| Foto: Acervo/Gazeta Press |
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No gol do Atlético,
só João Leite salva
Por Hugo Vítor Vecchiato,
especial para a GE. Net
A cena era clássica. Evangélico fervoroso,
vestido com a camisa de goleiro do Atlético-MG, entrava
em campo com um exemplar da Bíblia embaixo do braço
e entregava a algum companheiro de trabalho, fosse ele adversário
ou não. João Leite da Silva Neto dedicou 20
anos de sua vida ao futebol e teve seu melhor momento como
jogador do Galo mineiro, time pelo qual disputou 700 jogos,
durante o final da década de 70 até o fim dos
anos 80.
Aquela equipe era uma máquina. Faturou onze Campeonatos
Mineiros, sendo hexacampeã nos anos de 78, 79, 80,
81, 82, 83 e vice-campeã brasileira em 1977. O "Goleiro
de Deus", como ficou conhecido João Leite atuou
ao lado de nomes como o atacante Reinaldo, e os meio-campistas
Toninho Cerezo e Paulo Isidoro, e até hoje é
considerado um dos maiores goleiros que já passaram
pelo futebol de Minas Gerais.
A chegada ao posto de titular da equipe alvinegra não
foi fácil, porém veio no melhor momento do clube
desde o título nacional de 1971. Até ali, no
ano de 77, o titular era Ortíz, campeão estadual
invicto em 76. O guarda-metas argentino era uma figura. Ídolo
da torcida do Atlético, jogava com roupas extravagantes,
longos cabelos loiros e uma fita na testa e chegou a ser a
ser o cobrador oficial de pênaltis, uma inovação
na época.
João Leite era apenas o terceiro goleiro do elenco
e, depois da contusão de Ortíz e o fracasso
do primeiro reserva, entrou em campo com a camisa 1 do Galo.
Para ele, a causa desta ascensão inusitada é
bastante clara: "Achava que não teria nenhuma
chance maior no Atlético. Queria jogar, nem que fosse
em um estado distante. O Ortiz era o grande ídolo e
eu, o reserva do reserva. De um instante para o outro, o Ortíz
machucou-se, o reserva não deu certo e ganhei a posição.
Jesus entrou em ação". Em 77, João
Leite havia se convertido ao protestantismo.
E foi naquele mesmo ano que o Atlético chegou a final
do Campeonato Brasileiro contra o São Paulo de forma
invicta. O time mineiro era melhor, tinha mais estrelas. O
Tricolor era raça e coração. Na decisão,
disputada no estádio Governador Magalhães Pinto,
o Mineirão, o Galo, sem o craque Reinaldo, suspenso,
não fura a defesa paulista e o tempo regulamentar termina
0 a 0. Nos pênaltis, a infelicidade de João Leite
era que do lado oposto havia outro grande goleiro, Waldir
Peres. O São Paulo, com Getúlio e Chicão,
errou as duas primeiras cobranças. O Atlético
converteu com Ziza e Alves. Tudo levava a crer que o time
alvinegro faria história. Mas o Atlético erra
as outras três cobranças, com Toninho Cerezo,
Joãozinho Paulista e Márcio. João Leite
não consegue defender os chutes de Peres, Antenor e
Bezerra, vê o estádio calado e sua equipe perder
o bicampeonato nacional.
Além de ter vestido o manto da metade alvinegra de
Minas, João Leite defendeu o gol do Guarani, de Campinas
e do América-MG, além do Vitória de Guimarães.
No Atlético, em 92, ano de sua aposentadoria, conquistou
a Copa Conmebol, então segundo mais importante torneio
do continente sul-americano.
Devoto - A devoção de João Leite
à religião protestante não ficou restrita
à sua vida pessoal. Quando ainda era jogador, em 1981,
o arqueiro fundou, ao lado da esposa Eliana (então
jogadora de vôlei) e de mais três atletas, Baltazar,
Jailton (goleiro do Madureira-RJ) e Jânio (Noroeste-SP),
a comunidade religiosa Atletas de Cristo, com a intenção
de evangelizar através da prática do esporte.
Hoje a instituição tem sede em mais de 50 países
e jogadores e ex-jogadores, como por exemplo, César
Sampaio (ex-Palmeiras), os tetracampeões Jorginho e
Taffarel, Adhemar (ex-São Caetano), Silas e Alemão
(ex-São Paulo), Bismarck (ex-Vasco), Bosco (Fortaleza),
Edmílson (Barcelona), Euller (Atlético-MG),
Claudecir (São Caetano), Lúcio e Zé Roberto
(Bayern de Munique) e Kaká (Milan) fazem parte do Atletas
de Cristo.
Político - Logo depois de abandonar o futebol,
João Leite decidiu seguir carreira política
no seu estado. Acabou sendo eleito vereador em Belo Horizonte
em 92, depois foi eleito deputado estadual por três
vezes (1994, 98 e 2002). Nas últimas duas eleições
municipais tentou ser prefeito de Belo Horizonte, mas não
superou, primeiro, Célio de Castro, em 2000, e, em
seguida, Fernando Pimentel, em 3 de outubro de 2004.
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