| Pioneirismo
de ouro na ginástica brasileira
Por Carolina Canossa, especial para
a GE.Net
| Foto: Luz Bittar/Gazeta
Press |
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| Nome: Daiane Garcia dos Santos
Data de nascimento: 10 de fevereiro de 1983
Local: Porto Alegre (RS)
Provas: Solo (especialidade), barras
assimétricas, salto e trave
Principais conquistas:
. Campeã mundial do solo em Anaheim (2003)
. Quinta colocada no solo nas Olimpíadas de Atenas
(2004)
. Ouro no solo nas Super Finais de Copa do Mundo de
Birmingham (2004) e São Paulo (2006)
. Prata por equipes nos Jogos Pan-americanos do Rio
de Janeiro (2007)
. Prata no salto nos Jogos Pan-americanos de Winnipeg
(1999)
. Bronze por equipes nos Jogos Pan-americanos de Winnipeg
(1999) e Santo Domingo (2003)
. Bronze no solo nos Jogos Pan-americanos de Winnipeg
(1999)
. Ouro no solo das seguintes etapas da Copa do Mundo:
Stuttgart (2003), Rio de Janeiro (2004), Lyon (2004),
Cottbus (2004),São Paulo (2005), Paris (2005),
Stuttgart (2005) e Moscou (2006)
. Prata no salto da etapa de Lyon (2004) da Copa do
Mundo
. Bronze no solo das seguintes etapas da Copa do Mundo:
Cottbus (2003), Stuttgart (2004) e Ghent (2007)
. Bronze nas barras assimétricas da etapa de
Stuttgart da Copa do Mundo (2004)
Participações olímpicas:
Sydney/00 (como reserva) e Atenas-04
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Quando saiu de casa para brincar em uma pracinha de Porto
Alegre, aos 11 anos, Daiane Garcia dos Santos mal poderia
imaginar que o passeio transformaria sua vida. Então uma desconhecida
garota gaúcha, ela chamou a atenção de uma professora de ginástica,
Cleusa de Paula, enquanto brincava no trepa-trepa graças às
piruetas e à boa resistência física apresentada. Acabou recebendo
um convite para treinar no Centro Estadual de Treinamento
Esportivo (Cete).
Filha de um monitor da Fase (Fundação de Atendimento Sócio-Educativo)
e de uma cozinheira, Daiane lá aprendeu as técnicas da ginástica,
esporte no qual quebraria diversos tabus: primeira negra a
conquistar uma medalha de ouro em um Mundial, primeira brasileira
a dar nome a um movimento da modalidade e primeira representante
nacional a liderar um ranking mundial. Ao todo, ela soma 21
medalhas entre Campeonatos Mundiais, etapas da Copa do Mundo
e Jogos Pan-americanos. Destas, 11 medalhas são douradas.
Boa parte do sucesso não só de Daiane como da ginástica
verde-amarela nos últimos anos, deve-se ao bom trabalho iniciado
pela Confederação Brasileira da modalidade (CBG). Nos início
do século 21, a entidade passou a trabalhar com os técnicos
ucranianos Oleg e Nadia Ostapenkoa, além de Irina Ilyaschenko
no comando de uma inédita seleção permanente, abrigada em
Curitiba. Com uma filosofia diferente da verde-amarela, os
treinadores do Leste Europeu apostam em uma tática paciente,
onde exercícios básicos são repetidos à exaustão, de maneira
que as atletas não carreguem pequenos defeitos na hora de
atuar em grandes competições.
O resultado disto é que mesmo atletas que começaram tarde
na modalidade, caso de Daiane, conseguem ter um bom aproveitamento.
A gaúcha, porém, paga caro pelo fato de não ter se dedicado
desde muito cedo à ginástica – em geral, as atletas começam
a treinar pro volta dos seis anos. Mas não se arrepende de
nada. “Valeu a pena todo o sacrifício de superar a dor, não
poder sair com os amigos, não poder namorar”, declarou. Tecnicamente,
ela também teve que fazer escolhas importantes: apesar de
também já ter competido no salto, nas barras assimétricas
e na trave, Daiane priorizou o solo, aparelho no qual levou
o título mundial de 2003.
Auge da carreira de Daiane, a conquista ocorreu na cidade
norte-americana de Anaheim. Última atleta a se apresentar
na grande final, a brasileira bateu a futura campeã olímpica
Catalina Ponor, ao somar 9,737 pontos, contra 9,700 da rival.
A terceira colocação ficou com a espanhola Elena Gómez, que
atingiu a marca de 9,675. De quebra, ainda teve um novo movimento
batizado com o seu nome pela Federação Internacional de Ginástica,
o “Dos Santos”, denominação do hoje famoso duplo twist carpado.
A gaúcha ainda tem outro salto, o duplo twist esticado, homologado
como Super E (grau máximo de dificuldade) na Federação Internacional
de Ginástica (FIG).
“Como diz o ditado, os últimos serão os primeiros e hoje
sou a número um do mundo no solo. Comecei muito tarde no esporte,
mas estou me superando e conquistando resultados excelentes”,
desabafou a atleta, logo após o título. “Em uma só competição
realizei meus dois grandes sonhos: receber a nota Super E
em um movimento inédito e ganhar ouro em um Mundial”, afirmou
a ginasta, que foi festejar o título com uma viagem à Disney,
ao lado do restante da delegação brasileira.
O título mundial foi a coroação de uma excelente temporada
na qual Daiane já havia levado um bronze e um ouro no solo
em duas etapas da Copa do Mundo, realizadas respectivamente
em Cottbus e em Stuttgart. Além disto, ela havia sido terceira
colocada por equipes no Torneio Internacional de Madri e nos
Jogos Pan-americanos de Santo Domingo. Sumida depois de voltar
do Pan de Winnipeg-1999 com três medalhas (uma por equipe
(bronze) e duas individuais: salto (prata) e solo (bronze),
a gaúcha voltava ao estrelato e se firmava como favorita ao
ponto mais alto do pódio nas Olimpíadas de Atenas, no ano
seguinte.
O ano de 2004 começou bem para Daiane, que no mês de março,
levou dois ouros consecutivos no solo em etapas da Copa do
Mundo, realizadas em Cottbus e em Lyon. Dias depois, porém,
a invencibilidade dela no solo caiu por terra no Torneio Internacional
de Ginástica, preparatório para os Jogos Olímpicos. Na disputa,
realizada na Grécia, ela sequer chegou à final, que foi vencida
pela espanhola Elena Gómez, então segunda colocada no ranking
mundial, atrás apenas da própria Daiane.
O tropeço não abalou a ginasta, que logo no começo de abril
foi a primeira colocada na etapa carioca da Copa do Mundo.
Sob o som de “Brasileirinho”, a gaúcha levou o público do
Riocentro à loucura e retomou o favoritismo. Mas Daiane não
estava 100% fisicamente: no início de junho, menos de dois
meses antes da apresentação mais importante de sua vida, a
brasileira se submeteu à terceira cirurgia no joelho de sua
carreira – as outras haviam sido realizadas em março de 2002
e junho de 2003.
A intervenção foi realizada em segredo, a pedido da própria
Daiane, mas acabou sendo descoberta pela imprensa. Inicialmente,
o discurso dos dirigentes da Confederação Brasileira era de
que a atleta estava tão “afiada” para as Olimpíadas que o
problema não teria grandes conseqüências. Aos poucos, porém,
as falas foram mudando: com dores, ela admitiu logo após o
primeiro treino em solo grego, que seria “complicado ganhar
uma medalha”.
A “previsão” viria a se confirmar dias depois. Terceira
colocada na fase eliminatória, Daiane deixou escapar a chance
DE se tornar a primeira negra campeã olímpica na ginástica
com dois pousos desequilibrados durante sua apresentação na
final. Ao terminar um dos movimentos, pisou fora da demarcação
do tablado e, consciente que sua apresentação havia sido aquém
do que podia, disse “Acabou” para o técnico Oleg Ostapenko
assim que ouviu sua nota, 9,375.
Se tivesse repetido o desempenho obtido na classificação
(9,637), Daiane teria levado a prata, mas teve mesmo que se
conformar com o quinto lugar. O ouro foi para Catalina Ponor,
seguida pela também romena Nicoleta Sofronie e pela espanhola
Patrícia Moreno. Assim como ocorreu às vésperas de Sidney-2000,
competição na qual foi apenas reserva, Daiane sentiu a pressão
de ser favorita.
Para Oleg, porém, o joelho foi o fator determinante para
o mau desempenho da pupila. “Ela entrou um pouco nervosa para
a disputa e estava com medo por causa da contusão”, explicou
o treinador. A atleta, por sua vez, culpou a ansiedade. “Não
digo que estou frustrada, mas um pouco triste. Não pela medalha,
mas porque eu poderia ter feito melhor hoje”, lamentou, à
época.
A argumentação dela é tão verdadeira, que a revanche veio
logo, em dezembro de 2004: na Super Final da Copa do Mundo,
disputada na Inglaterra, Daiane bateu Ponor e ficou com o
título no solo. A diferença é que nesta oportunidade, a ginasta
optou por não usar o duplo twist esticado, no qual ela cometeu
sua maior falha na Grécia. “Fechei o ano com chave de ouro.
Deus sempre guarda uma grande coisa para a gente e guardou
para mim. Foi como se tivesse falado: “Não vai ser nas Olimpíadas,
mas no fim do ano você vai ganhar o que merece””, comemorou
a brasileira.
Após 2004, Daiane promoveu algumas mudanças em sua vida:
a primeira medida foi deixar a casa que dividia com 14 atletas
em Curitiba e morar sozinha, o que, de acordo com ela, a fez
sair um pouco do ambiente esportivo. “Acho que isso é bom,
pois senão você pensa 24 horas em competições”, justificou
a atleta, em entrevista para a revista Contigo!. Daiane começou
ainda a preparar a mudança da música que acompanhava sua série,
deixando de lado o “Brasileirinho”. A primeira opção foi “País
Tropical”, música com a qual chegou a se apresentar em Curitiba,
mas problemas com os direitos autorais da canção, a fizeram
optar por “Isto Aqui, o que é?”, de Ary Barroso, seqüência
que só estrearia em maio de 2006, com o título da etapa de
Moscou da Copa do Mundo.
Embalada pela boa apresentação na Inglaterra no final do
ano anterior, Daiane começou 2005 com os títulos no solo das
etapas de São Paulo e Paris da Copa do Mundo. No segundo semestre,
ainda foi a melhor ginasta do aparelho em Stuttgart, credenciando-se
como favorita do Mundial de Melbourne, onde tentaria o bi.
Com apenas uma pequena falha em sua coreografia, ela foi a
melhor na fase classificatória, mas acabou caindo durante
a execução do duplo twist carpado na decisão e terminou em
sétimo lugar. Mesmo com a falha, Daiane foi bastante aplaudida
pelo público.
“Fiquei mais chateada com o resultado da Olimpíada”, admitiu
a gaúcha, que seria quarta colocada na prova durante o Mundial
de 2006, disputado na Dinamarca e que se caracterizou como
o primeiro grande teste do novo código de notas da modalidade.
Apesar da nova decepção, Daiane não pode dar tal temporada
como perdida, uma vez que venceu a etapa de Moscou e brilhou
na Super Final da Copa do Mundo, em São Paulo, quando bateu
a campeã mundial Fei Cheng para delírio do público que lotou
o ginásio do Ibirapuera.
O ano de 2007, entretanto, não foi bom para Daiane: seu
melhor resultado individual foi a terceira posição no solo
da etapa de Ghent da Copa do Mundo, em maio. A prioridade
era um bom resultado nos Jogos Pan-americanos, torneio na
qual chegou com o status de estrela da delegação brasileira.
Porém, uma torção no tornozelo direito às vésperas da disputa
por equipes, colocou em xeque sua participação, que foi confirmada,
com ressalvas, dias depois.
Para se preservar, Daiane abdicou da disputa nas barras
assimétricas e se apresentou na competição por equipes (onde
levou a prata) na base do sacrifício. Forçando o tornozelo
esquerdo para compensar a lesão, ela terminou sua apresentação
com dores e sua participação na prova de solo também foi colocada
em dúvida – na ocasião, a gaúcha já havia desistido também
de tentar o ouro no salto. A brasileira submeteu-se a diversos
tratamentos, mas, com o pé dolorido e inchado, não se recuperou
a tempo e foi obrigada a também abandonar a briga pelo ouro
em sua especialidade.
Os problemas no tornozelo de Daiane persistiram até setembro,
quando por pouco não foi cortada da delegação que disputou
o Mundial de Stuttgart, na Alemanha. Na Europa, ela competiu
com proteção nos dois pés e, fazendo uma série mais simples
do que está acostumada, terminou apenas na 23ª posição.
O sinal de alerta está mais aceso do que nunca, pois a seqüência
de lesões coloca em risco a participação de Daiane dos Santos
nas Olimpíadas de Pequim, competição para a qual a delegação
técnica da ginástica nacional teme que ela não chegue em nível
competitivo. Até lá, no entanto, a gaúcha mantém o otimismo.
“Tem muita coisa para acontecer e é só tratar. Espero estar
com a seleção no ano que vem para conquistarmos um resultado
até melhor do que a gente já conseguiu”, assegura.
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