| Foto: Djalma Vassão/Gazeta
Press |
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A hora e a vez de Gilberto
Silva
Por Matheus Henrique Pichonelli,
especial para GE Net
Pouco antes do jantar, no amplo
salão decorado com flores exóticas do Hyundai
Hotel, de Ulsan, na Coréia do Sul, Gilberto Silva foi
chamado ao quarto por Felipão.
Àquela altura, poucos se lembravam dele como parte
integrante do grupo que disputaria a Copa do Mundo do Japão
e da Coréia. Calado, sempre introvertido (a ele muitos
calculavam a surpresa de ter o nome listado em meio a uma
legião de atletas consagrados, nos quais as maiores
atenções eram resguardadas aos quatro Rs: Ronaldo,
Rivaldo, Roberto Carlos e Ronaldinho Gaúcho), o volante
subiu ao encontro do treinador, ainda sem saber o que o esperava.
Até então, fora convocado apenas oito vezes
para atuar com a camisa canarinho. Havia despontado na equipe
do Atlético-MG um ano antes e chamou a atenção
do técnico gaúcho pela simplicidade no toque
de bola e a serenidade dentro de campo. Um mineiro típico,
que começou a dar os primeiros passos no futebol profissional
quando jogador do América-MG, em 1997. Cinco anos depois,
já andava pelos flancos com a camisa amarela em uma
meia cancha embolada por jogadores que há tempos desfilavam
por gramados brasileiros ou do exterior.
Tomou o elevador e foi ao encontro do treinador, que o recebe
com um tom de voz fraterna, na tentativa de transmitir tranqüilidade:
-Tive de cortar o Émerson, disse Luiz Felipe Scolari,
como se anunciasse que naquele dia não tomaria banho.
-Tu começas amanhã, como titular contra a
Turquia, prosseguiu.
Antes mesmo que o seu atleta emitisse idéia qualquer,
tratou de encerrar: Faça aquilo que você
faz no Atlético Mineiro. Nem mais, nem menos. Jogue
simples, com tranqüilidade. Toque de primeira. Roube
a bola e toque para quem estiver mais perto. Não invente
moda. Conto com você.
Minhas pernas tremeram, confessaria Gilberto
Silva pouco depois. Menos de vinte e quatro horas após
o anúncio, no entanto, tratou de seguir à risca
o que o treinador havia lhe ordenado. Encontrava a sua esfinge,
logo aos 26 anos. E decifrou-a.
Pouco depois, estava em campo para a sua estréia
em Copas do Mundo, momento máximo na carreira de um
jogador, como se jogasse, pés descalços a roçar
a terra batida, num terreno baldio de Lagoa da Prata, sua
cidade natal.
Destacou-se na partida e colheu elogios, legitimou a escolha
de Scolari, que tinha como opções para a função
o experiente Vampeta, cuja credibilidade era inquestionável
há pelo menos quatro anos. Contra a Turquia, encerrou
sua participação com duas assistências,
cinco passes certeiros, um errado. Desarmou seus adversários
em dez oportunidades. Cometeu apenas duas faltas.
Teve personalidade, avaliou Felipão,
após o jogo.
O Brasil tinha, então, a partir do dia 3 de junho
de 2002, um herdeiro do lendário Dunga três
Copas do Mundo nas costas, um título, uma Era com seu
nome.
No dia seguinte, Gilberto Silva trataria de se desfazer
da paridade: Estão dizendo que tenho a personalidade
do Dunga e a tranqüilidade do Émerson. Mas quero
ser o Gilberto Silva.
Com regularidade, o volante seguiria em ascensão.
Não desapontou diante da China e da Costa Rica, ainda
na primeira fase. Fora peça-chave no esquema montado
por Luiz Felipe Scolari na partida mais difícil do
Brasil na competição, diante da Bélgica,
nas oitavas-de-finais. Contra a Inglaterra, ofuscou a estrela
do meio-campista David Beckham, sem desgarrar-se da lealdade.
Contra a Turquia (semifinal), cumpriu seu papel e, contra
a Alemanha, na grande final, encerrou-o: foi o jogador que
mais roubou bolas durante todo o Mundial. E com o título
de pentacampeão no breve currículo.
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