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O artilheiro da alegria
(e da tristeza)
| Gazeta Press |
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Por Daniel Fernandes
Responda rápido: Viola é amado ou odiado pelas torcidas
dos clubes que defendeu ao longo de sua carreira? Pergunta
difícil para palmeirenses, corintianos, santistas e vascaínos.
O atacante sempre se dedicou com afinco ao seu legado de
marcar gols. Por isso, despertou amor. Mas Viola também sempre
provocou ódio. Típico personagem da história da bola - menino
pobre de periferia que alcançou sucesso e fama -, Viola é
talvez o maior anti-herói do futebol brasileiro.
Desde que explodiu, em 1988, Viola experimentou muitos sentimentos
em sua vida e carreira: Sorriu e chorou. Ganhou e perdeu títulos.
Entretanto, o atacante nunca deixou de lado a polêmica e a
capacidade de autopromoção.
Quem sabe, não foram estas mesmas características de sua
personalidade que contribuíram para o fato de ninguém saber
ao certo se ama ou odeia Viola. A verdade é que o atacante,
digamos assim, vive intensamente cada momento de sua vida
no futebol brasileiro.
Ascensão meteórica
O titular Edmar não poderia jogar a final daquele Campeonato
Paulista de 1988. O atacante estava com a seleção brasileira
na Olimpíada de Seul. Dessa forma, a quem recorrer para a
difícil tarefa de substituir um dos craques do Corinthians
em uma final? Chegou-se a conclusão que o melhor era um garoto
dos aspirantes do clube. A escolha mostrou-se correta.
O atacante, aos cinco minutos do primeiro tempo da prorrogação,
fez o gol que deu o título ao Corinthians. Mais do que isso,
Viola explodiu e passou a ser amado pela torcida mais apaixonada
do futebol brasileiro. "Após aquele gol maravilhoso no Brinco
de Ouro, diante do Guarani, no dia 31 de julho, surgiu o Viola
para o futebol e para os torcedores. Era apenas um garoto
de 18 para 19 anos que buscava espaço", lembrou o jogador
para A Gazeta Esportiva, em janeiro de 1998.
De fato, Viola nasceu para o futebol brasileiro. O atacante
deixou o Jardim Elisa, extremo norte da cidade de São Paulo,
para ser conhecido em todo o Estado. "Olha lá, o cara que
marcou o gol do título", diziam muitos corintianos orgulhosos
pelas ruas quando reconheciam Viola. No fim da década de 80,
o atacante começava a deixar no passado o aterrorizante zunido
de balas perdidas, a trilha sonora da violência que integrava
o cotidiano do menino pobre.
E agora Viola ?
O gol contra o Guarani deu espaço para o atacante no Corinthians.
Mas ao lado da posição de titular, surgiu a responsabilidade
de marcar gols. E Viola não estava preparado. Os três anos
que se seguiram foram os piores da carreira do jogador, que
deixou o Corinthians para atuar pelos desconhecidos São José
e Olímpia, clubes do interior do Estado.
Em 1989, ainda no Corinthians, Viola chegou a atravessar
um jejum de mais de três meses sem marcar. Verdadeira tortura
para o atacante. "Fiquei 101 dias sem fazer gols e fui chamado
de artilheiro de um gol só", falava Viola. Depois de receber
carinho, o atacante conheceu a faceta menos afável da torcida
mais apaixonada do Brasil. "Tive muitas dificuldades porque
a Gaviões da Fiel cobrava bastante. E a cobrança foi grande
porque eu era jovem e a torcida achava que o Viola marcaria
cinco ou seis gols no próximo jogo."
Viola não suportou a pressão e disputou o Campeonato Brasileiro
do ano seguinte pelo São José. Depois, jogou no Olímpia. O
cotidiano menos glamuroso dos clubes pequenos fez o atacante
amadurecer e aprender com jogadores mais experientes.
Em 1992, tudo mudou
Viola voltou para o Corinthians e, literalmente, caiu nos
braços da Fiel. Mais experiente, o jogador se impôs um desafio
que soava até prepotente. "Coloquei na cabeça que eu poderia
servir à seleção brasileira na Copa dos Estados Unidos. Era
só mostrar em campo", afirmou.
E o atacante conseguiu concretizar o sonho de defender o
Brasil. Voltou a ter destaque ao ser incluído na lista final
de Carlos Alberto Parreira e lá se foi o menino pobre nascido
na Vila Brasilândia para mais um capítulo de sua vida. O Brasil
conquistou o tetracampeonato e Viola quase voltou dos Estados
Unidos como herói nacional.
O atacante atuou apenas nos últimos 15 minutos do segundo
tempo da prorrogação contra a Itália, na final. E por algumas
vezes, diante de cansados zagueiros, Viola teve a chance de
marcar o gol do título. Não conseguiu, mas isso não impediu
o jogador de comemorar como uma criança a conquista do importante
campeonato.
Uma curta carreira internacional
A Copa do Mundo de 1994 fez de Viola um atacante conhecido
em todo o mundo. E não demorou para o Corinthians vendê-lo
para o Valencia, da Espanha. O atacante poderia ver na Europa
a sua carreira crescer ainda mais.
A ausência da convivência com a família e da 'comidinha'
brasileira, entretanto, fizeram o jogador desistir rapidamente
do sonho de atuar no exterior. "Tive problemas de adaptação
e alimentação. Nunca tinha ido para a Europa e saído de perto
da família. Pintou saudades de casa", avaliou o jogador.
Viola voltou para o Brasil, desta vez para o Palmeiras. E
o desafio de defender o principal rival do Corinthians parece
não ter feito bem ao atacante. Ele não decepcionou, mas também
não arrancou suspiros dos palmeirenses. A falta de um bom
relacionamento entre o jogador e a torcida abreviou a permanência
de Viola no Parque Antártica.
Cidade nova, vida nova
Viola foi contratado pelo Santos em 1998. E a maresia fez
bem ao atacante, que já chegou fazendo barulho na Vila Belmiro.
No dia de sua apresentação, por exemplo, usou um helicóptero
como meio de transporte até o lendário estádio do Peixe.
E Viola fez bem mais do que promover sua apresentação. O
atacante fez muitos gols e despertou a paixão do torcedor
santista, carente por conquistas importantes. O atacante conquistou
pela primeira vez a artilharia do Campeonato Brasileiro, em
1998, com 21 gols e conquistou com o Peixe o título de campeão
da Copa Conmebol. Muito para um time que desde 1984 não comemorava
nem sequer um Campeonato Paulista.
A excelente temporada não apagou a péssima campanha do atacante
um ano depois. De maneira geral, todo o Santos estava mal
naquela temporada. Mas Viola exagerou. Criticado por torcedores
que acompanhavam o treinamento do Santos no CT Rei Pelé, Viola
perdeu a compostura e partiu para cima dos torcedores.
A confusão tornaria a permanência de Viola no Peixe insustentável.
E a torcida nem queria saber do artilheiro. Viola se transferiu
para o Vasco, onde também jogou bem, conquistando a Copa Mercosul
e a Copa João Havelange em 2000.
Viola voltou para a Vila Belmiro em 2001. Desta vez, o mau
tempo impediu o jogador de aterrissar de helicóptero. Só que
Viola surpreendeu mais uma vez, ao chegar de limusine. Em
sua segunda passagem pelo Santos, entretanto, o jogador não
mostrou a mesma eficiência. E novamente deixou o Santos envolto
em polêmica com torcedores.
De 2001 a 2004, o jogador defendeu o desconhecido Gaziantepspor,
da Turquia. O artilheiro que adorava a mídia ficou
sumido. Tratou de jogar o seu futebol e concretizar a sua
independência financeira. Seria este o último
ato da carreira de nosso Macunaíma dos gramados? Definitivamente,
não. A exemplo de quando saiu do Valencia, Viola optou
por voltar às terras verde-amarelas. Recebeu propostas
de Grêmio, Flamengo e Guarani. Terminou em Campinas,
com a camisa do Bugre.
O que poderia ser um retorno em grande estilo, foi decepcionante.
Não porque Viola deixou de mostrar que é artilheiro,
mas sim em virtude de problemas internos no ano do rebaixamento
do Guarani para a Série B do Campeonato Brasileiro.
Sob o comando do técnico Jair Picerni, Viola e mais
oito jogadores ganharam férias forçadas em novembro
de 2004. Contudo, o atacante, mesmo não tendo sido
titular em toda a campanha bugrina, foi o goleador do time
no Brasileirão, com 10 gols e cravou seu nome na lista
dos 10 maiores artilheiros dos campeonatos nacionais, em 10º
lugar, com 92 gols.
Viola deixou o Guarani soltando fogo pelas ventas, desabafando
contra a administração do então presidente
José Luís Lourencetti. Do Brinco de Ouro da
Princesa, acabou aportando na Fonte Nova, no início
de 2005, para defender as cores do Bahia na Segunda Divisão.
Não conseguiu levar o Tricolor à Série
A, mas mostrou que ainda tem energia para aprontar muitas
e cumprir uma antiga promessa: a de jogar até os 60
anos.
O artilheiro que anda armado e que gosta de rap
Viola cresceu na periferia de São Paulo. Talvez a presença
de violência no cotidiano do jogador tenha condicionado o
atacante a adquirir o hábito de andar armado desde os 15 anos,
quando nem sequer tinha idade para obter o porte de um revólver
ou pistola.
Atualmente, Viola diz ter uma pistola calibre 380. Entretanto,
o jogador faz questão de lembrar que está totalmente legalizado
e se diz um colecionador, lembrando que possui quatro armas.
O atacante afirma que nunca usou qualquer arma. E revela que
já se envolveu em brigas quando estava armado, mas que preferiu
resolver a confusão "no braço"
A infância pobre também fez o jogador adquirir gosto pela
música de protesto. O rap visceral do Racionais está sempre
tocando na casa ou no carro do jogador, que se declara amigo
do vocalista da banda, Mano Brown. V iola também se declara
apaixonado por samba e diz que gosta de Zeca Pagodinho, Dudu
Nobre e Jorge Aragão.
Aventura na terra de Constantinopla - Viola se preparou para
encarar mais um desafio na sua carreira, ao aceitar a proposta
do desconhecido Gaziantespor. O time, fraco, jamais poderia
sonhar com uma conquista nacional, devido à força
dos concorrentes Fenerbahce, Galatasaray e Besiktas. Não
importava para o matador: a independência financeira
e a possibilidade de vencer na Europa eram atrativos suficientes.
Na primeira temporada, futebol modesto e adaptação.
Na Segunda temporada, Viola briga pela artilharia do campeonato.
Para o jogador, não importa: no Brasil, na Espanha,
na Turquia, sua simpatia e carisma continuam atraindo torcedores,
e suas comemorações debochadas fazem a alegria
dos fãs de futebol.
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