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Foto: Acervo/Gazeta Press

Um ponta à moda antiga

Por Helder Guimarães Júnior, especial para a GE.Net

"Mãe, investe em mim que você não vai se decepcionar", pedia o jovem Gilberto Ribeiro Gonçalves que, assim como todo garoto de origem humilde, tinha o sonho de vencer na vida através do futebol. Dona Rosângela, inspetora de escola de Andradina, interior de São Paulo, costumava atender a todas exigências do menino.

"Sempre fui até meio enjoadinho para as coisas. Queria a melhor chuteira, a melhor caneleira. Minha mãe sempre comprou, às vezes em até dez prestações", declarou, certa vez, à imprensa paulistana. Mas o garoto merecia: era habilidoso como poucos. Parecia um verdadeiro ponta à moda antiga, canhoto, veloz, com dribles rápidos e desconcertantes. Com todo esse talento, Gilberto Ribeiro Gonçalves não frustrou a família e, hoje, é o Gil do Corinthians, ídolo da segunda maior torcida do país.

Já aos 10 anos de idade, Gil dava os primeiros passos rumo à profissionalização. Atuou em quase todos os clubes de Andradina - Afema, Grecan, AFC - sempre chamando atenção pela habilidade. A mãe, que casada com o mecânico Maurílio ainda tinha mais um filho, Renan, revela de onde pode ter vindo a facilidade que o atacante tem para driblar.

"Uma vizinha nossa tinha um cachorro bravo e, quando a bola caía na sua casa, um dos garotos ficava provocando o bicho para o outro pegar", conta Rosângela. Depois de treinar com o cão, passar pelos zagueiros adversários pode ter ficado mais fácil para Gil. No entanto, a história também já rendeu uma bronca delegacia."Um dia o cão apareceu morto e a vizinha acusou meu filho e os outros meninos de dar água sanitária para ele". Gil até hoje jura que não fez nada.

A velocidade também foi treinada nos tempos de infância: o jogador costumava pular o muro para nadar na casa do vizinho. Quando a mãe descobriu, o menino levou uma surra. Além dessas molecagens, o jogador também tinha o hábito de quebrar as janelas dos vizinhos com boladas. A finalização, que já não era muito boa nesses tempos, seria um fator muito cobrado pelos críticos de Gil no futuro.

Quando chegou aos 14 anos de idade, Gil já viajava, procurando seu espaço no futebol. "Comecei a tentar sair de Andradina, procurar clubes mais expressivos", conta. Nessa época, o jogador era sempre acompanho de Popó, treinador do Afema. E foi em uma dessas viagens que ele quase teve o destino de outro camisa 10 que foi ídolo no Timão: Neto. O xodó da fiel, antes de jogar no Corinthians, começou a carreira no Guarani, de Campinas. Só que Gil não teve a mesma sorte. "Ele ficou uma semana, depois o dispensaram. A vaga ficou com um menino oito centímetros mais alto", explica Dona Rosângela.

A última oportunidade de Gil viria com 17 anos. O juvenil do Corinthians disputaria um amistoso contra o Mirandópolis. No Timão, estavam os futuros companheiros Edu, Fernando Baiano, Rodrigo Pontes, Yamada e Kléber. Com este último, ao lado de Ricardinho, Gil formaria o setor esquerdo que seria considerado pela crítica o melhor em atividade no país.

A partida pelo Mirandópolis ia decidir a carreira do garoto. "O treinador de lá pediu três jogadores para reforçar a equipe dele e o meu pensou em mim e mais dois. Disse para minha mãe que seria minha última chance". Gil agarrou a oportunidade com unhas e dentes. No final do jogo, o treinador Ladeira, que hoje voltou a treinar as categorias de base do Corinthians, pediu que o jogador fosse fazer um teste no clube. "Fiquei uma semana e ele me aprovou!", fala Gil.

"Tá vendo esse aqui? É o primeiro contrato de imagem que assinei com o Corinthians. Pode ver, eu era menor. Está em nome da minha mãe", mostra orgulhoso. Gil nunca desfez os laços com a família. A mãe e a avó, Dona Dirce, que é testemunha de Jeová, colecionam jornais e revistas do jogador, além de guardar alguns troféus. Em 2003, foi Gil quem financiou um transplante de córnea para avó, que só tinha 5% de visão no olho direito. Quanto à mãe, Gil tenta retribuir o esforço e os cuidados de infância. "Eu hoje, graças a Deus, posso ajudá-la".

Logo que chegou ao Timão, o jovem jogador não decepcionou e conquistou seu primeiro título pelo alvinegro, um Campeonato Paulista de Juniores. Em 23 de janeiro de 2000, Gil fazia sua estréia pelo time profissional, sendo derrotado pelo Fluminense por 1 a 0. A partida era a primeira do futuro glorioso do atacante no Parque São Jorge. Reconhecendo o talento do menino, o técnico Oswaldo de Oliveira já previa: "Se prepara para voar. Se prepara para crescer".

Publicação: 27/05/2005
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