzo, numa atuação que encheu os olhos da imprensa
local.
No ano seguinte, chegou ao River Plate, onde disputou 17 partidas
e marcou quatro gols. Poderia ter atuado mais vezes, não fosse
a intransigência de Daniel Passarella, treinador que assumiu
o clube ainda em 1989. Batistuta sagrou-se campeão argentino
pelo River naquela temporada mesmo ficando meses apenas esquentando
o banco. A situação do atacante só mudou quando se transferiu
para o arqui-rival Boca Juniors, em junho de 1990.
Nos primeiros meses em La Bombonera, teve que sofrer com
a pressão da torcida, comum em qualquer clube que recebe um
jogador cuja camisa anterior era a do inimigo. A pressão terminou
tão logo Batistuta começou a fazer o que sabe: foram 24 gols
com a camisa do Boca, um desempenho gratificante que culminou
com uma promessa do atacante, anos depois: "quero encerrar
a minha carreira dando um título ao Boca". Além de reconhecimento,
a passagem pela equipe lhe trouxe ainda uma oportunidade desafiadora:
jogar na Fiorentina.
Na Europa - Batigol passou toda sua carreira lutando
para melhorar cada vez mais. Quando chegou à Itália,
teve que se preocupar ainda com a adaptação. Dois problemas
que iam sumindo à medida em que os gols apareciam: aos poucos,
Batistuta começava a fazer a diferença na equipe. Em 1992,
o atacante já era aclamado pela torcida como "Batigol", mas
apesar do esforço, não conseguiu tirar a equipe da zona de
rebaixamento.
A idéia de disputar a segunda divisão italiana não desanimou
o craque, que não só permaneceu em Florença, mas também comandou
o time no retorno à Série A - onde, no ano seguinte, chegou
a balançar as redes por onze semanas consecutivas e totalizar
um recorde de 26 gols.
Mas os "tifosi" ainda teriam mais motivos para vibrar com
o artilheiro: em 96, a equipe terminou o Italiano em terceiro
lugar, além de ter conquistado a Copa da Itália, o primeiro
título da equipe em 21 anos. Neste mesmo ano, Batistuta chegou
a 100 partidas na Série A. Em comemoração, o jogador foi homenageado
com uma estátua de bronze, em tamanho natural, na entrada
do clube.
Durante os nove anos que esteve no clube, Batistuta não conseguiu
o scudetto, o Campeonato Italiano. Chegou bem perto
na temporada 98/99: a Fiorentina liderou boa parte do campeonato,
mas em fevereiro, uma grave contusão tirou Batistuta dos gramados
por mais de um mês, abrindo caminho para o Milan conquistar
o título.
Em 2000, Batistuta deixou a Fiorentina para se transformar
na grande esperança do Roma: decidida a sair de um jejum de
quase 20 anos, a equipe desembolsou 36 milhões de dólares
- uma das mais valiosas transferências da história - para
contar com os gols do argentino. Parecia um absurdo, afinal,
era muito dinheiro por um jogador de 31 anos. O resultado
do alto investimento veio meses depois, com o título da temporada
2000/2001. Nesta campanha vitoriosa, Batistuta foi o artilheiro
do time, com 20 gols.
No entanto, logo vieram as dores no joelho, e com elas, o
jejum de gols. Sem mobilidade, Batistuta não conseguia
render como nos tempos de Fiorentina, embora a imprensa e
os torcedores o cobrassem como tal. Relegado à reserva,
não teve dúvidas ao receber proposta tentadora
de uma Inter sedenta por títulos. Deixou de lado as
críticas de Roma e chegou a Milão com pompa
e prometendo gols, que, mais uma vez, não lhe acompanharam.
Jogou pouco, balançou as redes menos ainda e teve o
contrato rescindido. Restou-lhe um destino antes inimaginável:
o futebol do Catar.
Estrela no Golfo No começo de 2003,
os sheiks do Catar bateram à porta do argentino oferecendo-lhe
US$ 8 milhões para jogar duas temporadas. Batigol,
que pensara até em abandonar o futebol, não
resistiu e, aos 34 anos, arrumou as malas para o Golgo Pérsico.
Batistuta defendu o Al-Arabi, time mais popular do país,
ao lado do meia Steffan Effeberg, ex-Bayern de Munique e seleção
alemã. Ambos foram treinados por Cabralzinho, vice-campeão
brasileiro pelo Santos em 1995. Ao final da primeira temporada
na Árabia, foram 25 gols marcados - artilheiro absoluto.
Desempenho cada vez mais fraco, até culminar com a
aposentadoria.
Seleção - Pouco antes de se transferir para a Itália,
em 1991, Batistuta fez sua estréia na seleção argentina, num
amistoso contra o Brasil do técnico Falcão, em Curitiba: 1
a 1, gols de Neto e Caniggia. Não demorou para que fizesse
sucesso com a camisa da seleção: no mesmo ano, a Argentina
conquistava a Copa América após 32 anos. Batistuta foi o artilheiro
da competição, com seis gols. Também esteve na conquista do
bicampeonato do torneio, em 1993.
No ano seguinte, Batistuta chegou aos Estados Unidos com o
objetivo de elevar a abalada auto-estima. Seu time estava
na segundona italiana e, meses antes, sua seleção havia apanhado
da Colômbia em Buenos Aires: 5 a 0. Foi de Batistuta o gol
que classificou o time para a Copa, no jogo de volta da repescagem
contra a Austrália. Tudo isso, aliado ao retorno de Maradona
e Caniggia, fez com que a equipe ganhasse força e motivação
em quantidade suficiente para levar a Argentina ao seu terceiro
mundial. E isso ficou bastante evidente na partida de estréia:
4 a 0 sobre a Grécia, três tentos do "Batigol" e um de "Dieguito".
Na sequência, mais uma vitória: 2 a 0 em cima da Nigéria.
Mas o doping de Maradona transformou a alegre atmosfera argentina.
Sem o capitão em campo, o time de Alfio Basile perdeu para
a Bulgária e, nas oitavas-de-final, foi eliminado pela Romênia.
Tristeza para a Argentina e para Batistuta, que nos anos seguintes,
ainda teria que conviver com Passarella, o mesmo treinador
que o deixou encostado nos tempos de River Plate.
Realmente, o rigoroso técnico argentino não considerava Batistuta
parte da equipe, sem saber justificar sua preferência por
Crespo. Dizia o mesmo a respeito de Fernando Redondo, mas
nesse caso, o motivo eram os cabelos compridos que o craque
se negava a cortar. Apesar de ter ficado quase um ano longe
do time argentino, foi justamente neste período que Batistuta
ultrapassou Maradona e se tornou o maior artilheiro de todos
os tempos na história da seleção argentina.
Na briga com o técnico, o atacante parece ter se dado melhor:
marcou cinco gols na Copa da França, em 98 e foi o melhor
jogador da equipe no Mundial. Mas o time não convenceu e acabou
eliminado pela Holanda, nas quartas-de-final.
Copa frustrante - Foi na temporada de 2001/2002 que
Batistuta se tornou o maior artilheiro em atividade pelo Campeonato
Italiano, mas apesar do feito, o argentino passou por muitos
problemas com contusões. Na época com 32 anos, "Batigol"
avisou: não pretendia jogar mais pela Argentina após a disputa
da Copa de 2002, justamente por considerar sacrificante conciliar
clube e seleção.
A situação do atacante no começo daquele ano foi bem parecida
com a de outra "unanimidade", esta brasileira: Romário.
Faltando três meses para o Mundial, Batistuta admitiu que
vivia uma fase ruim devido suas condições físicas. Mesmo durante
as Eliminatórias, o técnico Marcelo Bielsa relutou em convocá-lo.
Em meio a intrigas não confirmadas entre o atacante e outras
estrelas do time, como Verón e Crespo, Batistuta conquistou
a chance de se tornar o maior artilheiro em Copas do Mundo
ao lado de um time considerado favorito absoluto.
O desfecho, todos sabem. "Batigol" marcou um dos
dois gols argentinos na competição, que não foram suficientes
para a Argentina passar da primeira fase. O eterno ídolo não
se esquivou da culpa pelo fracasso. "Não acredito em sorte,
somente com a sorte não se ganha nada. A verdade é que não
conseguimos evoluir, fazer gols, faltou o que todos viram".
Independente da polêmica atitude de Bielsa em não escalar
Batistuta ao lado de Crespo, o matador não aproveitou a sua
última chance e confirmou: não vestirá mais a camisa da seleção.
"Chegou a hora dos jovens talentos, como o D'Alessandro, o
Saviola e o Riquelme, por exemplo". Fica com eles a missão
de atingir a incrível marca do "Batigol"
na seleção: 56 gols em 78 jogos. Sempre como
titular.
Nova carreira - Como jogador, Batistuta certamente
receberá merecidas homenagens - especialmente na Fiorentina,
onde é venerado. Depois, uma nova ambição:
tornar-se treinador ou assumir alguma função
diretiva. Por tudo que fez, as portas da Fiorentina ou mesmo
da seleção argentina estarão abertas
para "Batigol"..
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