Comaneci: a graça e
a perfeição arrebatam o mundo
Por Fernando Barbosa
Uma mistura de graça, técnica e beleza arrebatou o mundo
em 1976. Nada seria como antes depois da apresentação
da romena Nadia Comaneci, aos 14 anos, nas provas de ginástica
artística dos Jogos Olímpicos de Montreal. A série de
notas 10, como jamais se havia visto, tentava traduzir
a perfeição dos movimentos da pequena ginasta, que se
tornou o símbolo daquela Olimpíada e acabaria imortalizada
entre os maiores esportistas do século.
Nadia sairia do Canadá consagrada com três medalhas
de ouro, uma de prata e uma de bronze, consolidando a
reputação da escola romena e do técnico Bela Karolyi,
responsável depois pelo sucesso das ginastas norte-americanas.
Se quatro anos antes, em Munique/72, os feitos de Mark
Spitz na natação acabaram obscurecidos pelo covarde atentado
do Setembro Negro, em Montreal nada superaria o impacto
causado pelas apresentações de Nadia Comaneci. Por uma
vez, o ódio político e racial, os punhos cerrados de protesto
do Black Power e até a Guerra Fria, que conduziria ao
boicote sucessivo nos Jogos de Moscou/80 e Los Angeles/84,
ficariam em segundo plano.
Nascida em 1961, Nadia foi para o Jardim de Infância
aos três e anos e teve na escola as primeiras noções de
ginástica, com Marcel Duncan. A coisa se tornou séria
quando entrou para o recém-criado clube de ginástica A
Chama, com a técnica Marta Karolyi (mulher de Bela Karolyi)
e Valeriu Munteanu. Dois anos depois, graças ao seu talento,
estaria com Marta e Bela na nova Escola de Ginástica.
Em 1970, estreou em uma competição nacional e ajudou sua
cidade, Onesti, a se tornar campeã. Nos dois anos seguintes
conquistou todos os títulos nacionais júniores. Em 1971,
venceu sua primeira competição internacional, em Ljubljana,
na então Iugoslávia.
Em uma antecipação do que o mundo veria em Montreal, Nadia
parte em 1974 para uma exibição na França com a equipe romena.
Lá ela se confrontaria com a grande estrela da ginástica
soviética Ludmilla Tourisheva, a quem considerava um ídolo.
Nádia e sua amiga Teodora Ungureanu roubam a cena.
Em 1975, Nádia se firma entre as estrelas do esporte
ao conquistar os principais títulos no Campeonato Europeu
de Ginástica, em Skien, na Noruega. Mais uma vez, ela
venceria Tourisheva e a jovem revelação soviética Nelli
Kim, de 16 anos. Nádia ficaria com o ouro na trave, barras
assimétricas e no salto sobre o cavalo e a prata no solo.
Ganha em votação da Associated Press o título de Atleta
do Ano.
Estava tudo pronto para o grande show de Montreal. Antes,
em março de 1976, a estrela romena visita pela primeira
vez os Estados Unidos. Nádia participa de um torneio exibição,
a América Cup, em Nova York e conquista duas notas 10,
no salto sobre o cavalo e no solo. Coincidência ou capricho
do destino, no masculino, o vencedor foi norte-americano
Bart Conner, seu futuro marido. Os dois compartilham os
aplausos do público e Bart arrisca um beijo no rosto de
Nádia na hora da premiação.
A apresentação da equipe romena e de Nádia nos Jogos
seria arrasadora. No dia 18 de julho, nos exercícios obrigatórios
por equipes, ela ganha o primeiro 10 em uma Olimpíada
nas barras assimétricas. No dia seguinte, nos exercícios
livres, mais duas notas 10 de Nádia, na trave e nas barras.
A Romênia fica com a prata por equipes.
Começam as apresentações livres individuais. Dia 21,
outro 10 nas barras e na trave. Nadia fica com o ouro.
Dia 23, finais individuais e a consagração com as notas
máximas nas barras assimétricas e na trave. Ela ainda
terminaria em terceiro no exercício de solo (bronze) e
quarto no salto sobre o cavalo. No total, foram três medalhas
de ouro, uma de prata e outra de bronze. O que ninguém
sabia é que Nádia chegou a Montreal torturada por uma
terrível dor no nervo ciático e sem esperança de conquistar
sequer uma medalha de ouro.
Do dia para a noite, Nadia Comaneci tornou-se uma celebridade
mundial. A silhueta graciosa de menina de 1,25m e 39 quilos
seria capa das principais revistas do mundo. Nadia concede
dezenas de entrevistas e desperta análises e mais análises
sobre seu desempenho, que mudaria os conceitos da ginástica
a partir dali. Alvo preferencial dos fotógrafos, é flagrada
em todas as poses, nos exercícios, nas comemorações e
até abraçando uma boneca.
Volta para a Romênia como ídolo e vira um símbolo para
o sombrio regime comunista implantado pelo ditador romeno
Nicolau Ceausescu. Só muito mais tarde surgiriam as notícias
de abuso sexual por parte de autoridades, dirigentes (o
ditador e seu filho) e até técnicos.
Nádia ainda brilha no circuito europeu e em aparições
no Japão e nos Estados Unidos. Mas, tempos difíceis estavam
por vir. Em 1977, sofre com a separação dos pais. Seu
corpo já começa e revelar as mudanças para a idade adulta.
O técnico Bela Karolyi é afastado sem maiores explicações
das autoridades romenas e Nádia passa a ser treinada por
Gheorghe Condovic, Iosif Hidi e Antanasia. Em 1978, a
atleta é hospitalizada com sintomas de envenenamento,
em um episódio nunca explicado, que despertou vários rumores.
Nesse ano, mais alta e mais pesada (cerca de 1,35m e 48
quilos), tem uma participação apagada no Mundial de Estrasburgo,
na França e nem compete no campeonato nacional da Romênia,
onde brilha a estrela nascente de Emília Eberle.
Comaneci ressurge insuperável no Campeonato Europeu
de 1979, novamente com Bela Karolyi, e fica com o ouro
na competição geral pela terceira vez. Mas, em dezembro,
é obrigada a abandonar o Mundial, disputado em Fort Worth,
no Texas (EUA) por problemas físicos. A Romênia vence
a competição por equipes.
Os Jogos de Moscou em 1980 são marcados pelo boicote
de países ocidentais, liderado pelos Estados Unidos. A
presença de Nadia Comaneci é destaque na ginástica. Ela
perde a medalha de ouro nas apresentações combinadas para
a russa Yelena Davidova, depois de 27 minutos de debates
dos juízes. Mas, fica com o ouro nas finais individuais
da trave e do solo e a prata no salto sobre o cavalo e
encerra sua carreira olímpica com cinco medalhas de ouro,
três de prata e uma de bronze.
No ano seguinte, enquanto o técnico Bela Karolyi aproveita
um giro com a equipe romena para se asilar nos Estados
Unidos, Nádia disputa sua última grande competição e ganha
cinco medalhas de ouro nos Jogos Universitários Mundiais
(Universíade), realizados em Bucareste, na Romênia. Suas
aparições públicas são cada vez mais raras. Em 1984, algumas
semanas antes da abertura dos Jogos de Los Angeles, aos
22 anos, anuncia sua retirada oficial das competições.
Conclui o curso no Instituto de Educação Física e Esportes
em Bucareste e passa a trabalhar como treinadora na Federação
Romena.
Em 1989, Nadia Comaneci volta a deixar o mundo em suspense.
Em uma fuga espetacular pela Hungria, ela tenta se livrar
do domínio do decadente regime romeno. Durante dias não
se tem notícia sobre seu paradeiro. Alguns temem que a
polícia secreta de Ceausescu tente recapturar ou até matar
sua estrela maior. A embaixada norte-americana em Viena,
na Áustria, anuncia a concessão de asilo.
Nádia Comaneci reaparece no Canadá. Em entrevistas,
diz que fugiu com a ajuda de Constantin Panait, a quem
teria pago US$ 5 mil. Surgem rumores de que Panait manteria
controle sobre a vida da ex-atleta e até de abuso sexual.
Até hoje ela não gosta de falar sobre esse período. Passa
a viver no Canadá com o técnico de rúgbi romeno
Alexandru Stefu e sua esposa, em uma relação que choca
e surpreende seus fãs. Irreconhecível, fora de forma,
Nádia participa de algumas exibições de ginástica.
Nesse período volta a manter contato com Bart Conner,
medalha de ouro da ginástica pelos Estados Unidos nos
Jogos de Los Angeles/84. Em 1991, Stefu morre em um estranho
acidente. Conner convida Nádia para trabalhar na academia
de fundou em Oklahoma, nos EUA. Em novembro de 1994, Conner
faz o pedido de casamento em um hotel em Amsterdã na Holanda,
no aniversário de 33 anos de Nádia. Ela aceita. Antes
os dois realizam uma viagem de volta à Romênia, já livre
da ditadura de Ceausescu, onde o pai de Nádia aprova a
união da filha.
Nos Estados Unidos, Nadia Comaneci recupera o status
de uma das grandes estrelas do esporte. Em 1999, em Viena,
é uma das homenageadas na cerimônia que premia os maiores
atletas no século, ao lado de lendas como Muhammad Ali,
Pelé e Alain Prost, entre outros.
Passa a se dedicar a diversas causas humanitárias e
do esporte. Em dezembro de 2000, faz o discurso no lançamento
do Ano Internacional do Voluntariado. Em junho de 2001
se torna cidadã norte-americana e em outubro apresenta
sua candidatura ao conselho de atletas do COI (Comitê
Olímpico Internacional). O brilho da estrela está de volta.