O boxe brasileiro
"deve muito a este negro"
Por Emanuel Colombari , especial para a GE.Net
| Foto: Acervo/Gazeta Press |
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Nome: Luiz Ignácio da
Silva
Data de nascimento: 22 de maio
de 1929
Local de nascimento: Piracicaba (SP)
Falecimento: 1° de agosto
de 1977, em São Paulo, SP
Cartel: 52 lutas, 37 vitórias
(20 por nocaute), quatro empates e 11 derrotas.
Principais Títulos: Forja de Campeões
(53), Pan-americano (55), Brasileiro (56) e Sul-americano
(59).
Curiosidades: Casado com Jacilda
Baptista, Luizão teve quatro filhos: Júlia
Maria, Luiz Roberto, Rosângela e Roseli,
sendo que Rosângela foi uma das Mulatas
do Sargentelli. Colecionador de chapéus
e sapatos, admirador de blues e jazz, Luizão
chegou a compor e gravar.
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O boxe vivia um período
áureo entre as décadas de 50 e 60 no Brasil.
Entre tantos nomes que abrilhantavam a nobre arte da época,
como Éder Jofre, Ralph Zumbano e Kaled Curi, o
de Luiz Ignácio da Silva pode passar de maneira
quase discreta entre os próprios admiradores da
modalidade. Mas a história dos pugilistas brasileiros
deve muito a Luizão, o primeiro a trazer uma medalha
de ouro para o Brasil em ringues dos Jogos Pan-americanos.
Nascido em Piracicaba no dia 22 de maio de 1929, Luiz
se contagiou pelo vírus dos ringues em 1950.
Mais exatamente no dia 22 de abril, quando assistiu
a luta-exibição do lendário campeão
Joe Louis contra Walter Hafer no Rio de Janeiro. A partir
daí, era destino do entusiasmado garoto se tornar
o maior meio-pesado e um dos maiores pugilistas do país.
De volta a Piracicaba, Luizão começou
a se dedicar aos treinos, ao mesmo tempo em que trabalhava
como carregador da Estrada de Ferro Sorocabana na qual
o porte físico do garoto já impressionava
até mesmo gente como o então deputado
Jânio Quadros. Em visita à cidade, o futuro
presidente usou de sua influência para conseguir
a Luiz um emprego de contínuo, para que pudesse
poupar seu físico e dedicar-se às lutas,
mesmo que o próprio garoto não levasse
o esporte muito além de uma simples diversão.
A dedicação, porém, cresceu. Com
aval dos chefes e seguindo orientação
de Adhemar Ferreira da Silva, seu vizinho de infância,
mudou-se para a capital para treinar no São Paulo
Futebol Clube. Seu estilo ágil e seu poder de
punch logo fizeram com que o clube o lançasse
na Forja de Campeões de 53, na qual garantiu
o título com nocautes em todos os combates. Após
o título, equivalente ao Campeonato Paulista
amador, Luizão conquistou o Pan-americano amador
de 54, no México.
No entanto, o ponto mais alto da carreira veio em 1955.
Foi quando o já nacionalmente conhecido Luizão
conquistou a medalha de ouro nos Jogos Pan-americanos,
disputados na Cidade do México, abrindo o caminho
para os próximos cinco títulos que o país
conquistaria em Pans.
Na campanha rumo ao local mais alto do pódio,
o ‘Martelo Negro’ precisou passar pelo mexicano
Lorenzo Valles e pelo argentino Abel Omar Escalante.
Sem dificuldades, nocauteou o primeiro e venceu o segundo
por pontos, faturando a medalha do peso meio-pesado
(até 81 kg). Depois de duas pratas em 51, em
Buenos Aires, o Brasil abria caminho para uma trajetória
vitoriosa no continente.
No mesmo ano, Luizão faturou o título
brasileiro dos meio-pesados. Em sua décima luta
como profissional, enfrentou Nelson de Andrade e simplesmente
não deu chances ao rival: no dia 11 de novembro
de 55, demolia Nelson com um nocaute no segundo round.
No ano seguinte, ainda confirmou o título ao
vencer Waldemar Adão por nocaute técnico
no quinto assalto. Detalhe: Waldemar disputava os pesos
pesado.
Com fama crescente na América do Sul, Luizão
foi derrotado por pontos em um desafio contra o chileno
Humberto Loyaza em abril de 56. Insatisfeito, pediu
revanche no mês seguinte e levou novamente a pior:
desta vez, acabou nocauteado ainda no primeiro assalto,
após violenta troca de golpes com Loyaza. A partir
daí, a já ressaltada instabilidade de
Luizão nos ringues ganhou mais força e
os contínuos golpes na cabeça começaram
a cobrar seu preço.
Em julho, o desafio foi contra o argentino Hector Wilson,
antes que fosse implantada, na década de 70,
a regra que impede um boxeador nocauteado de voltar
aos ringues antes de três meses. Ainda no final
do ano, pediu a segunda revanche contra Loyaza e, desta
vez, não deu chances: devolveu o nocaute.
A maior luta de Luizão, porém, ainda
estava por vir. Em janeiro de 1958, o então campeão
mundial dos meio-pesados Archie Moore foi convidado
para lutar em São Paulo, onde cruzaria o caminho
do brasileiro. Veterano, mas ainda um dos lutadores
mais técnicos da época, Archie aceitou.
Era a grande oportunidade de projeção
de Luiz Ignácio, que poderia disputar uma revanche
contra Moore nos EUA caso vencesse. Então com
um cartel de 22 vitórias (15 por nocaute) e um
empate em 25 lutas, Luizão subiu ao ringue no
dia 18 de janeiro de 58 para enfrentar Moore, com nada
menos do que 134 vitórias em 158 lutas, sendo
89 por nocaute.
O que era para ser apenas uma exibição
no Ginásio do Ibirapuera, a primeira de um brasileiro
contra um norte-americano na história, se transformou
praticamente em uma guerra técnica: Luizão
suportou quatro assaltos, até que se animou com
uma seqüência de jabs em Archie, que pegou
o brasileiro com a guarda baixa e acertou-lhe um violento
contra-golpe no queixo. Desestabilizado e com a boca
jorrando sangue, o brasileiro apenas evitava o confronto
próximo, como havia orientado seu técnico
Kid Jofre. O desafiante, vendo as pernas do adversário
bambearem, então não se animou a persegui-lo
e venceu por pontos, ao final do décimo assalto.
Mesmo assim, aquela luta valeu o convite de Moore a
Luizão e Éder Jofre para treinar nos EUA.
Segundo Éder, seu pai teria proibido que ele
fosse, mas havia permitido que o amigo seguisse o norte-americano.
Luizão morreu garantindo o contrário e
condenando Kid Jofre pela carreira internacional que
não decolou. Maior amargor para ele, que não
escondia lutar por dinheiro para poder dar um futuro
confortável aos quatro filhos, à esposa
Jacilda e para construir um palacete no bairro da Casa
Verde, em São Paulo, onde morava.
Em 59, Luizão foi a Montevidéu disputar
o título sul-americano dos meio-pesados contra
o uruguaio Dogomir 'Dogo' Martínez. Derrotado
em ringues uruguaios, venceu por pontos na revanche
em São Paulo. Ainda conseguiu defender o título
contra o argentino Gregório Peralta, mas acabou
perdendo de novo para Dogo, que se despedia dos ringues
lutando em casa e, segundo a própria imprensa
uruguaia da época, foi claramente favorecido.
Luizão já não era o mesmo após
tantas pancadas e começou a perder lutas consideradas
fáceis, como contra o argentino Andrés
Selpa, bem menor e derrotado em confronto anterior entre
eles. Mas como era garantia de platéia cheia,
suas lutas eram incessantemente promovidas pelos empresários,
mesmo que os golpes na cabeça não o tivessem
deixado intacto. Era o início do fim de Luizão,
então com apenas 30 anos.
O boxeador acabou desenvolvendo certa sensibilidade
aos golpes na região da cabeça, exibindo
sintomas da ‘demência pugilística’
– ou, no jargão do esporte, ficou ‘sonado’.
Tanto que posteriores exames médicos decretaram
sua esperada aposentadoria dos ringues. Nem precisava:
sua gagueira, a fala pastosa e o andar cambaleante já
denunciavam o estrago feito pelas lutas, muito embora
ele acusasse Kid Jofre de espalhar tais histórias.
Em 1970, o já ex-lutador corria pelas ruas da
Casa Verde, treinando para um prometido retorno que
nunca ocorreu. Os vizinhos o chamavam de louco, mas
Luizão pouco se importava. “O boxe brasileiro
deve muito a este negro”, dizia ele, certo que
os ringues o acolheriam novamente.
Em reportagens da época, consta que sem uma
carreira para defender e condenado ao ostracismo, Luiz
Ignácio teria ido morar como mendigo nas ruas.
Constantemente envolvido em brigas com marginais, acabou
morrendo aos 48 anos como indigente, após um
fulminante ataque cardíaco. Entretanto, a família
e a Federação Paulista de Boxe negam esta
versão, garantindo que os bens acumulados durante
a carreira conseguiram providenciar conforto ao Martelo
Negro até suas últimas horas.
Seja qual for a versão verdadeira, o destino
pouco ajudou o final daquele que providenciou tantas
alegrias à nobre arte brasileira. Sem dúvida,
o boxe brasileiro ainda hoje deve muito a este negro. |