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Atualização: 26/12/2007
 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . DAIANE DOS SANTOS

Pioneirismo de ouro na ginástica brasileira

Por Carolina Canossa, especial para a GE.Net

Foto: Luz Bittar/Gazeta Press
Foto: Luz Bittar/Gazeta Press

Nome: Daiane Garcia dos Santos
Data de nascimento: 10 de fevereiro de 1983
Local: Porto Alegre (RS)
Provas: Solo (especialidade), barras assimétricas, salto e trave
Principais conquistas:
. Campeã mundial do solo em Anaheim (2003)
. Quinta colocada no solo nas Olimpíadas de Atenas (2004)
. Ouro no solo nas Super Finais de Copa do Mundo de Birmingham (2004) e São Paulo (2006)
. Prata por equipes nos Jogos Pan-americanos do Rio de Janeiro (2007)
. Prata no salto nos Jogos Pan-americanos de Winnipeg (1999)
. Bronze por equipes nos Jogos Pan-americanos de Winnipeg (1999) e Santo Domingo (2003)
. Bronze no solo nos Jogos Pan-americanos de Winnipeg (1999)
. Ouro no solo das seguintes etapas da Copa do Mundo: Stuttgart (2003), Rio de Janeiro (2004), Lyon (2004), Cottbus (2004),São Paulo (2005), Paris (2005), Stuttgart (2005) e Moscou (2006)
. Prata no salto da etapa de Lyon (2004) da Copa do Mundo
. Bronze no solo das seguintes etapas da Copa do Mundo: Cottbus (2003), Stuttgart (2004) e Ghent (2007)
. Bronze nas barras assimétricas da etapa de Stuttgart da Copa do Mundo (2004)
Participações olímpicas: Sydney/00 (como reserva) e Atenas-04

Quando saiu de casa para brincar em uma pracinha de Porto Alegre, aos 11 anos, Daiane Garcia dos Santos mal poderia imaginar que o passeio transformaria sua vida. Então uma desconhecida garota gaúcha, ela chamou a atenção de uma professora de ginástica, Cleusa de Paula, enquanto brincava no trepa-trepa graças às piruetas e à boa resistência física apresentada. Acabou recebendo um convite para treinar no Centro Estadual de Treinamento Esportivo (Cete).

Filha de um monitor da Fase (Fundação de Atendimento Sócio-Educativo) e de uma cozinheira, Daiane lá aprendeu as técnicas da ginástica, esporte no qual quebraria diversos tabus: primeira negra a conquistar uma medalha de ouro em um Mundial, primeira brasileira a dar nome a um movimento da modalidade e primeira representante nacional a liderar um ranking mundial. Ao todo, ela soma 21 medalhas entre Campeonatos Mundiais, etapas da Copa do Mundo e Jogos Pan-americanos. Destas, 11 medalhas são douradas.

Boa parte do sucesso não só de Daiane como da ginástica verde-amarela nos últimos anos, deve-se ao bom trabalho iniciado pela Confederação Brasileira da modalidade (CBG). Nos início do século 21, a entidade passou a trabalhar com os técnicos ucranianos Oleg e Nadia Ostapenkoa, além de Irina Ilyaschenko no comando de uma inédita seleção permanente, abrigada em Curitiba. Com uma filosofia diferente da verde-amarela, os treinadores do Leste Europeu apostam em uma tática paciente, onde exercícios básicos são repetidos à exaustão, de maneira que as atletas não carreguem pequenos defeitos na hora de atuar em grandes competições.

O resultado disto é que mesmo atletas que começaram tarde na modalidade, caso de Daiane, conseguem ter um bom aproveitamento. A gaúcha, porém, paga caro pelo fato de não ter se dedicado desde muito cedo à ginástica – em geral, as atletas começam a treinar pro volta dos seis anos. Mas não se arrepende de nada. “Valeu a pena todo o sacrifício de superar a dor, não poder sair com os amigos, não poder namorar”, declarou. Tecnicamente, ela também teve que fazer escolhas importantes: apesar de também já ter competido no salto, nas barras assimétricas e na trave, Daiane priorizou o solo, aparelho no qual levou o título mundial de 2003.

Auge da carreira de Daiane, a conquista ocorreu na cidade norte-americana de Anaheim. Última atleta a se apresentar na grande final, a brasileira bateu a futura campeã olímpica Catalina Ponor, ao somar 9,737 pontos, contra 9,700 da rival. A terceira colocação ficou com a espanhola Elena Gómez, que atingiu a marca de 9,675. De quebra, ainda teve um novo movimento batizado com o seu nome pela Federação Internacional de Ginástica, o “Dos Santos”, denominação do hoje famoso duplo twist carpado. A gaúcha ainda tem outro salto, o duplo twist esticado, homologado como Super E (grau máximo de dificuldade) na Federação Internacional de Ginástica (FIG).

“Como diz o ditado, os últimos serão os primeiros e hoje sou a número um do mundo no solo. Comecei muito tarde no esporte, mas estou me superando e conquistando resultados excelentes”, desabafou a atleta, logo após o título. “Em uma só competição realizei meus dois grandes sonhos: receber a nota Super E em um movimento inédito e ganhar ouro em um Mundial”, afirmou a ginasta, que foi festejar o título com uma viagem à Disney, ao lado do restante da delegação brasileira.

O título mundial foi a coroação de uma excelente temporada na qual Daiane já havia levado um bronze e um ouro no solo em duas etapas da Copa do Mundo, realizadas respectivamente em Cottbus e em Stuttgart. Além disto, ela havia sido terceira colocada por equipes no Torneio Internacional de Madri e nos Jogos Pan-americanos de Santo Domingo. Sumida depois de voltar do Pan de Winnipeg-1999 com três medalhas (uma por equipe (bronze) e duas individuais: salto (prata) e solo (bronze), a gaúcha voltava ao estrelato e se firmava como favorita ao ponto mais alto do pódio nas Olimpíadas de Atenas, no ano seguinte.

O ano de 2004 começou bem para Daiane, que no mês de março, levou dois ouros consecutivos no solo em etapas da Copa do Mundo, realizadas em Cottbus e em Lyon. Dias depois, porém, a invencibilidade dela no solo caiu por terra no Torneio Internacional de Ginástica, preparatório para os Jogos Olímpicos. Na disputa, realizada na Grécia, ela sequer chegou à final, que foi vencida pela espanhola Elena Gómez, então segunda colocada no ranking mundial, atrás apenas da própria Daiane.

O tropeço não abalou a ginasta, que logo no começo de abril foi a primeira colocada na etapa carioca da Copa do Mundo. Sob o som de “Brasileirinho”, a gaúcha levou o público do Riocentro à loucura e retomou o favoritismo. Mas Daiane não estava 100% fisicamente: no início de junho, menos de dois meses antes da apresentação mais importante de sua vida, a brasileira se submeteu à terceira cirurgia no joelho de sua carreira – as outras haviam sido realizadas em março de 2002 e junho de 2003.

A intervenção foi realizada em segredo, a pedido da própria Daiane, mas acabou sendo descoberta pela imprensa. Inicialmente, o discurso dos dirigentes da Confederação Brasileira era de que a atleta estava tão “afiada” para as Olimpíadas que o problema não teria grandes conseqüências. Aos poucos, porém, as falas foram mudando: com dores, ela admitiu logo após o primeiro treino em solo grego, que seria “complicado ganhar uma medalha”.

A “previsão” viria a se confirmar dias depois. Terceira colocada na fase eliminatória, Daiane deixou escapar a chance DE se tornar a primeira negra campeã olímpica na ginástica com dois pousos desequilibrados durante sua apresentação na final. Ao terminar um dos movimentos, pisou fora da demarcação do tablado e, consciente que sua apresentação havia sido aquém do que podia, disse “Acabou” para o técnico Oleg Ostapenko assim que ouviu sua nota, 9,375.

Se tivesse repetido o desempenho obtido na classificação (9,637), Daiane teria levado a prata, mas teve mesmo que se conformar com o quinto lugar. O ouro foi para Catalina Ponor, seguida pela também romena Nicoleta Sofronie e pela espanhola Patrícia Moreno. Assim como ocorreu às vésperas de Sidney-2000, competição na qual foi apenas reserva, Daiane sentiu a pressão de ser favorita.

Para Oleg, porém, o joelho foi o fator determinante para o mau desempenho da pupila. “Ela entrou um pouco nervosa para a disputa e estava com medo por causa da contusão”, explicou o treinador. A atleta, por sua vez, culpou a ansiedade. “Não digo que estou frustrada, mas um pouco triste. Não pela medalha, mas porque eu poderia ter feito melhor hoje”, lamentou, à época.

A argumentação dela é tão verdadeira, que a revanche veio logo, em dezembro de 2004: na Super Final da Copa do Mundo, disputada na Inglaterra, Daiane bateu Ponor e ficou com o título no solo. A diferença é que nesta oportunidade, a ginasta optou por não usar o duplo twist esticado, no qual ela cometeu sua maior falha na Grécia. “Fechei o ano com chave de ouro. Deus sempre guarda uma grande coisa para a gente e guardou para mim. Foi como se tivesse falado: “Não vai ser nas Olimpíadas, mas no fim do ano você vai ganhar o que merece””, comemorou a brasileira.

Após 2004, Daiane promoveu algumas mudanças em sua vida: a primeira medida foi deixar a casa que dividia com 14 atletas em Curitiba e morar sozinha, o que, de acordo com ela, a fez sair um pouco do ambiente esportivo. “Acho que isso é bom, pois senão você pensa 24 horas em competições”, justificou a atleta, em entrevista para a revista Contigo!. Daiane começou ainda a preparar a mudança da música que acompanhava sua série, deixando de lado o “Brasileirinho”. A primeira opção foi “País Tropical”, música com a qual chegou a se apresentar em Curitiba, mas problemas com os direitos autorais da canção, a fizeram optar por “Isto Aqui, o que é?”, de Ary Barroso, seqüência que só estrearia em maio de 2006, com o título da etapa de Moscou da Copa do Mundo.

Embalada pela boa apresentação na Inglaterra no final do ano anterior, Daiane começou 2005 com os títulos no solo das etapas de São Paulo e Paris da Copa do Mundo. No segundo semestre, ainda foi a melhor ginasta do aparelho em Stuttgart, credenciando-se como favorita do Mundial de Melbourne, onde tentaria o bi. Com apenas uma pequena falha em sua coreografia, ela foi a melhor na fase classificatória, mas acabou caindo durante a execução do duplo twist carpado na decisão e terminou em sétimo lugar. Mesmo com a falha, Daiane foi bastante aplaudida pelo público.

“Fiquei mais chateada com o resultado da Olimpíada”, admitiu a gaúcha, que seria quarta colocada na prova durante o Mundial de 2006, disputado na Dinamarca e que se caracterizou como o primeiro grande teste do novo código de notas da modalidade. Apesar da nova decepção, Daiane não pode dar tal temporada como perdida, uma vez que venceu a etapa de Moscou e brilhou na Super Final da Copa do Mundo, em São Paulo, quando bateu a campeã mundial Fei Cheng para delírio do público que lotou o ginásio do Ibirapuera.

O ano de 2007, entretanto, não foi bom para Daiane: seu melhor resultado individual foi a terceira posição no solo da etapa de Ghent da Copa do Mundo, em maio. A prioridade era um bom resultado nos Jogos Pan-americanos, torneio na qual chegou com o status de estrela da delegação brasileira. Porém, uma torção no tornozelo direito às vésperas da disputa por equipes, colocou em xeque sua participação, que foi confirmada, com ressalvas, dias depois.

Para se preservar, Daiane abdicou da disputa nas barras assimétricas e se apresentou na competição por equipes (onde levou a prata) na base do sacrifício. Forçando o tornozelo esquerdo para compensar a lesão, ela terminou sua apresentação com dores e sua participação na prova de solo também foi colocada em dúvida – na ocasião, a gaúcha já havia desistido também de tentar o ouro no salto. A brasileira submeteu-se a diversos tratamentos, mas, com o pé dolorido e inchado, não se recuperou a tempo e foi obrigada a também abandonar a briga pelo ouro em sua especialidade.

Os problemas no tornozelo de Daiane persistiram até setembro, quando por pouco não foi cortada da delegação que disputou o Mundial de Stuttgart, na Alemanha. Na Europa, ela competiu com proteção nos dois pés e, fazendo uma série mais simples do que está acostumada, terminou apenas na 23ª posição.

O sinal de alerta está mais aceso do que nunca, pois a seqüência de lesões coloca em risco a participação de Daiane dos Santos nas Olimpíadas de Pequim, competição para a qual a delegação técnica da ginástica nacional teme que ela não chegue em nível competitivo. Até lá, no entanto, a gaúcha mantém o otimismo. “Tem muita coisa para acontecer e é só tratar. Espero estar com a seleção no ano que vem para conquistarmos um resultado até melhor do que a gente já conseguiu”, assegura.

 

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