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Publicação: 21/07/2006
. . . . . . . . . . . . . . .  . . . . . . . . . . . . . DOMINGOS DA GUIA
Foto: Acervo/Gazeta Press

Domingos da Guia: o primeiro zagueiro clássico brasileiro

Por Marcelo Belpiede

Domingos da Guia deve ser colocado ao lado dos zagueiros mais habilidosos do futebol brasileiro. Evidências não faltam para constatar que essa afirmação é verdadeira. Campeão nos três principais centros do futebol da América do Sul (Argentina, Uruguai e Brasil), o zagueiro carioca deu origem ao termo “domingada”, que ao longo do tempo ganhou sentido pejorativo, mas também ilustra a genialidade do jogador.

Numa época em que os zagueiros se notabilizavam pela truculência e falta de técnica, Domingos deixava os torcedores com frio na espinhas ao preferir driblar adversários dentro da grande área do que dar chutões para frente após um desarme. Uma característica inédita para a década de 30 e que marcou o jogador como o primeiro zagueiro clássico do futebol brasileiro.

O pioneirismo de Domingos da Guia fez escola apesar da desconfiança inicial. Muitos beques da época tentaram imitá-lo, mas poucos tinham a elegância e a técnica natural do mestre. Logo, quando um zagueiro enfeitava em sua grande área sem a mesma eficiência do precursor, ele havia feito uma “domingada”, termo até hoje utilizado em lambanças de beques brasileiros.

Sem fronteiras: Domingos da Guia nasceu no Rio de Janeiro no dia 19 de novembro de 1912. Dezessete anos mais tarde, foi descoberto em peladas na zona rural carioca e passou a defender o Bangu. Em 1930, pela primeira vez foi convocado pela seleção brasileira e no ano seguinte já fazia parte do Vasco.

Já conhecido por suas características opostas a de um zagueiro convencional, o beque chamou a atenção dos uruguaios e em 1933 teve uma passagem vitoriosa pelo Nacional de Montevidéu. Campeão nacional, Domingos recebeu o apelido de “El Divino Mestre” e recebeu até uma proposta se naturalizar uruguaio e defender a Celeste na Copa de 1934.

Apesar do sucesso imediato, Domingos retornou ao Brasil no ano seguinte e foi campeão carioca pelo Vasco. Ídolo da torcida cruz-maltina, o Divino Mestre então recebeu um convite para jogar no Boca Juniors da Argentina. Aberto a desafios, o zagueiro mais uma vez atravessou a fronteira e garantiu o titulo argentino de 1935.

Assim como em Montevidéu, sua passagem por Buenos Aires foi curta e no ano seguinte ele estava de volta ao Rio de Janeiro, mas desta vez vestindo uniforme rubro-negro. Na melhor fase de sua carreira, Domingos defendeu o Flamengo até 1943, acumulando mais três títulos cariocas (1939, 1942 e 1943).

Consagrado como o melhor zagueiro do Brasil, o Mestre então conheceu o futebol paulista e jogou pelo Corinthians entre 1944 e 1947. Nos dois anos seguintes, já em fim de carreira, voltou às origens e aumentou o brilho do Bangu antes de enfim pendurar as chuteiras.

Domingos também é protagonista de um dos casos de pedigree mais bem-sucedidos do futebol brasileiro. Pai de Ademir da Guia, o zagueiro viu o filho jogar de meia e tornar-se o principal jogador da história do Palmeiras, herdando inclusive o apelido de “Divino”.

Domingos da Guia faleceu no dia 18 de maio de 2000, aos 87 anos, vítima de derrame cerebral. Como legado, deixou a certeza de que um zagueiro pode ser sinônimo de estilo clássico, categoria, tranqüilidade e elegância, como bem provaram Djalma Dias, Luís Pereira, Franz Beckenbauer, Figueroa, Maldini, entre muitos outros.

Mestre em dia de domingada: A rotineira classe de Domingos da Guia deu lugar a uma ‘domingada’ logo no jogo mais importante da carreira do Mestre. Em plena semifinal da Copa do Mundo de 1938, o zagueiro revidou um chute do atacante Piola e cometeu o pênalti que garantiu a vitória da Itália em cima do Brasil por 2 a 1.

“Não tive paciência. Levei um pontapé do italiano e revidei. O árbitro marcou pênalti. Aí perdemos a Copa”, resume. A derrota tirou o Brasil da decisão contra a Hungria na melhor campanha do Brasil em Mundiais até então: terceiro colocado após a vitória diante da Suécia. Domingos nunca se conformou com o lance e lamentava a falta de critério do árbitro, que em sua visão teria de ter marcado falta de Piola. Ele conta que a Itália foi favorecida pela arbitragem durante toda a competição, principalmente porque o líder fascista Benito Mussolini estava presente em todas as partidas e usou a vitória italiana como propaganda do regime totalitário.


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