Romero: longevidade
e cinco Olimpíadas
Por Elói Silveira
| Foto: Acervo/Gazeta Press |
 |
Nome completo: Rogério
Aoki Romero
Data de nascimento: 22/11/1969
Local: Londrina (PR)
Altura: 1,81m
Peso: 70 kg
Residência: Belo Horizonte
(MG)
Principais conquistas: ouro nos
200m costas no Pan-americano de Havana-1991 e no
de Santo Domingo-2003; e bronze no Pan-americano
de Mar del Plata-1995. Na mesma prova, ainda foi
sétimo colocado nas Olimpíadas de
Sydney-2000 e oitavo nas Olimpíadas de Seul-1988.
Outros feitos: participou de cinco
Olimpíadas e três Pan-americanos e
foi o porta-bandeira da delegação
brasileira no encerramento do Pan de Santo Domingo.
Participações olímpicas:
Seul-88, Barcelona-92, Atlanta-96, Sydney-00, Atenas-04 |
Apontada como um dos esportes mais duros para os atletas
que o praticam, a natação tem por tradição ver grandes
nomes encerrarem a carreira antes mesmo dos 30 anos.
Um bom exemplo é o do australiano Ian Thorpe, que se
aposentou aos 24. No Brasil, porém, um atleta mostrou
que nem sempre a idade é suficiente para barrar sonhos
e resultados expressivos. Este atleta foi Rogério Romero.
Natural de Londrina, Paraná, Romero demonstrou o interesse
pela natação logo cedo, com seis anos, nas piscinas
do Clube Acel. A partir daquele momento, passou a ser
incentivado por treinadores, obteve bons resultados
e optou de vez pelo nado costas, que o consagraria mais
tarde - durante quase 20 anos - como um dos maiores
nadadores do país na modalidade.
Mas mesmo com carreira longa e de sucesso, um de seus
primeiros momentos marcantes foi a decepção por não
participar dos Jogos Pan-americanos de Indianápolis,
em 1987. Na época, havia obtido marcas satisfatórias,
mas como o índice ainda não havia sido colocado em prática
como critério de classificação, foi preterido do grupo
por não ter “experiência suficiente”.
Decepção que foi curada no ano seguinte, com seu primeiro
recorde sul-americano nos 200m costas. Com a marca,
ainda garantiu classificação para as Olimpíadas de Seul,
onde viveu grande momento. Aos 18 anos, foi à final
e terminou com a oitava colocação, feito enorme numa
época em que a natação enfrentava entressafra de talentos.
Romero voltou ao Brasil como estrela e promessa para
o futuro e iniciou período de preparação forte, visando
as Olimpíadas de Barcelona. Antes, porém, conseguiu
outro feito: sua primeira medalha importante representando
o Brasil. Ela veio no Pan de Havana, em 1991. Em sua
primeira participação na competição, mostrou grande
forma ao conquistar o ouro em sua prova favorita. A
sensação, porém, foi outra em relação a 88 por alguns
motivos, como ele próprio citou.
“Em Havana teve pódio, bandeira e hino do Brasil,
o que traz aquela sensação de orgulho de ser brasileiro.
Foi especial também pelos problemas e pelos resultados
que obtive e acabou servindo de combustível até Barcelona”,
lembra Romero. O problema em questão foi uma contusão
no ombro sofrida três meses antes do Pan e tratada com
sucesso após 50 sessões de fisioterapia e muita dedicação
para que o risco de cirurgia acabasse.
A boa fase se estendeu até 92, quando entrou em Barcelona
em seu “auge físico”. Mas mesmo com tempo melhor que o
de Seul - que lhe rendeu mais um recorde sul-americano
-, não garantiu vaga na final A e foi o segundo na final
B, ou seja, décimo do mundo nos 200m costas, resultado
que não o satisfez.
Com o término das Olimpíadas, apareceu nova série
de “torneios menores” em termos de mídia e fase diferente
em sua cabeça. O reflexo veio no Pan de Mar del Plata,
em 95, onde conseguiu “apenas” prata no revezamento
4x100m medley e bronze nos 200m costas, pouco para quem
estava no topo quatro anos atrás. Com índice para Atlanta,
em 96, Romero caiu de produção, não competiu bem em
sua terceira Olimpíada e encerrou com o sétimo melhor
tempo na final B.
O desempenho mexeu bastante com sua cabeça. “Estava
novamente entre os 16 melhores, porém aquilo não me
agradava mais, além da minha cobrança pessoal ter ficado
mais alta”, explica. Perto dos 27 anos, resolveu então
se aposentar. Em evento em Santos, recebeu até homenagens
pelos feitos, mas ainda obteve índice para o Mundial
do ano seguinte, o que pôs em dúvida sua decisão.
| Fora das piscinas, um homem
pacato e agora político |
| Fora das piscinas, Rogério Romero sempre foi caseiro,
amante da música e dedicado a projetos pessoais.
Por volta de 1996, ainda quando se destacava como
atleta, juntou-se ao irmão Julian e criou jornal
voltado ao esporte, mostrando, então, dotes de jornalista.
Na época, chegou até a cogitar exercer a profissão,
mas abandonou o gosto mais para frente. Em casa,
mantinha-se sempre ao lado do computador e do
aparelho de som, hoje trocado pelo moderno Ipod.
Mas a novidade não o impediu de seguir ouvindo
os mesmos rock n’ rolls e blues que cultivava
em discos. Da natação, além de medalhas e recordes,
guardou outras recordações preciosas, como o casamento
com a também nadadora Patrícia Comini, em 2000.
Da união, mais um presente: a filha Beatriz, nascida
no início de 2006.
O que também não saiu da memória do atleta foram
algumas histórias de seus tempos de “república”.
Em boa parte da carreira, Romero encarou moradias
com atletas e uma delas foi marcante. “Aprendi
muito com a diversidade de pessoas com quem convivi.
(Não esqueço) A morte da governanta que trabalhou
conosco até sua aposentadoria, a saudosa Cidinha.
Não tenho medo de dizer, foi como uma segunda
mãe não apenas para mim, mas para uma centena
de nadadores que a conheceram - e foram xingadas
por ela - na república do Minas”.
Outra mudança em sua vida foi a entrada na política.
No primeiro mandato de Aécio Neves no Governo
de Minas Gerais, assumiu como subsecretário de
esportes com a responsabilidade de seguir projetos
para o desenvolvimento de modalidades olímpicas.
Com Aécio reeleito, subiu de cargo e passou a
secretário-adjunto do estado. |
Após deixar as piscinas, saiu de Belo Horizonte e
retornou a Londrina, com pretensões de se restabelecer
por lá. Por outro lado, a manutenção de boas marcas
e incentivos do treinador Reinaldo Dias fizeram com
que ele voltasse rapidamente ao esporte, menos de um
mês após a “aposentadoria”. “Ao final do ano, com índice
para outro mundial e a nova proposta do Minas, resolvi
dar uma chance e, logicamente, não me arrependo em momento
nenhum”.
Mas o retorno só aconteceu graças ao novo estilo de
treinamento e de objetivos para o futuro. Mais solto
e sem focar resultados concretos, obteve boas marcas
e, em 99, partiu para nova empreitada, desta vez nos
EUA, ao lado de um grupo de nadadores. Neste período,
enfrentou altos e baixos pela difícil adaptação e não
conseguiu índice para o Pan de Winnipeg, onde viu seus
recordes caírem nas vitórias Leonardo Costa, nos 200m
costas, e Alexandre Massura, nos 100m.
Nada, porém, o tirou do caminho. Decidido a seguir,
ouviu do técnico que ainda tinha chances de conseguir
índices olímpicos e manteve as esperanças e os treinamentos.
O resultado foi a recuperação dos recordes sul-americanos
ainda naquele ano e, de quebra, o índice para Sydney,
sua quarta Olimpíada. A confiança na aposta deu resultado
e Rogério, já acima dos 30 anos, fez sua melhor campanha
nos Jogos, com o sétimo lugar nos 200m costas.
“Se alguém me perguntasse a quantas Olimpíadas imaginava
estar como atleta, responderia que estaria felicíssimo
com duas participações e não estaria mentindo. Por isso,
foi bacana estar novamente em uma final olímpica”, lembra
ele.
Satisfeito, mas ainda lutando, obteve outra façanha,
talvez a maior delas. Aos 33 anos, foi ao Pan de Santo
Domingo e deu ao Brasil nova medalha de ouro. Como conseguiu
isso com idade tão avançada, ele mesmo respondeu. “Procurei
sempre desenvolver novas maneiras de treinamento, sem
medo, apesar de cada vez mais me questionar ao longo
do tempo. Acredito que um melhor conhecimento do corpo,
dos adversários, do treinamento, novas técnicas, alimentação
adequada, acabaram se concretizando na experiência adquirida”.
Para completar, ainda foi escolhido para carregar
a bandeira brasileira na cerimônia de encerramento,
decisão tomada pelo COB pelos excelentes serviços prestados
ao longo da carreira.
Os dois anos que se seguiram foram de bons e maus
momentos, mas que não chegaram a manchar seu currículo.
Pelo contrário, ainda alcançou índice para sua quinta
Olimpíada, em Atenas, onde mais uma vez não foi à final
A. “Fui a Atenas com um objetivo: curtir. Logicamente
treinei sério, como sempre, e o resultado foi bom, porque
fiquei mais uma vez entre os 16”.
Em 2005, Romero não conseguiu mais domar o tempo.
Com 35 anos, longe de suas melhores marcas e do que
o deixaria satisfeito, resolveu encerrar a carreira,
desta vez sem aberturas para retorno. E também sem festas
e anúncios. “Avisei apenas a Confederação e o meu clube.
Mas a decisão foi fácil de tomar. Já havia conquistado
muito mais do que poderia prever com a natação”.
|