| Foto: Acervo/Gazeta Press |
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Domingos da Guia: o primeiro
zagueiro clássico brasileiro
Por Marcelo Belpiede
Domingos da Guia deve ser colocado ao lado dos zagueiros
mais habilidosos do futebol brasileiro. Evidências não faltam
para constatar que essa afirmação é verdadeira. Campeão nos
três principais centros do futebol da América do Sul (Argentina,
Uruguai e Brasil), o zagueiro carioca deu origem ao termo
“domingada”, que ao longo do tempo ganhou sentido pejorativo,
mas também ilustra a genialidade do jogador.
Numa época em que os zagueiros se notabilizavam pela truculência
e falta de técnica, Domingos deixava os torcedores com frio
na espinhas ao preferir driblar adversários dentro da grande
área do que dar chutões para frente após um desarme. Uma característica
inédita para a década de 30 e que marcou o jogador como o
primeiro zagueiro clássico do futebol brasileiro.
O pioneirismo de Domingos da Guia fez escola apesar da desconfiança
inicial. Muitos beques da época tentaram imitá-lo, mas poucos
tinham a elegância e a técnica natural do mestre. Logo, quando
um zagueiro enfeitava em sua grande área sem a mesma eficiência
do precursor, ele havia feito uma “domingada”, termo até hoje
utilizado em lambanças de beques brasileiros.
Sem fronteiras: Domingos da Guia nasceu no Rio de
Janeiro no dia 19 de novembro de 1912. Dezessete anos mais
tarde, foi descoberto em peladas na zona rural carioca e passou
a defender o Bangu. Em 1930, pela primeira vez foi convocado
pela seleção brasileira e no ano seguinte já fazia parte do
Vasco.
Já conhecido por suas características opostas a de um zagueiro
convencional, o beque chamou a atenção dos uruguaios e em
1933 teve uma passagem vitoriosa pelo Nacional de Montevidéu.
Campeão nacional, Domingos recebeu o apelido de “El Divino
Mestre” e recebeu até uma proposta se naturalizar uruguaio
e defender a Celeste na Copa de 1934.
Apesar do sucesso imediato, Domingos retornou ao Brasil
no ano seguinte e foi campeão carioca pelo Vasco. Ídolo da
torcida cruz-maltina, o Divino Mestre então recebeu um convite
para jogar no Boca Juniors da Argentina. Aberto a desafios,
o zagueiro mais uma vez atravessou a fronteira e garantiu
o titulo argentino de 1935.
Assim como em Montevidéu, sua passagem por Buenos Aires
foi curta e no ano seguinte ele estava de volta ao Rio de
Janeiro, mas desta vez vestindo uniforme rubro-negro. Na melhor
fase de sua carreira, Domingos defendeu o Flamengo até 1943,
acumulando mais três títulos cariocas (1939, 1942 e 1943).
Consagrado como o melhor zagueiro do Brasil, o Mestre então
conheceu o futebol paulista e jogou pelo Corinthians entre
1944 e 1947. Nos dois anos seguintes, já em fim de carreira,
voltou às origens e aumentou o brilho do Bangu antes de enfim
pendurar as chuteiras.
Domingos também é protagonista de um dos casos de pedigree
mais bem-sucedidos do futebol brasileiro. Pai de Ademir da
Guia, o zagueiro viu o filho jogar de meia e tornar-se o principal
jogador da história do Palmeiras, herdando inclusive o apelido
de “Divino”.
Domingos da Guia faleceu no dia 18 de maio de 2000, aos
87 anos, vítima de derrame cerebral. Como legado, deixou a
certeza de que um zagueiro pode ser sinônimo de estilo clássico,
categoria, tranqüilidade e elegância, como bem provaram Djalma
Dias, Luís Pereira, Franz Beckenbauer, Figueroa, Maldini,
entre muitos outros.
Mestre em dia de domingada: A rotineira classe de
Domingos da Guia deu lugar a uma ‘domingada’ logo no jogo
mais importante da carreira do Mestre. Em plena semifinal
da Copa do Mundo de 1938, o zagueiro revidou um chute do atacante
Piola e cometeu o pênalti que garantiu a vitória da Itália
em cima do Brasil por 2 a 1.
“Não tive paciência. Levei um pontapé do italiano e revidei.
O árbitro marcou pênalti. Aí perdemos a Copa”, resume. A derrota
tirou o Brasil da decisão contra a Hungria na melhor campanha
do Brasil em Mundiais até então: terceiro colocado após a
vitória diante da Suécia. Domingos nunca se conformou com
o lance e lamentava a falta de critério do árbitro, que em
sua visão teria de ter marcado falta de Piola. Ele conta que
a Itália foi favorecida pela arbitragem durante toda a competição,
principalmente porque o líder fascista Benito Mussolini estava
presente em todas as partidas e usou a vitória italiana como
propaganda do regime totalitário. |