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28/02/2007
luiz ignácio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
O boxe brasileiro "deve muito a este negro"

Por Emanuel Colombari , especial para a GE.Net

Foto: Acervo/Gazeta Press
Foto: Acervo/Gazeta Press

Nome: Luiz Ignácio da Silva
Data de nascimento: 22 de maio de 1929
Local de nascimento: Piracicaba (SP)
Falecimento: 1° de agosto de 1977, em São Paulo, SP
Cartel: 52 lutas, 37 vitórias (20 por nocaute), quatro empates e 11 derrotas.
Principais Títulos: Forja de Campeões (53), Pan-americano (55), Brasileiro (56) e Sul-americano (59).
Curiosidades: Casado com Jacilda Baptista, Luizão teve quatro filhos: Júlia Maria, Luiz Roberto, Rosângela e Roseli, sendo que Rosângela foi uma das Mulatas do Sargentelli. Colecionador de chapéus e sapatos, admirador de blues e jazz, Luizão chegou a compor e gravar.

O boxe vivia um período áureo entre as décadas de 50 e 60 no Brasil. Entre tantos nomes que abrilhantavam a nobre arte da época, como Éder Jofre, Ralph Zumbano e Kaled Curi, o de Luiz Ignácio da Silva pode passar de maneira quase discreta entre os próprios admiradores da modalidade. Mas a história dos pugilistas brasileiros deve muito a Luizão, o primeiro a trazer uma medalha de ouro para o Brasil em ringues dos Jogos Pan-americanos.

Nascido em Piracicaba no dia 22 de maio de 1929, Luiz se contagiou pelo vírus dos ringues em 1950. Mais exatamente no dia 22 de abril, quando assistiu a luta-exibição do lendário campeão Joe Louis contra Walter Hafer no Rio de Janeiro. A partir daí, era destino do entusiasmado garoto se tornar o maior meio-pesado e um dos maiores pugilistas do país.

De volta a Piracicaba, Luizão começou a se dedicar aos treinos, ao mesmo tempo em que trabalhava como carregador da Estrada de Ferro Sorocabana na qual o porte físico do garoto já impressionava até mesmo gente como o então deputado Jânio Quadros. Em visita à cidade, o futuro presidente usou de sua influência para conseguir a Luiz um emprego de contínuo, para que pudesse poupar seu físico e dedicar-se às lutas, mesmo que o próprio garoto não levasse o esporte muito além de uma simples diversão.

A dedicação, porém, cresceu. Com aval dos chefes e seguindo orientação de Adhemar Ferreira da Silva, seu vizinho de infância, mudou-se para a capital para treinar no São Paulo Futebol Clube. Seu estilo ágil e seu poder de punch logo fizeram com que o clube o lançasse na Forja de Campeões de 53, na qual garantiu o título com nocautes em todos os combates. Após o título, equivalente ao Campeonato Paulista amador, Luizão conquistou o Pan-americano amador de 54, no México.

No entanto, o ponto mais alto da carreira veio em 1955. Foi quando o já nacionalmente conhecido Luizão conquistou a medalha de ouro nos Jogos Pan-americanos, disputados na Cidade do México, abrindo o caminho para os próximos cinco títulos que o país conquistaria em Pans.

Na campanha rumo ao local mais alto do pódio, o ‘Martelo Negro’ precisou passar pelo mexicano Lorenzo Valles e pelo argentino Abel Omar Escalante. Sem dificuldades, nocauteou o primeiro e venceu o segundo por pontos, faturando a medalha do peso meio-pesado (até 81 kg). Depois de duas pratas em 51, em Buenos Aires, o Brasil abria caminho para uma trajetória vitoriosa no continente.

No mesmo ano, Luizão faturou o título brasileiro dos meio-pesados. Em sua décima luta como profissional, enfrentou Nelson de Andrade e simplesmente não deu chances ao rival: no dia 11 de novembro de 55, demolia Nelson com um nocaute no segundo round. No ano seguinte, ainda confirmou o título ao vencer Waldemar Adão por nocaute técnico no quinto assalto. Detalhe: Waldemar disputava os pesos pesado.

Com fama crescente na América do Sul, Luizão foi derrotado por pontos em um desafio contra o chileno Humberto Loyaza em abril de 56. Insatisfeito, pediu revanche no mês seguinte e levou novamente a pior: desta vez, acabou nocauteado ainda no primeiro assalto, após violenta troca de golpes com Loyaza. A partir daí, a já ressaltada instabilidade de Luizão nos ringues ganhou mais força e os contínuos golpes na cabeça começaram a cobrar seu preço.

Em julho, o desafio foi contra o argentino Hector Wilson, antes que fosse implantada, na década de 70, a regra que impede um boxeador nocauteado de voltar aos ringues antes de três meses. Ainda no final do ano, pediu a segunda revanche contra Loyaza e, desta vez, não deu chances: devolveu o nocaute.

A maior luta de Luizão, porém, ainda estava por vir. Em janeiro de 1958, o então campeão mundial dos meio-pesados Archie Moore foi convidado para lutar em São Paulo, onde cruzaria o caminho do brasileiro. Veterano, mas ainda um dos lutadores mais técnicos da época, Archie aceitou.

Era a grande oportunidade de projeção de Luiz Ignácio, que poderia disputar uma revanche contra Moore nos EUA caso vencesse. Então com um cartel de 22 vitórias (15 por nocaute) e um empate em 25 lutas, Luizão subiu ao ringue no dia 18 de janeiro de 58 para enfrentar Moore, com nada menos do que 134 vitórias em 158 lutas, sendo 89 por nocaute.

O que era para ser apenas uma exibição no Ginásio do Ibirapuera, a primeira de um brasileiro contra um norte-americano na história, se transformou praticamente em uma guerra técnica: Luizão suportou quatro assaltos, até que se animou com uma seqüência de jabs em Archie, que pegou o brasileiro com a guarda baixa e acertou-lhe um violento contra-golpe no queixo. Desestabilizado e com a boca jorrando sangue, o brasileiro apenas evitava o confronto próximo, como havia orientado seu técnico Kid Jofre. O desafiante, vendo as pernas do adversário bambearem, então não se animou a persegui-lo e venceu por pontos, ao final do décimo assalto.

Mesmo assim, aquela luta valeu o convite de Moore a Luizão e Éder Jofre para treinar nos EUA. Segundo Éder, seu pai teria proibido que ele fosse, mas havia permitido que o amigo seguisse o norte-americano. Luizão morreu garantindo o contrário e condenando Kid Jofre pela carreira internacional que não decolou. Maior amargor para ele, que não escondia lutar por dinheiro para poder dar um futuro confortável aos quatro filhos, à esposa Jacilda e para construir um palacete no bairro da Casa Verde, em São Paulo, onde morava.

Em 59, Luizão foi a Montevidéu disputar o título sul-americano dos meio-pesados contra o uruguaio Dogomir 'Dogo' Martínez. Derrotado em ringues uruguaios, venceu por pontos na revanche em São Paulo. Ainda conseguiu defender o título contra o argentino Gregório Peralta, mas acabou perdendo de novo para Dogo, que se despedia dos ringues lutando em casa e, segundo a própria imprensa uruguaia da época, foi claramente favorecido.

Luizão já não era o mesmo após tantas pancadas e começou a perder lutas consideradas fáceis, como contra o argentino Andrés Selpa, bem menor e derrotado em confronto anterior entre eles. Mas como era garantia de platéia cheia, suas lutas eram incessantemente promovidas pelos empresários, mesmo que os golpes na cabeça não o tivessem deixado intacto. Era o início do fim de Luizão, então com apenas 30 anos.

O boxeador acabou desenvolvendo certa sensibilidade aos golpes na região da cabeça, exibindo sintomas da ‘demência pugilística’ – ou, no jargão do esporte, ficou ‘sonado’. Tanto que posteriores exames médicos decretaram sua esperada aposentadoria dos ringues. Nem precisava: sua gagueira, a fala pastosa e o andar cambaleante já denunciavam o estrago feito pelas lutas, muito embora ele acusasse Kid Jofre de espalhar tais histórias.

Em 1970, o já ex-lutador corria pelas ruas da Casa Verde, treinando para um prometido retorno que nunca ocorreu. Os vizinhos o chamavam de louco, mas Luizão pouco se importava. “O boxe brasileiro deve muito a este negro”, dizia ele, certo que os ringues o acolheriam novamente.

Em reportagens da época, consta que sem uma carreira para defender e condenado ao ostracismo, Luiz Ignácio teria ido morar como mendigo nas ruas. Constantemente envolvido em brigas com marginais, acabou morrendo aos 48 anos como indigente, após um fulminante ataque cardíaco. Entretanto, a família e a Federação Paulista de Boxe negam esta versão, garantindo que os bens acumulados durante a carreira conseguiram providenciar conforto ao Martelo Negro até suas últimas horas.

Seja qual for a versão verdadeira, o destino pouco ajudou o final daquele que providenciou tantas alegrias à nobre arte brasileira. Sem dúvida, o boxe brasileiro ainda hoje deve muito a este negro.

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