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Popó, o maior em Las Vegas

Nelson Urt

O país amanheceu domingo, 13 de janeiro de 2002, com mais um grande campeão. Popó dobrou a fera cubana Joel Casamayor em doze assaltos, no ringue de Las Vegas, e unificou os cinturões da Organização Mundial, da qual era campeão, e da Associação Mundial de Boxe. Uma vitória oferecida ao pai, um ex-apontador de jogo do bicho em Salvador.

O velho Niljalma acaba de vencer uma luta contra o câncer e esperava pelo momento de consagração do menino no ringue de Las Vegas. Olhos fixos na tevê, corpo imóvel, sempre calado, Niljalma sofreu silenciosamente durante os doze assaltos em que viu o filho saltitar o tempo todo para escapar da esquerda mortal do cubano e abrir brechas para sua direita demolidora.

Todos esperavam muito mais de Casamayor, medalha de ouro da Olimpíada de Barcelona, até ali invicto em 26 lutas. Mas quem se agigantou no ringue foi o pequeno Acelino, medalha de prata no Pan de 95 em Mar del Plata, calando a boca do tagarela.

Uma luta decidida nos detalhes. No terceiro assalto, mesmo sem ter acertado o golpe, Popó conseguiu desequilibrar e derrubar o adversário, que se irritou ao ver o árbitro abrir contagem, perdendo ali preciosos pontos. Casamayor também pecou por insistir em golpes irregulares. Acertou cabeçadas e um golpe na nuca de Popó.

O lutador brasileiro entrou para os últimos rounds sabendo que estava em vantagem e procurou administrar a luta, sem dar espaço para o golpe de esquerda do cubano. Popó abandonou o estilo pegador, que lhe rendeu 29 nocautes seguidos, para imprimir um ritmo mais técnico e calculista. Venceu merecidamente por pontos, numa decisão unânime dos três jurados e com igual contagem de 114 a 112.

Agora ele entra definitivamente para o clube dos grandes campeões do boxe brasileiro, igualando-se ao galo (e pena) Éder Jofre e ao médio-ligeiro Miguel de Oliveira, que também ostentaram o cinturão da Associação Mundial de Boxe.

Terço enrolado entre os dedos, a voz emocionada presa na garganta, dona Zuleica, a mãe, olhava para os céus e agradecia a Nosso Senhor do Bonfim. A família baiana oferecia toda a sua gratidão pela vitória do seu herói Acelino, que um dia já foi catador de lixo nas ruas de Salvador para lutar contra a pobreza dos pais.

Primeiro veio a luta contra a fome, depois diante dos leões do ringue. Um a um, todos foram caindo diante do bravo pegador. Em 99, ele derrubou o russo Anatoly Alexandrov em menos de dois minutos, em Cannes, para se tornar o campeão da Organização Mundial de Boxe. Nenhum deles, é verdade, tinha a expressão e o cartel de Casamayor. Mas Popó cumpriu a promessa feita antes da luta de transformá-lo num mero "Casamenor".

 

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