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. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . CANHOTEIRO
Foto: Gazeta Press
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O Garrincha do Morumbi

Por Denis Eduardo Serio, especial para a GE Net

O garoto era reprimido pelo pai quando queria bater uma bolinha na rua com os amigos. Seu Cecílio o amarrava no pé de uma mesa para não poder brincar de jogar futebol, desejava que o filho fosse médico. Menino levado, mesmo atado improvisava uma bola de papel e se divertia do jeito que desse. Esse era o seu destino.

José Ribamar de Oliveira saiu de Coroatás, no interior do Maranhão, onde nasceu dia 24 de setembro de 1932, para ser um dos maiores ídolos da história do São Paulo. Ponta-esquerda de habilidade única, o atleta se destacou como grande driblador. Muitos o consideram o melhor da posição que já existiu. Entortava os adversários com uma facilidade inacreditável. Transformava os marcadores em verdadeiros admiradores de seu futebol alegre e descontraído.

Conhecido como Canhoteiro, arrebatou legiões de admiradores em todo o país, sendo um dos primeiros atletas a possuir um fã-clube no Brasil. Perfeito nos cruzamentos, dava gols aos seus companheiros com freqüência maior do que balançava as redes, se sentia bem fazendo assistências depois de três ou quatro dribles endiabrados. Muitos o comparavam a Garrincha, outros diziam que, se não fosse um boêmio e levasse a carreira a sério, seria melhor que Pelé. Exageros a parte, Canhoteiro foi um gênio. Zizinho, o mestre Ziza, era um dos maiores admiradores do jogador. Não cansava de exaltar as qualidades do ponta canhoto. Adepto do futebol brincalhão, o jogador era um espetáculo sem igual nas partidas são-paulinas. Era a alegria da torcida. Enlouquecia a multidão das arquibancada literalmente brincando com a bola.

A lenda são-paulina começou sua carreira futebolística no Paysandu, após ser descoberto por olheiros do Norte. Foi convidado a fazer um teste no Tricolor. Neste dia, o técnico da equipe de São Paulo pediu ao zagueiro Turcão, conhecido por ser um jogador muito ríspido, para poupar aquele pequeno garoto de canelas finas. Ao fim do jogo, o beque, atônito com o talento do jovem futebolista, disse: "Não é que eu tenha atendido o técnico, é que eu não consegui acertá-lo". Após isso, Turcão e todo o elenco são-paulino foi unânime em indicar Canhoteiro aos dirigentes do clube, que, cinco dias depois, compraram o seu passe.

Ele estreou na equipe dia 18 de abril de 1954 em um amistoso contra a Limoense. O placar não foi o dos sonhos de atleta que faz seu primeiro jogo em um time: 2 a 1 para a adversária. Porém, os deuses da bola sabiam que ali nascia um dos maiores jogadores do time do Morumbi. Canhoteiro teve vários momentos de maestria absoluta no Tricolor. Certa vez, Zizinho, cansado, pediu que ele prendesse a bola o máximo possível e foi isso que ele fez, dando um show de dribles nos infelizes zagueiros adversários. Entre gols belíssimos em que dava dois chapéus em zagueiros e um em um goleiro e passes precisos, um drible virou característico do jogador. No chamado drible do solavanco, o craque girava a cintura de um lado para o outro e com o pé esquerdo, conduzi a bola, iludindo o marcador.

Conquistou pelo São Paulo o Torneio Jarrito, no México, em 1955 e a Pequena Taça do Mundo, na Venezuela, em 1957, mas se consagrou mesmo no Campeonato Paulista de 1957, quando foi aclamado como um dos responsáveis pela conquista do Estadual. Suas exibições marcaram época no São Paulo. Ele participou da lendária inauguração do Morumbi em 1960. Ao todo foram 103 gols com a camisa do São Paulo em 415 partidas. Em 1960, após sofrer uma séria contusão em uma entrada de Homero, do Corinthians, Canhoteiro realizou duas cirurgias mal sucedidas, o que atrapalhou sua carreira. Se despediu do Tricolor com uma derrota para o Corinthians por 3 a 0 em 4 de agosto de 1963. Por último, jogou no México, onde atuou por Deportivo Nacional e Toluca. Voltando ao Brasil, marcou presença no Nacional e no Saad, time em que parou de jogar profissionalmente, aos 33 anos.

Em sua consagrada carreira, sentiu-se falta de uma maior participação do craque na seleção brasileira. Ele esteve três vezes na equipe. Participou do Sul-Americano Extra de Lima, da Taça Osvaldo Cruz e da excursão preparatória para a Copa de 58. Dizem que sua que ele vestiu a camisa amarelinha poucas vezes devido a um medo desenfreado de andar de avião e à paixão pela boemia, o que faz com que o comparem mais ainda com o extraordinário ponta-direita do Botafogo. Certa vez, na preparação para a Copa de 58, ele foi pego em uma boate. Feola, técnico da seleção, o cortou na hora. Mas há também quem ache que o fato de jogar em São Paulo e não no Rio foi um fator determinante para a sua escassa passagem pela seleção.

De uma maneira ou de outra, Canhoteiro com certeza fez muita falta no selecionado nacional, não pela falta de jogadores extremamente habilidosos naquela época, mas pela maestria e malandragem que ele poderia adicionar na sensacional equipe da Copa de 58. Zizinho era um dos principais críticos do pouco reconhecimento que foi dado ao atleta em relação ao seu talento. Na seleção canarinha o jogador disputou 16 partidas, sendo 15 delas oficiais, marcando apenas um gol.

Para ilustrar melhor a genialidade deste exímio atacante, é só analisar o tratamento que o ex-técnico do São Paulo, o húngaro Bella Guttman, dava a ele. Apenas Canhoteiro e Zizinho não participavam das preleções da equipe. Dizia o treinador: "Eles dois já sabem tudo, para que chamá-los para as preleções?". O craque morreu dia 16 de agosto de 74, vítima de problemas cardíacos, aos 42 anos.

Publicação: 13/06/2003
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