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Por Fernando Narazaki
Um jantar em um restaurante italiano. Foi apenas desta forma
que o paulista Miguel de Oliveira percebeu a proporção de
um título mundial de boxe. Apenas na madrugada de 8 de maio
de 1975, o pugilista se deu conta do que conquistara há três
horas.
Por volta das 21h da quarta-feira, 7 de maio de 1975, o
atleta nascido em Lençóis Paulista, interior de São Paulo,
era aclamado o vencedor na luta contra o espanhol Jose Luis
Duran. Era a redenção para Miguel de Oliveira, que havia perdido
a chance de levantar o cinturão dos meio-médio-ligeiros em
duas oportunidades contra o japonês Koichi Wajima - empatou
a primeira e perdeu a segunda luta.
Miguel lembra de todos os detalhes do dia histórico em que
coroou a carreira de 56 lutas. "Acordei logo de manhã, lá
pelas 8h, e fui fazer uns exercícios. Almocei e fiquei concentrado.
Não via mais ninguém além do Duran. A torcida gritando, a
agitação de todos, nada me distraía", recorda.
O pugilista começou muito bem a luta e derrubou o adversário
logo no primeiro assalto. "Encaixei o golpe e derrubei. Estava
muito bem e consegui derrubá-lo novamente no terceiro. Era
o meu dia e estava acertando praticamente tudo", comenta Miguel.
O maior temor veio no quarto assalto, quando Duran abriu
o supercílio do brasileiro. "Eu me assustei naquela hora.
Fiquei com o supercílio aberto e achei que aquilo poderia
me atrapalhar. Mas, eu permaneci calmo e consegui manter o
domínio da luta", recorda.
Mesmo com o supercílio sangrando, o brasileiro prosseguiu
melhor no ringue e venceu a luta por decisão unânime dos jurados
após 15 assaltos. O italiano Dino Ambrosini deu vitória por
149 a 146, mesmo placar do árbitro da luta. Já o francês Raymond
Baldyerou apontou o brasileiro como vitorioso por 149 a 143.
"Foi sensacional. Não sei te descrever até hoje o que senti
naquela hora. É a realização total de um pugilista. É o ponto
mais alto de sua carreira e você lembra de tudo que precisou
enfrentar para chegar lá. Foi muito sofrido, venci o descrédito
de muita gente e alcancei o feito do Jofre", diz Miguel, lembrando-se
da conquista de Éder Jofre, que foi campeão dos pesos penas
em 1960 e dos pesos leves em 1973.
Entretanto, até aquele momento, o pugilista ainda não havia
percebido o que atingira. "Fui jantar umas três horas depois
da luta e só então percebi que era campeão mundial. Quando
cheguei lá, o restaurante estava lotado (três dias depois
era disputado o GP de Mônaco de F-1), com todo aquele clima
da F-1. Não ia conseguir vaga e já estava pensando em ir embora",
lembra.
Subitamente, o pugilista viveu uma situação inesperada.
"Uma pessoa da minha equipe veio e disse que eu era campeão
mundial. Foi a glória. O pessoal do restaurante fez questão
de abrir uma mesa e fui aplaudido de pé por várias pessoas
que jamais havia visto na vida, incluindo vários pilotos da
F-1. Foi demais. Eu me arrepio até hoje, quando lembro daquela
cena. Só naquela hora, percebi o que era ser campeão mundial
de boxe", confessa.
No dia seguinte, lá estava Miguel de Oliveira na pista de
Monte Carlo, uma das mais tradicionais do automobilismo. "Dei
uma volta no circuito todo para conhecer e fiquei parado,
antes da entrada do túnel. Lembrei de tudo que fiz e percebi
que já não precisava mais conquistar nada na carreira", recorda.
Uma semana depois, o pugilista estava de volta ao Brasil.
Foi recebido com carro de bombeiros, desfile pela cidade e
recebeu várias homenagens.
Para o paulista, a maior lembrança foi a ida para a casa
do prefeito de Osasco. "Ele sempre me apoiou na carreira e
merecia. Levei o cinturão para ele ver. Ele estava dormindo
e não acreditou, quando me viu. Foi uma justa homenagem para
uma pessoa que sempre confiou em mim", explica.
Sete meses depois, Miguel de Oliveira foi derrotado e perdeu
o cinturão. A carreira foi encerrada pouco tempo depois, com
50 vitórias, sendo 25 por nocaute, cinco derrotas e um empate.
"Fiz o máximo que um pugilista pode fazer. Não tinha mais
razão para ficar nos ringues. Já não tinha a mesma motivação.
Cheguei no ponto máximo e pude encerrar a carreira, falando
que fui campeão do mundo".
Palavras de um lutador, que aprendeu a arte do boxe aos
12 anos de idade. Com apenas 17 anos, ele foi vencedor da
Forja dos Campeões em 1974 e despontou para a vencedora carreira.
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