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  Garrincha
  A chegada ao Botafogo
  O anjo indomável
  As mulheres
  O dono da taça
  Joelho em frangalhos
  A garrafa inseparável
  Raio-X
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . GARRINCHA

A taça do mundo é nossa

Gazeta Press
Gazeta Press

Se a conquista do bicampeonato mundial de 58 e 62 tivesse que ser resumido em um nome, esse certamente seria Garrincha. Nas apresentações que fez pela Europa com o Botafogo, ele virou um verdadeiro fenômeno do futebol mundial. Todos queriam assistir ao jogo daquele gênio que deixava todos os defensores no chão depois do drible e muitas vezes nem se importava em fazer o gol.

A certeza de que Garrincha era o melhor do mundo em sua posição era tanta que os jornalistas estrangeiros nem admitiam que Vicente Feola fosse deixá-lo no banco na Copa de 1958, na Suécia. Mas a seleção daquele ano era campeã em organização e, como tal, dispunha de um olheiro - Ernesto Santos - que assistia aos jogos de seus adversários e entregava todo o ouro para a comissão técnica (Feola, Hilton Gosling e Paulo Amaral) poder escalar o melhor time. Segundo as informações de Ernesto, a Áustria fechava o meio-de-campo com quatro homens e, por isso, seria suicídio entrar com três homens (Dino Sani, Didi e Zagalo) para fechar o avanço dos austríacos como pensara Feola. O técnico então pensou em instruir Garrincha, que ganhara a posição de titular durante aquela semana, a voltar para marcar pelo lado direito. Mas Paulo Amaral argumentou que o ponta não seguia ordens e, por isso, o esquema não daria certo. Só por causa disso, Garrincha perdeu a vaga para o flamenguista Joel. A tática deu certo: o Brasil venceu por 3 a 0.

Para o segundo jogo, convencido de que continuaria na reserva Garrincha pediu para voltar ao Brasil, mas não foi atendido. Novamente ele não jogou contra a Inglaterra devido às instruções de Ernesto. Segundo ele, na primeira vez em que Garrincha passasse pelo lateral-esquerdo Slater, esse o quebraria. Joel foi escalado com a advertência de que evitasse Slater. Mesmo jogando melhor que contra a Áustria, o Brasil apenas empatou em 0 a 0 com a Inglaterra. O desânimo se abateu na concentração. Parecia que somente os dribles desconcertantes de Garrincha poderiam derreter o gelo do futebol científico dos russos. Todos pediam sua entrada. Mas só ficaram sabendo da nova escalação da seleção momentos antes do jogo: Vavá, Pelé e Garrincha (saíram Mazzola, Dida e Joel). Começava aqui o melhor tabu brasileiro: com Pelé e Garrincha em campo, a seleção nunca perderia um jogo. Na partida contra a Rússia, Garrincha comandou os três maiores minutos da história do futebol. Aos 38 segundos do primeiro tempo ele já havia driblado Kuznetzov cinco vezes, chutado a bola sem ângulo e perdido um gol. O estádio já delirava. Aos três minutos, depois de vários lances emocionantes, Vavá derruba a muralha russa com o primeiro gol do jogo. O vexame só foi evitado graças ao goleiro Iashin. O Brasil atacou 36 vezes, dezoito com perigo. Mas o jogo terminou em apenas 2 a 0. Nas quartas-de-final, o Brasil enfrentaria o País de Gales: o time com os onze na defesa. Pelé fez um dos gols mais bonitos de sua carreira e garantiu a classificação brasileira para as semifinais. Contra a França, o Brasil marcou aos 1m30 de jogo, com Vavá. Mas os franceses empataram aos oito minutos e o Brasil ficou perdido em campo. As coisas só mudaram quando Didi puxou o jogo para si e começou a lançar Garrincha. Ele esnobou os franceses e a seleção brasileira ganhou moral. Placar final: Brasil 5 x 2 França.

A grande final seria contra os donos da casa. Como os suecos também jogavam com a camisa amarela, os brasileiros tiveram de optar pelo fardamento azul. No começo do jogo, desabituados, os brasileiros davam a bola para os suecos de camisa amarela. Aos quatro minutos Liedholm marcou o primeiro gol para a Suécia. Bellini apanhou a bola no fundo do gol, entregou-a a Didi que caminhou devagar até o meio do campo para tranquilizar o time. Parece que deu certo. O Brasil se recuperou e terminou a partida em 4 a 2 com uma grande festa. Em 1962, no Chile, as coisas seriam bem diferentes. Totalmente titular, Garrincha teve de se esforçar muito mais. No primeiro jogo contra o México, o time não jogou seu melhor futebol e venceu por 2 a 0 sem convencer. No segundo jogo, contra a Tchecoslováquia, o maior tormento brasileiro: Pelé sofreu um estiramento do músculo adutor da virilha direita. Como naquela época não eram permitidas substituições, Pelé tentou atrapalhar o menos possível em campo. O resultado do jogo foi 0 a 0 e parecia que uma onda de má sorte se espalhava pela concentração brasileira. Para o jogo seguinte contra a Espanha, o botafoguense Amarildo foi escalado em seu lugar. Os espanhóis saíram na frente e estavam jogando um bolão. Garrincha vinha meio apagado na Copa. Mas nesta partida despertou e o segundo gol de Amarildo nasceu de uma jogada sua. Graças a isso, o Brasil conseguir vencer por 2 a 1. Nas quartas-de-final, contra a Inglaterra, faria um dos melhores jogos de sua vida e marcaria, inclusive, um gol de cabeça. No segundo gol bateu uma falta forte, o goleiro soltou e Vavá completou. No terceiro, mandou um chute de fora da área, parecendo que ia encobrir o travessão. Mas caiu dentro da rede. Mais uma vitória: Brasil 3 x 1Inglaterra.

A frieza de Garrincha foi fundamental para encobrir o nervosismo da maioria dos jogadores brasileiros. Nas semifinais, contra os donos da casa, Garrincha fez dois gols e deu o terceiro a Vavá, sendo o principal responsável pela vitória de 4 a 2. Aos 39 minutos do segundo tempo, aconteceria um dos fatos mais inusitados do futebol: Garrincha expulso do jogo. Depois de várias agressões por parte do jogador Rojas, o ponta lhe devolveu um tostão. O goleiro se atirou no chão, fez cena e o juiz expulsou o maior nome da Copa. Será que no jogo final contra a Tchecoslováquia, já sem Pelé, o Brasil não poderia contar com Garrincha? Céus e terras foram movidos e Garrincha absolvido poderia entrar em campo. Mesmo com uma forte gripe, ele novamente ganhou a Copa. Os tchecos saíram na frente e, desta vez, foi Nilton Santos quem caminhou com a bola até o meio do campo. Depois disso, o Brasil marcaria com Amarildo, Zito e Vavá e mais uma vez levaria a Jules Rimet.

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