| Foto: Reuters |
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O lorde inglês
O primeiro treino foi uma pedreira. Fazia frio, nevava,
algo em torno de zero grau. Uma sensação térmica horrível
e ele sequer sabia pedir um par de luvas ao roupeiro para
se aquecer. Essa foi apenas uma dentre muitas dificuldades
que Edu encontrou na terra da Rainha. Um difícil começo, cheio
de empecilhos. Era o preço que ele iria pagar por se transferir
para um mercado tão exclusivo do futebol.
Logo no dia do anúncio de sua contratação Edu passou sufoco.
O Arsenal espalhou uma história de que tinha contratado um
jogador com passagem pela seleção brasileira, o que levou
a imprensa inglesa a anunciar o jogador errado. O tradicional
diário The Mirror chegou a publicar uma foto de outro
Edu, o atacante que despontava no São Paulo.
Como se já não bastasse a confusão, Edu enfrentou outro
problema no seu desembarque em Londres. Seu passaporte português,
tirado em Lisboa, não foi aceito pela imigração britânica
que exigia um emitido pela Embaixada em Brasília. O jogador
permaneceu quase dois meses no Brasil esperando a definição
do imbróglio. Nesse período passou por sua cabeça esquecer
o sonho europeu e permanecer atuando no Brasil, mas ele resolveu
ir só de pirraça, teimando contra a maré de azar. Afinal,
ele não tinha nada a perder.
Chegando em Londres, no seu primeiro coletivo, Edu não fugiu
do azar e se deu mal novamente. O que parecia ser um simples
rachão era, na verdade, algo mais complexo. O técnico francês
Arsene Wenger dividiu o campo em zonas, onde é permitido dar
de um a quatro toques com a bola. Cada vez que o brasileiro
pegava na bola o treinador apitava. Ao invés de durar uma
hora no máximo como nos demais dias, o treino daquele durou
duas.
Mantendo a persistência, Edu não se entregou e ficou. Ao
contrário de muitos atletas brazucas que partem ao Velho Continente,
agüentou um ano de reserva, dificuldades no idioma (o inglês
britânico é muito diferente do americano), na gastronomia
(é difícil desacostumar com arroz e feijão), com o dia-a-dia
e até com o trânsito, já que na terra da Rainha o volante
fica do lado direito e as mãos das ruas são invertidas. Sua
estréia foi em uma partida contra o Leicester City, fora de
casa, no dia 20 de janeiro de 2001, seis meses após sua chegada.
Na temporada 2001-02, mais adaptado, entrou em mais partidas,
mas o ápice foi em 2002-2003, quando Edu começou a fazer parte
do primeiro time dos Gunners, que acabou ganhando de forma
invicta o Campeonato Inglês. Mesmo com o pentacampeão Gilberto
Silva e o francês Vieira, Edu fez parte do rodízio promovido
por Arsene, que dificilmente deixa um jogador na equipe por
mais de cinco jogos. Edu atuou em 29 jogos. O segredo para
o sucesso? Aprender o idioma rapidamente, cumprir os horários
religiosamente e entender que não era a primeira opção de
escalação em um time com tamanhas estrelas como o Arsenal.
Valeu a pena tanto sacrifício? Os cerca de R$ 320 mil mensais
de salário, a convocação para a seleção brasileira, os elogios
da crítica européia e a dificuldade de renovação do contrato
provam que sim.
Pesadelo - Em 2005, Edu se transferiu para o Valencia.
Mas logo conheceu o pesadelo de muitos jogadores. Bem no futebol
europeu e presença constante nas convocações
do técnico Carlos Alberto Parreira, sofreu grave contusão
e deu adeus à primeira chance de disputar uma Copa
do Mundo. Apesar disso, segue demonstrando a tradicional tranqüilidade
e total confiança na seleção brasileira,
em quem aposta de olhos vendados para vencer o título
mundial, no próximo ano.
"Tenho que ter muita paciência para me recuperar",
diz o jogador, que trabalha diariamente no CT do São
Paulo, sob comando do fisioterapeuta Luis Rosan e supervisão
do departamento médico do Valencia. No final de agosto,
ele foi submetido a uma operação no joelho esquerdo,
cujos ligamentos foram rompidos em treinamento do clube espanhol.
Em média, a recuperação para esse tipo
de lesão leva seis meses.
O volante não nega estar chateado com o problema,
pois tem certeza de que estaria brigando por uma vaga entre
os 23 brasileiros que defenderão o reinado do futebol
brasileiro. Apesar disso, não se abala e demonstra
entusiasmo com a qualidade do grupo. "É uma seleção
especial. Temos muitos jogadores capazes de decidir as partidas,
o que faz toda a diferença".
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