Lhofei Shiozawa: da
lavoura ao tatame, a saga do primeiro campeão
Por Marta Teixeira
| Foto: Acervo/Gazeta Press |
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Nome: Lhofei Shiozawa
Data de nascimento: 1º julho de
1941
Local: São Paulo
Categoria: médio
Altura: 1,65m
Peso: 72kg
Principais resultados: medalha
de ouro nos Jogos Pan-americanos São Paulo-63,
medalha de prata nos Jogos Pan-americanos Winnipeg-67,
tetracampeão pan-americano e bicampeão
sul-americano
Participações olímpicas:
Japão-64 (primeiro judoca brasileiro
a disputar uma edição dos Jogos Olímpicos)
e Munique-72 |
Ele começou a competir em uma época na qual não havia
divisão por peso. Assim, o filho de imigrantes japoneses
Lhofei Shiozawa aprimorou sua técnica, desenvolveu sua
aptidão e tornou-se o primeiro campeão pan-americano brasileiro
no judô. A conquista foi obtida nos Jogos de 1963, em
São Paulo, mesmo ano da introdução da modalidade no programa
do evento .
Shiozawa lembra bem daquela experiência, a segunda
internacional da qual participava. Antes, em 1961, havia
disputado o Campeonato Mundial em Paris. “Eu não tinha
noção da grandeza da competição, porque na época Pan-americano
não era muito falado”, confessa o ex-atleta, que mantém
uma academia em Goiânia (GO) e continua dando aulas
de judô.
Único representante nacional da modalidade no torneio,
Shiozawa foi para a competição com uma preparação beirando
ao mambembe. “Preparação?”, responde ao ser perguntado
sobre o assunto. “Preparação, preparação não houve.
Não era uma preparação como hoje”, afirma em tom de
galhofa.
O trabalho específico foi realizado em cerca de 15
dias e dependeu mais do empenho individual do judoca.
O diferencial foi a coincidente chegada do mestre japonês
Yoshida ao país. “Para o meu judô foi espetacular. Apanhei
demais treinando com ele, mas foi assim que consegui
ser campeão”.
A diferença entre eles não estava só na experiência,
mas também na balança. Contra os 72kg de Shiozawa, o
adversário chegava perto dos 100kg. A situação, porém,
não era nova para o brasileiro, acostumado não apenas
a treinar com atletas mais pesados, mas também a enfrentá-los
em torneios oficiais.
A divisão por categorias de peso foi uma inovação
introduzida apenas em 63. Até então, as disputas eram
por faixa. Ou seja, não era incomum que um atleta de
60kg encarasse um hoje peso pesado com mais de 100kg.
“Peguei muitos lutadores grandes”, recorda.
O Pan contou com apenas três países participantes:
Brasil, Uruguai e Estados Unidos. A decisão foi contra
o norte-americano Paul Maruyama, um atleta de renome
internacional, que não facilitou a vida do brasileiro.
Apesar da conquista inédita, Shiozawa lembra que o título
não teve grande repercussão. “Não houve reconhecimento
algum. Só naquele momento, quando todos os jornais noticiaram”.
Entretanto, de maneira indireta, a medalha serviu
para ajudar a carreira do judoca. “O diretor do colégio
em que estudava gostava muito de esporte e, a partir
daí, me ajudou muito com os estudos”. Se a vida ficou
menos dura nas carteiras escolares, o mesmo não pode
ser dito sobre suas participações esportivas.
Ser atleta amador naquela época significava não contar
com apoio nenhum. Nem mesmo uma mísera ajuda de custo.
A carreira esportiva de Shiozawa era bancada pela ajuda
da família. “Meus pais eram lavradores humildes, mas
me ajudaram muito. Meu irmão também”, diz, referindo-se
ao mais velho dos 15 filhos do casal, Idenobo, que chegou
a ser campeão brasileiro.
Nascido em uma colônia japonesa, Shiozawa não tinha
luxos nos treinamentos. A parte física, como bem se
lembra, era exercitada na plantação de hortaliças da
família. “Naquele tempo era tudo manual e minha preparação
era feita na lavoura”. A rotina diária incluía o trabalho
na terra até as 16 horas e mais as aulas na escola à
noite. “O treinamento (de judô) era mais nos finais
de semana”.
A modalidade fez parte de sua vida desde cedo. Com
seis anos já estava treinando e só deixou as competições
em 73, após disputar mais um Mundial, desta vez na Suíça.
Viver do judô só foi possível a partir de 1965, quando
se mudou para Brasília (DF). Não que tenha encontrado
um patrocinador (o que era proibido), mas porque bancava
suas despesas com o que ganhava como professor.
Um ano antes, Shiozawa fez sua estréia olímpica nos
Jogos de Tóquio. Foi a primeira vez que esteve na terra
de seus pais, o que acabou sendo um trunfo importante
para sua participação. “Visitei meus tios e eles compareceram
em peso à competição”, recorda emocionado. O conhecimento
de japonês fez com que conseguisse se virar na competição
porque, a exemplo de Aída dos Santos (salto em altura),
única brasileira a participar desta edição dos Jogos,
ele também estava largado.
“Esse Jogos foram especiais e também ridículos”, diz
bem-humorado. “Eu era o único do judô. Viajei sem técnico,
sem ninguém. Tive que me virar. Foi como a Aída, que
ia todo dia ao alojamento chorando porque não sabia
o que fazer. Quem a ajudou foi um jogador de pólo-aquático
cubano, ex-tricampeão mundial e naturalizado brasileiro.
Ele recomendou que ela treinasse com os cubanos e foi
assim que ela conseguiu sua melhor marca”.
Aída terminou a disputa na histórica quarta colocação
com um salto de 1,74m. Seu feito só foi igualado por
uma brasileira em competição individual nos Jogos de
Atenas-2004, quando Natália Falavigna terminou em quarto
na categoria acima de 64kg do taekwondo.
A lista de absurdos na participação olímpica brasileira
no Japão não parou por aí. Depois de ficar a competição
inteira ao Deus dará – chegou à semifinal, mas não conseguiu
medalha -, Shiozawa recebeu a visita de um senhor na
véspera do retorno. “Ele se apresentou, disse que era
o responsável pelo judô e me pediu para comprar um judogui
(o popular quimono) para a filha dele”, lembra. “Pensando
hoje, acho até engraçado”.
Para os Jogos de Munique-72, a situação foi menos
pior. “Me mandaram treinar no Japão um mês antes”, diz
Shiozawa. “Pagaram a passagem, mas a estadia fui eu
quem tive de bancar. Eu não tinha técnico, treinava
por conta”. Funcionário da Universidade Federal de Brasília
e de uma Fundação Educacional, o judoca apresentou ofício
solicitando dispensa. Foi atendido... mas sem receber
vencimentos. Ou seja, pagou para lutar.
Quanto aos trágicos eventos que marcaram aquela competição,
Shiozawa não presenciou. Ouviu muito barulho à noite,
mas como o torneio de judô já havia terminado (ele não
passou das eliminatórias) e viajou na manhã seguinte,
só soube do ocorrido por terceiros.
Apesar de tudo que passou, ele não tem dúvidas que
a vida no esporte valeu a pena. “A gente fazia por puro
idealismo muitas vezes”. A melhor lembrança? “Tudo”,
responde categórico. “Porque o que eu queria realmente
era representar o Brasil e, dentro das condições, consegui
o melhor resultado que podia”, diz o ex-judoca, que
também defendeu o Brasil nos Jogos Pan-americanos de
Winnipeg-67.
No Canadá, ele não estava sozinho. A delegação brasileira
na modalidade contava com cinco atletas e todos voltaram
para casa com uma medalha. Shiozawa foi prata; Takeshi
Miura e Akiro Oro, ouro, e Jorge Mehdi, bronze. “O resultado
até que foi bom”, concorda modesto.
Mas não são apenas as medalhas em competições que
fazem valer sua experiência no judô, acredita. Para
ele, uma luta em particular é guardada como uma recordação
muito especial em sua trajetória. O confronto foi contra
Shiaki Ishii, medalha de bronze nas Olimpíadas de Munique
e campeão brasileiro. Japonês naturalizado, superar
Ishii era ‘o sonho de consumo’ dos atletas nacionais
e Shiozawa foi o único a conseguir tal feito, em 1971.
Hoje, ele tenta fugir um pouco do assunto. “Não vou
falar nada, porque se não ele fica chateado”, diz tímido
com um sorriso contido. “Mas isso foi ótimo para mim
como atleta porque meu objetivo era vencê-lo”, confessa.
Apesar de não ter mais função administrativa na Confederação
Brasileira de Judô (CBJ) - durante a primeira gestão
de Paulo Wanderley, ele foi segundo vice-presidente
da entidade -, Shiozawa não se afasta completamente
do judô. Mantém as aulas em sua academia e acompanha
a modalidade um pouco de longe. “De vez em quando entro
em contato com o pessoal”. Mas nem por isso deixa de
ter um olhar crítico sobre a evolução dos judocas nacionais.
“O judô no Brasil deveria estar muito melhor porque
herdou a tradição diretamente do Japão. Acho que até
há uns dois ou três anos a evolução estava indo muito
bem, mas agora está começando a entrar no judô força,
europeu”, reclama contrariado. “Parecem guindastes lutando.
É difícil até para assistir. Mas acho que não tem muita
alternativa, não é?”.
Ainda bem que as recordações do tempo de atleta ainda
estão bastante vivas na memória do ex-judoca Shiozawa
porque a maior parte das provas concretas de seus feitos
não está mais com ele. No final dos anos 70, sua academia
foi vítima de um assalto e levaram quase todos os troféus
e medalhas conquistados por ele em sua carreira. Durante
anos, o material ficou perdido até que nos anos 80 o
destino fez com que recuperasse parte de seu acervo
pessoal.
“Estava em Goiânia com alguns alunos meus que eram
de Salvador para disputar um Campeonato Brasileiro.
Eles foram visitar uma feira hippie e viram algumas
das minhas medalhas sendo vendidas por ali”. Os alunos
recuperaram o que estava em exposição, mas medalhas
como as dos Pan-americanos não puderam ser encontradas
e continuam longe de seu verdadeiro dono.
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