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Pouca reza para muita dor
| Gazeta Press |
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Contrariando as expectativas de todos, o fato de ter nascido
com as pernas tortas nunca impediu Garrincha de jogar bola.
Mas havia um outro grave problema físico que encurtaria sua
carreira e lhe provocaria muitas dores: uma artrose nos dois
joelhos (uma espécie de desgaste entre o fêmur e a tíbia).
Em uma pessoa normal isso já é muito complicado, mas em Garrincha
era pior. Quando ele dava suas freadas, os dois ossos literalmente
moíam sua cartilagem. Em 1964, ele chegou a ser cortado da
seleção devido a esse problema associado ainda a uma inflamação
aguda nos tendões do quadríceps. Mas as tormentas vinham de
longe. No início de 1959, após o Sul-americano, o doutor Nova
Monteiro alertou que Garrincha deveria retirar os meniscos
do joelho direito. A recuperação seria lenta e o jogador não
poderia participar da excursão à Europa. Mesmo assim, o clube
autorizou a operação e, na data e hora marcadas, Garrincha
não apareceu. Tudo porque a rezadeira de Pau Grande havia
proibido-o, dizendo que se ele operasse nunca mais jogaria
futebol. E ele acreditou. Depois disso, ele passou o mês de
abril sob um tratamento de agulhas feito pela rezadeira que,
é claro, não resolveu nada. Devido a sua leviandade, o jogador
passaria o resto da vida jogando sob o efeito de anestésicos
e sofreria inúmeras punções. No dia 11 de janeiro de 1963,
antes da costumeira excursão do Botafogo pela América do Sul,
o médico Lídio Toledo o examinou e concluiu que ele não tinha
condições de viajar: seu joelho estava pior que o normal.
Na verdade, Garrincha já não conseguia atuar em dias seguidos.
Era necessário um ou dois dias entre os jogos para que seu
joelho desinchasse.
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Era o ponto máximo da inflamação dos meniscos. Mas Garrincha
se recusava a realizar a operação. Então era necessário repouso
e muita fisioterapia. Mas aí era a vez do Botafogo não abrir
mão de sua participação nos amistosos internacionais. Com
ele, a cota era US$ 12 mil, sem ele caía para US$ 8 mil. Naquela
excursão, Garrincha jogou sete das nove partidas, saindo no
segundo tempo em várias delas e, frequentemente, precisando
de punção. Nesse ano, juntaram-se à péssima forma física de
Garrincha (causada em grande parte pelo álcool), sua briga
por causa do salário e o escândalo de seu romance com Elza.
Esses seriam os ingredientes para colocá-lo em desgraça no
Botafogo. O time vinha tendo resultados negativos e já ninguém
mais se lembrava do bicampeonato carioca conquistado graças
ao ponta. Em todos os setores do clube, corria o boato que
Garrincha só pensava em dinheiro. O Botafogo não o vendera
por milhões quando ele estava no auge de sua forma e agora,
cheio de problemas, já não se interessava tanto assim por
ele. Isso revoltava o jogador. Em março de 1964, ele participava
dos amistosos do time somente porque o casal precisava desesperadamente
de dinheiro. Neste ano, ele renovara um contrato onde ficava
estipulado que seu salário ficaria congelado nos 150 mil cruzeiros
e receberia um bicho por partida jogada. No final do jogo,
ele precisava voltar para casa se arrastando. Quando lhe passavam
a bola, sua sensação era de pânico. Diante da situação e por
insistência de Elza, ele finalmente concordou em realizar
a operação, mas Lídio Toledo exigiu que ele assinasse uma
declaração, comprometendo-se a seguir o tratamento pós-operatório.
O médico não acreditava que ele se esforçaria nos exercícios
e ficasse sem beber.
Garrincha usou o argumento para recuar. Não assino
e não opero. Três semanas depois, o ponta solta a bomba:
iria operar-se, mas com o médico do América (Mário Marques
Tourinho). Perguntado sobre quanto custaria a operação, Tourinho
respondeu: o tri! Para ele, a operação seria fácil.
Contrariando os outros médicos, ele afirmou que a artrose
estava no começo e era comum aos jogadores com mais de trinta
anos. O problema eram os meniscos. Depois de eliminados, a
artrose cederia. Mas, como Lídio, Tourinho preveniu que eram
imprescindíveis os exercícios pós-operatórios. Lídio se sentiu
traído. O Botafogo o multou em 60% de seu salário por ter
se operado com outro médico. No dia 29 de setembro, ele foi
operado do joelho direito na Cruz Vermelha. Trinta e oito
dias depois, Tourinho lhe daria alta e o mandaria de volta
para o Botafogo. Mas a retirada dos meniscos não mudou as
coisas. A artrose continuava evoluindo e, logo, voltariam
as inchações. O resto do ano ele passaria fazendo fisioterapia
e, em 1965, simularia jogar suas últimas 23 partidas pelo
Botafogo. Neste ano, durante uma excursão ao México, ele foi
devolvido ao Rio junto a um relatório secreto. Nele, o chefe
da delegação João Citro dizia que Garrincha estava incapacitado
para o futebol. Era o fim de Garrincha, mas também o do Botafogo
que começara em 1957 com João Saldanha e reunira os principais
jogadores do bicampeonato mundial. Neste ano, o ponta iria
para o Corinthians mas teria uma passagem apagada pelo clube.
Depois de sua saída de São Paulo passaria quase o resto da
vida implorando para jogar em alguma equipe e teria pequenas
passagens pelo Flamengo, Olaria e vários time amadores.
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