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Senna e Tamburello
entram para história
Não se pode analisar o 1° de maio de 1994 sem
recordar os dois dias anteriores à data trágica.
Nos treinos da sexta-feira, 29 de abril, o amigo e fã
de Ayrton Senna, Rubinho Barrichello, sofrera um grave acidente
no qual sua Jordan aterrisou de ponta-cabeça, o que
o impossibilitaria de participar do GP de San Marino. Rubinho
esteve na iminência de asfixia com sua própria
língua, mas foi socorrido rapidamente pela equipe médica.
No sábado, foi a vez de o austríaco Roland Ratzenberger
bater violentamente a 290 km/h na curva Villeneuve. O acidente
tiraria a sua vida. A primeira morte vivenciada por Senna
na Fórmula 1 o abalaria e produziria a famosa cena
de introspecção do piloto apoiado em sua Williams/Renault,
capturada pelas câmeras da TV Globo momentos antes da
corrida.
Outro fato marcante e recentemente divulgado pelo jornalista
Ernesto Rodrigues no livro Ayrton, o herói revelado,
seria que o irmão do piloto, Leonardo, teria gravado
uma conversa íntima entre a namorada de Ayrton, Adriane
Galisteu, e seu ex-namorado. Mas o autor não crê
na influência da revelação na tragédia.
"Com certeza ele ficou aborrecido, mas eu não
acredito que esse episódio tenha afetado sua capacidade
de pilotar", comenta Rodrigues.
A atmosfera antes do Grande Prêmio de San Marino, o
terceiro da temporada, estava carregada com as discussões
sobre o controle eletrônico de tração,
banido pela FIA. Havia suspeitas de que a Benetton ainda o
estava utilizando.
Entre os pilotos, não havia muitas novidades com relação
ao GP do Pacífico. Eddie Irvine estava suspenso por
três corridas depois de causar um grande acidente em
Interlagos. Senna, que não tinha terminado os primeiros
dois GPs, fizera a terceira pole da temporada, seguido pela
terceira vez por Michael Schumacher.
Na largada, JJ Lehto, da Benetton, parou. A maioria dos carros
conseguiu desviar, mas Pedro Lamy bateu a sua Lotus na parte
traseira esquerda do finlandês. Dois pneus da Lotus
voaram e acertaram quatro espectadores na arquibancada, que
foram socorridos no local. A entrada do Safety Car durou quatro
voltas e a corrida recomeçou com Senna em primeiro,
seguido por Schumacher.
No início da sexta volta, às 9h12 de Brasília,
pressionado pelo alemão, o carro do tricampeão
mundial passou reto na curva Tamburello e acertou o muro a
270km/h. A mesma curva onde Piquet se acidentara em 1°
de maio de 1987. No impacto, a suspensão dianteira
da Williams recuou e acertou a cabeça do brasileiro.
Senna foi retirado do carro 1min40 depois da batida e os
médicos tentaram salvar sua vida na pista. Um corte
de 1 cm foi aberto em seu pescoço, onde uma traqueostomia
foi realizada, para depois retirá-lo de helicóptero
para um hospital em Bologna. Mas seu coração
não mais batia. A extensão dos ferimentos de
Senna não era clara, e ninguém objetou o reinício
da corrida.
Schumacher assumiu a liderança e ainda outro acidente
aconteceria, quando Michele Alboreto, da Minardi, perdeu um
pneu no pitlane e se chocou com mecânicos da Ferrari.
Outro mecânico da Lotus foi atingido por destroços.
Schumacher, um dos 13 pilotos a terminar a prova, foi o primeiro,
seguido por Nicola Larini, da Ferrari, e Mika Hakkinen, da
McLaren-Peugeot.
O corpo inanimado de Senna chegaria ao hospital Magiori às
9h44, com seu coração batendo auxiliado por
equipamentos. O brasileiro tinha múltiplas fraturas
na base do crânio, afundamento frontal, ruptura da artéria
temporal e hemorragia no sistema respiratório. Sua
morte cerebral foi então decretada, seguida pela morte
oficial, às 13h42.
No Brasil, 250 mil pessoas acompanharam o enterro do ídolo
no dia 5 de maio, no cemitério do Morumbi. Mais de
cem mil pessoas passaram pelo velório, no salão
nobre da Assembléia Legislativa de São Paulo.
Seu caixão foi levado ao túmulo por 15 pilotos
e ex-pilotos, entre eles Émerson, Wilson e Christian
Fittipaldi, Rubens Barrichello, Alain Prost, Jackie Stewart
e Gerhard Berger. O Brasil dava adeus ao seu ídolo
dos domingos de manhã.
Segurança - O presidente da Federação
Internacional de Automobilismo (FIA), Max Mosley, tem de ser
elogiado por seus atos após o trágico fim de
semana de Ímola, em 1994, no que concerne as melhorias
realizadas nos carros de Fórmula 1. Entre elas, o espesso
estofamento ao redor da cabeça e pescoço dos
pilotos, pneus que permanecem fixos ao carro em caso de acidente,
maiores áreas de escape e a urgência do piloto
em abandonar o carro quebrado ou batido- cinco segundos.
Nenhuma morte foi presenciada na categoria desde o acidente
de Senna, mas Mika Hakkinen teve de ser submetido a uma traqueostomia
na pista depois de bater nos treinos do GP de Adelaide em
1995, Olivier Panis nunca mais foi o mesmo depois de quebrar
suas pernas no Canadá, em 1997, Ricardo Zonta quebrou
o pé em Interlagos e Michael Schumacher quebrou a perna
em Silverstone, ambos em 1999. Provas de que ainda há
muito que se melhorar.
Após a morte de Senna, as curvas mais fechadas foram
analisadas e por vezes alteradas. Muitas das curvas de alta
velocidade foram transformadas em chicanes, como nos GPs de
Monza e Áustria, para desgosto dos fãs e pilotos
de F-1. A curva Tamborello, grande vilã no Brasil,
não é nem sombra do que foi um dia.
"Com todos esses acidentes trágicos, a segurança
virou o cavalo de batalha do presidente Mosley. Depois dessa
triste data (1° de maio de 1994), a F-1 ficou muito mais
segura", comenta o hexacampeão mundial Michael
Schumacher.
A falta de critérios da FIA, no entanto, pode ser
observada no Eau Rouge e na curva Blanchimont, em Spa Francorchamps
e na 130R de Suzuka, alguns dos trechos mais perigosos do
calendário da F-1. Outra providência da FIA é
a de diminuir a velocidade dos carros.
A decisão de tornar as máquinas mais estreitas,
no intuito de ficarem mais rápidas, reduziu a aderência
através de pneus sulcados, tornando os veículos
mais perigosos, instáveis em curvas velozes e sob freagem.
O resultado é o aumento de carros saindo para as áreas
de escape da pista. Depois do acidente de Schumacher em Silverstone,
a FIA decidiu rever o desenho da barreira de areia, que aparentemente
não reduziu a velocidade da Ferrari. Por último,
aparentemente, a presença de pneus velhos não
é a melhor solução para impedir que um
piloto se machuque em caso de acidente. Ainda mais quando
se leva em consideração o avanço tecnológico
da Fórmula 1 e o nível técnico dos diretores
da FIA, que freqüentemente implementam novidades dignas
das aeronaves da Nasa.
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