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22/01/2007
Lhofei Shiozawa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Lhofei Shiozawa: da lavoura ao tatame, a saga do primeiro campeão

Por Marta Teixeira

Foto: Acervo/Gazeta Press
Foto: Acervo/Gazeta Press
Nome: Lhofei Shiozawa
Data de nascimento:
1º julho de 1941
Local: São Paulo
Categoria: médio
Altura: 1,65m
Peso: 72kg
Principais resultados: medalha de ouro nos Jogos Pan-americanos São Paulo-63, medalha de prata nos Jogos Pan-americanos Winnipeg-67, tetracampeão pan-americano e bicampeão sul-americano
Participações olímpicas: Japão-64 (primeiro judoca brasileiro a disputar uma edição dos Jogos Olímpicos) e Munique-72
Ele começou a competir em uma época na qual não havia divisão por peso. Assim, o filho de imigrantes japoneses Lhofei Shiozawa aprimorou sua técnica, desenvolveu sua aptidão e tornou-se o primeiro campeão pan-americano brasileiro no judô. A conquista foi obtida nos Jogos de 1963, em São Paulo, mesmo ano da introdução da modalidade no programa do evento .

Shiozawa lembra bem daquela experiência, a segunda internacional da qual participava. Antes, em 1961, havia disputado o Campeonato Mundial em Paris. “Eu não tinha noção da grandeza da competição, porque na época Pan-americano não era muito falado”, confessa o ex-atleta, que mantém uma academia em Goiânia (GO) e continua dando aulas de judô.

Único representante nacional da modalidade no torneio, Shiozawa foi para a competição com uma preparação beirando ao mambembe. “Preparação?”, responde ao ser perguntado sobre o assunto. “Preparação, preparação não houve. Não era uma preparação como hoje”, afirma em tom de galhofa.

O trabalho específico foi realizado em cerca de 15 dias e dependeu mais do empenho individual do judoca. O diferencial foi a coincidente chegada do mestre japonês Yoshida ao país. “Para o meu judô foi espetacular. Apanhei demais treinando com ele, mas foi assim que consegui ser campeão”.

A diferença entre eles não estava só na experiência, mas também na balança. Contra os 72kg de Shiozawa, o adversário chegava perto dos 100kg. A situação, porém, não era nova para o brasileiro, acostumado não apenas a treinar com atletas mais pesados, mas também a enfrentá-los em torneios oficiais.

A divisão por categorias de peso foi uma inovação introduzida apenas em 63. Até então, as disputas eram por faixa. Ou seja, não era incomum que um atleta de 60kg encarasse um hoje peso pesado com mais de 100kg. “Peguei muitos lutadores grandes”, recorda.

O Pan contou com apenas três países participantes: Brasil, Uruguai e Estados Unidos. A decisão foi contra o norte-americano Paul Maruyama, um atleta de renome internacional, que não facilitou a vida do brasileiro. Apesar da conquista inédita, Shiozawa lembra que o título não teve grande repercussão. “Não houve reconhecimento algum. Só naquele momento, quando todos os jornais noticiaram”.

Entretanto, de maneira indireta, a medalha serviu para ajudar a carreira do judoca. “O diretor do colégio em que estudava gostava muito de esporte e, a partir daí, me ajudou muito com os estudos”. Se a vida ficou menos dura nas carteiras escolares, o mesmo não pode ser dito sobre suas participações esportivas.

Ser atleta amador naquela época significava não contar com apoio nenhum. Nem mesmo uma mísera ajuda de custo. A carreira esportiva de Shiozawa era bancada pela ajuda da família. “Meus pais eram lavradores humildes, mas me ajudaram muito. Meu irmão também”, diz, referindo-se ao mais velho dos 15 filhos do casal, Idenobo, que chegou a ser campeão brasileiro.

Nascido em uma colônia japonesa, Shiozawa não tinha luxos nos treinamentos. A parte física, como bem se lembra, era exercitada na plantação de hortaliças da família. “Naquele tempo era tudo manual e minha preparação era feita na lavoura”. A rotina diária incluía o trabalho na terra até as 16 horas e mais as aulas na escola à noite. “O treinamento (de judô) era mais nos finais de semana”.

A modalidade fez parte de sua vida desde cedo. Com seis anos já estava treinando e só deixou as competições em 73, após disputar mais um Mundial, desta vez na Suíça. Viver do judô só foi possível a partir de 1965, quando se mudou para Brasília (DF). Não que tenha encontrado um patrocinador (o que era proibido), mas porque bancava suas despesas com o que ganhava como professor.

Um ano antes, Shiozawa fez sua estréia olímpica nos Jogos de Tóquio. Foi a primeira vez que esteve na terra de seus pais, o que acabou sendo um trunfo importante para sua participação. “Visitei meus tios e eles compareceram em peso à competição”, recorda emocionado. O conhecimento de japonês fez com que conseguisse se virar na competição porque, a exemplo de Aída dos Santos (salto em altura), única brasileira a participar desta edição dos Jogos, ele também estava largado.

“Esse Jogos foram especiais e também ridículos”, diz bem-humorado. “Eu era o único do judô. Viajei sem técnico, sem ninguém. Tive que me virar. Foi como a Aída, que ia todo dia ao alojamento chorando porque não sabia o que fazer. Quem a ajudou foi um jogador de pólo-aquático cubano, ex-tricampeão mundial e naturalizado brasileiro. Ele recomendou que ela treinasse com os cubanos e foi assim que ela conseguiu sua melhor marca”.

Aída terminou a disputa na histórica quarta colocação com um salto de 1,74m. Seu feito só foi igualado por uma brasileira em competição individual nos Jogos de Atenas-2004, quando Natália Falavigna terminou em quarto na categoria acima de 64kg do taekwondo.

A lista de absurdos na participação olímpica brasileira no Japão não parou por aí. Depois de ficar a competição inteira ao Deus dará – chegou à semifinal, mas não conseguiu medalha -, Shiozawa recebeu a visita de um senhor na véspera do retorno. “Ele se apresentou, disse que era o responsável pelo judô e me pediu para comprar um judogui (o popular quimono) para a filha dele”, lembra. “Pensando hoje, acho até engraçado”.

Para os Jogos de Munique-72, a situação foi menos pior. “Me mandaram treinar no Japão um mês antes”, diz Shiozawa. “Pagaram a passagem, mas a estadia fui eu quem tive de bancar. Eu não tinha técnico, treinava por conta”. Funcionário da Universidade Federal de Brasília e de uma Fundação Educacional, o judoca apresentou ofício solicitando dispensa. Foi atendido... mas sem receber vencimentos. Ou seja, pagou para lutar.

Quanto aos trágicos eventos que marcaram aquela competição, Shiozawa não presenciou. Ouviu muito barulho à noite, mas como o torneio de judô já havia terminado (ele não passou das eliminatórias) e viajou na manhã seguinte, só soube do ocorrido por terceiros.

Apesar de tudo que passou, ele não tem dúvidas que a vida no esporte valeu a pena. “A gente fazia por puro idealismo muitas vezes”. A melhor lembrança? “Tudo”, responde categórico. “Porque o que eu queria realmente era representar o Brasil e, dentro das condições, consegui o melhor resultado que podia”, diz o ex-judoca, que também defendeu o Brasil nos Jogos Pan-americanos de Winnipeg-67.

No Canadá, ele não estava sozinho. A delegação brasileira na modalidade contava com cinco atletas e todos voltaram para casa com uma medalha. Shiozawa foi prata; Takeshi Miura e Akiro Oro, ouro, e Jorge Mehdi, bronze. “O resultado até que foi bom”, concorda modesto.

Mas não são apenas as medalhas em competições que fazem valer sua experiência no judô, acredita. Para ele, uma luta em particular é guardada como uma recordação muito especial em sua trajetória. O confronto foi contra Shiaki Ishii, medalha de bronze nas Olimpíadas de Munique e campeão brasileiro. Japonês naturalizado, superar Ishii era ‘o sonho de consumo’ dos atletas nacionais e Shiozawa foi o único a conseguir tal feito, em 1971. Hoje, ele tenta fugir um pouco do assunto. “Não vou falar nada, porque se não ele fica chateado”, diz tímido com um sorriso contido. “Mas isso foi ótimo para mim como atleta porque meu objetivo era vencê-lo”, confessa.

Apesar de não ter mais função administrativa na Confederação Brasileira de Judô (CBJ) - durante a primeira gestão de Paulo Wanderley, ele foi segundo vice-presidente da entidade -, Shiozawa não se afasta completamente do judô. Mantém as aulas em sua academia e acompanha a modalidade um pouco de longe. “De vez em quando entro em contato com o pessoal”. Mas nem por isso deixa de ter um olhar crítico sobre a evolução dos judocas nacionais.

“O judô no Brasil deveria estar muito melhor porque herdou a tradição diretamente do Japão. Acho que até há uns dois ou três anos a evolução estava indo muito bem, mas agora está começando a entrar no judô força, europeu”, reclama contrariado. “Parecem guindastes lutando. É difícil até para assistir. Mas acho que não tem muita alternativa, não é?”.

Ainda bem que as recordações do tempo de atleta ainda estão bastante vivas na memória do ex-judoca Shiozawa porque a maior parte das provas concretas de seus feitos não está mais com ele. No final dos anos 70, sua academia foi vítima de um assalto e levaram quase todos os troféus e medalhas conquistados por ele em sua carreira. Durante anos, o material ficou perdido até que nos anos 80 o destino fez com que recuperasse parte de seu acervo pessoal.

“Estava em Goiânia com alguns alunos meus que eram de Salvador para disputar um Campeonato Brasileiro. Eles foram visitar uma feira hippie e viram algumas das minhas medalhas sendo vendidas por ali”. Os alunos recuperaram o que estava em exposição, mas medalhas como as dos Pan-americanos não puderam ser encontradas e continuam longe de seu verdadeiro dono.

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