| Primeiro ouro olímpico
do judô brasileiro
| Foto: Divulgação |
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| Nome: Aurélio Fernandez
Miguel
Data de nascimento: 10 de março
de 1964
Local: São Paulo (SP)
Categoria: meio-pesado
Principais conquistas:
. Ouro nas Olimpíadas de Seul-88
. Bronze nas Olimpíadas de Atlanta-96
. Prata no Mundial da França (1997)
. Prata no Mundial do Canadá (1993)
. Bronze no Mundial da Alemanha (1987)
. Ouro no Mundial Júnior de Porto Rico (1983)
. Ouro no Mundial Universitário da França
(1984)
. Prata na Universíade de Kobe, Japão
(1985)
. Ouro nos Jogos Pan-americanos de Indianápolis-87
. Heptacampeão Pan-americano (1982, 1985, 1986,
1988, 1992, 1996 e 1997)
Participações olímpicas: Seul-88, Barcelona-92 e Atlanta-96
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Campeão olímpico nos Jogos de Seul, quem diria, Aurélio Miguel
odiava a idéia de ter que pisar em um tatame. O filho do espanhol
Aurélio Miguel Marin só começou a participar do judô por recomendação
médica, como forma de tratamento a um problema respiratório.
O ano era 1968 e Aurélio Miguel tinha apenas quatro anos.
"Eu era meio franzino e o médico recomendou que eu fizesse
um esporte e, como meu pai achava um dos mais completos o
judô, me colocou na academia Vila Sônia. Quando nasci tive
broncopneumonia, fiquei no balão de oxigênio um mês e emagreci
dois quilos. Depois o diagnóstico foi que eu não cresceria
muito, seria uma pessoa franzina", conta.
O próximo passo foi o início dos treinos no São Paulo Futebol
Clube, já que morava com sua família no bairro de Vila Sônia,
vizinho ao Tricolor do Morumbi. Logo após, entrou para a academia
de Massao Shinohara e começou a disputar seus primeiros combates.
Ainda a contragosto e por exigência do pai, aos sete anos
começou a disputar torneios. Em 1972, conquista seu primeiro
título, no pré-mirim do Torneio Budokan. "A disciplina do
esporte é muito rígida e custa para uma criança se acostumar
e entender. Mas depois que comecei a competir, peguei amor
pelo judô e não larguei mais", confessaria bem mais tarde.
Considerado o melhor judoca do estado de São Paulo em 1980,
Aurélio parte para a carreira internacional. No Mundial Universitário
de 1982, disputado na Finlândia, o atleta consegue a medalha
de prata. Logo após, ainda no mesmo ano e já na categoria
meio-pesado, conquista o primeiro dos seus sete títulos pan-americanos,
no campeonato disputado no Chile.
Em 1983, Aurélio firma-se como uma das principais promessas
do judô mundial, ao conquistar a medalha de ouro no Mundial
Júnior, em Porto Rico. Esse foi um título inédito para o Brasil,
quando Aurélio Miguel venceu russos, japoneses, franceses
e coreanos. Para o judoca, era praticamente o passaporte para
os Jogos Olímpicos de Los Angeles, que seriam disputados no
próximo ano.
Entretanto, o início da briga política com a família Mamede
- que na época comandava o judô brasileiro – jogou por terra
suas expectativas de atuar em sua primeira olimpíada. Com
sua postura combativa – algo que se tornaria uma marca de
sua carreira -, Aurélio foi sumariamente cortado da equipe
olímpica de 1984. Em seu lugar foi chamado Douglas Vieira,
que conquistou a medalha de prata. Aurélio, por sua vez, afirma
que em muitos combates posteriores a Los Angeles, vencia o
oponente.
Mesmo sem participar dos Jogos, o judoca conquistou um importante
espaço no judô mundial sendo o primeiro brasileiro a disputar
torneios no circuito europeu e também iniciou o hábito de
realizar pré-temporadas no Japão. Em 1984, Aurélio contabilizou
três medalhas de bronze no circuito (Hungria, Tchecoslováquia,
Alemanha), uma de prata (Inglaterra) e uma de ouro (Bélgica).
Para coroar o ano vitorioso, o judoca foi campeão mundial
universitário e eleito pelo Comitê Olímpico Brasileiro como
o atleta do ano.
Glória olímpica - Por causa de uma contusão e uma
cirurgia no ombro, Aurélio ficou seis meses sem competir (de
novembro de 1986 a abril de 1987). Sua recuperação foi surpreendente
e acabou conquistando, em 1987, mais um título inédito: o
ouro nos Jogos Pan-americanos de Indianápolis-87. Depois disso,
seguiu para a Alemanha, onde disputaria o Mundial e conquistaria
a medalha de bronze.
Com o terceiro lugar em Essen, Aurélio foi convidado pela
Federação Espanhola de judô para que se naturalizasse, aproveitando
sua ascendência espanhola, vinda dos pais. Adotando uma postura
patriótica, o atleta recusou o convite, que certamente lhe
daria estabilidade financeira e psicológica para seu próximo
objetivo, os Jogos Olímpicos de Seul, em 1988.
Aurélio foi impecável na sua campanha em Seul. E como todo
grande campeão, também teve uma ajudinha da sorte: não encontrou
pelo caminho os temidos Robert van der Walle, da Bélgica,
e Hitoshi Saito, do Japão.O Brasil conheceu a versão espanhola
da Fúria, apelido recebido por Aurélio. Na final, enfrentou
o alemão Marc Meiling. Do início ao fim da luta, 4min32. E
pela primeira vez a bandeira brasileira ficava no lugar mais
alto do pódio nos Jogos coreanos. O judoca se tornou o sétimo
atleta a conquistar uma medalha de ouro em 68 anos de participações
brasileiras em Olimpíadas.
A briga definitiva - Ao final da participação do
judô, parecia que as brigas entre CBJ e Aurélio Miguel finalmente
acabariam. Joaquim Mamede, então presidente da entidade, era
um entusiasta do judoca. "Ele está disposto a todos os sacrifícios
para ganhar uma medalha". Entretanto, o prognóstico não se
confirmou. A disputa, que já era cansativa, tornou-se dolorosa.
Em preparação para o Mundial de judô, que aconteceria em
outubro de 1989 na Iugoslávia, Aurélio Miguel preferiu passar
um mês treinando no Japão. Quando voltou, foi impedido pela
Confederação Brasileira de Judô de treinar. Além disso, não
teve sua participação garantida no campeonato para o qual
se preparava. Foi a gota d’água.
Em setembro de 1989, quase um ano após o ouro em Seul, Aurélio
Miguel anunciou que não mais representaria o País sob a gestão
de Joaquim Mamede. Enviou, inclusive, um telegrama ao então
presidente da República, José Sarney, denunciando pressões
psicológicas vindas da CBJ e que tomava essa atitude para
que os atletas, no futuro, não fossem prejudicados.
"O Brasil não é um país sério", disse Aurélio, no auge de
seu descontentamento com o judô nacional. A troca de farpas
se estendeu até janeiro de 1991, quando já no governo de Fernando
Collor, o secretário dos Esportes Bernardo Rajzman, ex-jogador
de vôlei, conseguiu costurar o acordo que trouxe Aurélio de
volta à equipe brasileira, que já se preparava para os Jogos
Olímpicos de Barcelona. A principal reivindicação do judoca,
uma seletiva que definisse os atletas com as melhores condições
de irem à Espanha, foi a primeira cláusula do acordo firmado
no Itamaraty.
Em novembro, Aurélio retornou à carreira internacional.
Venceu todos os torneios nos quais esteve presente. Disposto
a qualquer sacrifício para defender o País, o judoca retomou
a confiança em seu potencial. "Apesar do tempo que fiquei
sem disputar torneios internacionais, continuo entre os melhores
judocas do mundo", afirmou.
O próximo desafio de Aurélio estava na terra natal de seus
pais, nas Olimpíadas de Barcelona, em 1992. Patrocinado pelo
Banco do Brasil e depois de quase três anos afastado de trabalhos
intensos, o judoca seguiu, no mês de abril, para o Japão,
onde ficou 30 dias treinando na Universidade de Budo, como
preparação para a seletiva que definiria a equipe olímpica.
Era o resultado dos anos de briga com a CBJ: pela primeira
vez, um time brasileiro teve vagas definidas no tatame e não
por indicação de dirigentes.
Em julho, Aurélio Miguel recebe a notícia de que seria o
porta-bandeira da delegação olímpica brasileira na cerimônia
de abertura dos Jogos Olímpicos. O anúncio foi feito no Palácio
do Planalto por Bernard Rajzman, secretário de esportes, e
André Richer, presidente do Comitê Olímpico Brasileiro. "Ele
foi o único a trazer de Seul uma medalha de ouro. Além disso,
é um atleta conhecido e respeitado internacionalmente", disse
Rajzman.
Entretanto, mesmo com o clima de festa em torno de seu nome,
Aurélio não conseguiu um bom papel na Espanha. O brasileiro
perdeu a primeira luta da repescagem para Dmitri Serguev.
O judoca também estava contundido: mais um problema no ombro
esquerdo, que foi sobrecarregado na sua segunda luta em Barcelona,
contra o tcheco Jiri Sosna, e precisou de uma cirurgia.
A volta aos tatames só ocorreria em agosto de 1993, marcada
por um sonho antigo: a tentativa de conseguir uma medalha
mundial, com a disputa a seletiva do Canadá e a vaga na categoria
meio-pesado.
Entretanto, o sonho da medalha mundial não se concretizou.
Aurélio perdeu o ouro a apenas 49 segundos do final do último
combate. Lutando com o húngaro Antol Kovacz, foi surpreendido
com um ippon e acabou com o segundo lugar. Mesmo sendo o melhor
resultado de um brasileiro em Mundiais, Aurélio fica decepcionado.
"A garra e a determinação não foram suficientes. Faltou condição
física", disse.
Sem o patrocínio do Banco do Brasil, terminado ainda em 1993,
Aurélio ameaça abandonar as competições nacionais novamente
em 1995, por falta de verbas. Depois do protesto, é apoiado
pela Confederação Brasileira de Judô e parte para sua terceira
Olimpíada: seu destino agora era Atlanta, em 1996.
Aurélio começou mais uma campanha vitoriosa. Aos 32 anos,
o brasileiro ainda era considerado um dos melhores do mundo.
Entretanto, encontrou o polonês Pawel Nastula na semifinal.
A 22 segundos do final do confronto, é penalizado com um waza-ari
e perdeu a luta. Na disputa do bronze, entrou inconformado
no tatame. Azar do holandês Bem Sonnemans, que foi derrotado
com um notável ippon. Mais um pódio para o Brasil.
Aurélio conseguiu, assim, mais uma marca notável para o
judô brasileiro. Entra na história ao ser mais um atleta que
conseguiu duas medalhas olímpicas, unindo-se a nomes como
Adhemar Ferreira da Silva, Joaquim Cruz e Gustavo Borges.
"Numa olimpíada, ser ouro, prata, bronze ou nada é uma questão
de detalhe. A diferença entre os atletas é muito pequena",
avaliaria.
Mal havia voltado de Barcelona com o bronze no peito, Aurélio
avisava: "Treinei muito em Barcelona para isso (a conquista
de uma medalha) e agora espero realizar outro sonho, que é
um título mundial, a única coisa que falta na minha carreira".
A Fúria não desistia de seu objetivo e em julho de 1997, garantiu
presença no Mundial de Paris.
Confiança não faltava a Aurélio que, diante de 17 mil pessoas,
eliminou o atleta da casa nas quartas-de-final. Na final,
a oportunidade da revanche frente ao polonês Pawel Nastula,
que o tirou do caminho do ouro olímpico em Atlanta. "Me senti
superior na final contra o polonês. Ele fugiu da luta o tempo
inteiro e eu, além de vencer, queria dar show, ganhar com
ippon", contou Aurélio. No entanto, a 1min14 do final da luta,
Nastula simulou uma contusão e ficou deitado por mais de um
minuto. O sonho de Aurélio seria decidido pelos árbitros.
Dos três juízes, dois eram europeus e um, asiático. Os árbitros
laterais decidiram pelo empate. O central – da Europa – deu
a vitória à Pawel Nastula. E Aurélio Miguel ficou com a prata.
"No estádio, ninguém acreditou. De qualquer forma, não se
pode depender de arbitragem, é preciso ganhar sem deixar dúvidas",
justificou o judoca.
Troca dos tatames pela política- Em 1998, Aurélio
sofreu uma contusão na coxa direita e fraturou um dedo do
pé esquerdo. Desistiu das seletivas para os Jogos Pan-americanos
de 1999, em Winnipeg (Canadá), se transferiu para o Flamengo
e resolveu priorizar o Mundial da Inglaterra e as Olimpíadas
de Sydney, na Austrália, em 2000.
Entretanto, a briga com a Confederação renasce. Aurélio
é vetado pela CBJ, em agosto de 1999, e é impedido de disputar
as seletivas para o Mundial. Sob ordens de Joaquim Mamede
Filho, o judoca é acusado de indisciplina por ter faltado
a um treino.
A CBJ dá a vaga de Aurélio para Marcelo Figueiredo, mas
o judoca não se conforma e entra com um recurso. O Flamengo
dá todo apoio ao atleta, recorrendo ao presidente Fernando
Henrique Cardoso e ao ministro dos Esportes, Rafael Greca.
Seguindo prerrogativa de um acordo assinado entre os judocas
e a CBJ em 1992, Aurélio pede o adiamento da final da seletiva,
alegando contusão. A entidade não aceita o recurso e confirma
a vaga para Figueiredo. O Flamengo ainda recorre à Justiça
comum, mas não obtém sucesso. "Cansei", confirma o atleta.
A tentativa no Mundial fica para trás, mas ainda restam
os treinamentos e a seletiva para Sydney. Aurélio não consegue
vaga para os Jogos da Austrália, após perder para Mário Sabino
e Marcelo Figueiredo. Além de lutar contra os adversários,
o judoca também tinha que enfrentar uma grave lesão no joelho
direito. As frustrações tiram Aurélio do tatame em 2001. No
mesmo ano, uma pesquisa realizada pela União Pan-americana
de judô certifica o brasileiro como o judoca do milênio nas
Américas. Em 2006, se tornou o segundo brasileiro a entrar
para o Hall da Fama da entidade
Em 2002, Aurélio se candidatou a deputado federal (PPS),
representando o estado de São Paulo, mas não conseguiu se
eleger. No entanto, não desistiu da vida política e, nas eleições
municipais de 2004, conquistou uma vaga como vereador na Câmara
Municipal de São Paulo. Em 2006, novamente tentou um lugar
na Câmara dos Deputados e, mais uma vez, falhou. |