Pioneirismo. Substantivo que requer audácia, determinação,
coragem e que dá significado à trajetória de Billie-Jean
King. Este não é apenas o nome de uma das melhores jogadoras
do tênis do mundo, mas, também, segundo a revista Life,
de uma das 100 personalidades norte-americanas mais importantes
do século 20. Detalhe: nenhum dos 17 presidentes dos Estados
Unidos deste século estava na lista.
Graças à determinação de Billie-Jean, o tênis feminino foi
conquistando espaço entre patrocinadores e público, sendo
tratado nos dias de hoje com o mesmo respeito que o tênis
masculino. Se pudéssemos ler seus pensamentos, talvez até
constataríamos que Billie-Jean não colhia vitórias para
si mas, na verdade, para as tenistas posteriores a sua geração.
Raquete e muitos tênis
No dia 22 de novembro de 1943, a família Moffitt recebia
uma ótima notícia: o bebê, uma menina, havia nascido sem
complicações e repleto de saúde. Apenas mais um nascimento
na cidade norte-americana de Los Angeles, a vinda de Billie-Jean
Moffitt King representaria, embora ninguém pudesse perceber
ainda, uma das mais importantes datas para a história do
tênis feminino.
Desde cedo e ao longo de todo o crescimento, a menina recebia
de seu pai o incentivo à prática esportiva. Engenheiro do
Corpo de Bombeiros de Los Angeles e um dedicado atleta amador,
Bill Moffitt indicou três esportes para Billie-Jean praticar:
tênis (que ironicamente ele não jogava), futebol ou basquete.
No entanto, só ela decidiria se seguiria ou não uma carreira
esportiva.
Billie Jean bem que tentou, mas o basquete não deu certo.
Decidida a investir no tênis, fez de tudo um pouco para
conseguir dinheiro e comprar uma raquete e um par de tênis.
Os pares não duravam muito e precisavam ser substituídos
a cada semana, porque Billie-Jean passou a treinar diariamente
nas quadras públicas de Long Beach. Quem não gostou muito
dessa história foi seu pai, que também se virava para comprar
tantos tênis...
Em 1960, com 17 anos, ela já aparecia em quarto lugar no
ranking feminino norte-americano. Mais um ano de tênis trocados
e finalmente um grande resultado: ela e Karen Hantze, ambas
com 18 anos, tornavam-se a dupla mais jovem a vencer em
Wimbledon. A filha de Bill Moffitt, portanto, ganhara o
primeiro dos 20 títulos que ainda conquistaria em Wimbledon.
A primeira nisso, a primeira naquilo
Com o primeiro título em Wimbledon, Billie-Jean conseguiu
reconhecimento internacional e confiança para continuar
jogando. Ainda desacostumada à rotina dos torneios, pôde
perceber que as disputas não aconteceriam apenas nas quadras.
Lá fora, do outro lado das arquibancadas, estava o maior
dos desafios: lutar contra o preconceito ao tênis feminino.
De início, ela preferiu dar conta das adversárias. A segunda
conquista em Wimbledon viria em 1962, vencendo em duplas
com a parceira Susman. Três anos mais tarde, mais uma conquista
e, desta vez, ao lado de Maria Esther Bueno, a maior tenista
brasileira da história do tênis.
Ainda assim, faltava à jogadora o ponto decisivo: a conquista
individual nas quadras inglesas. Conseguido em 1966, o feito
provava que, cada vez melhor, Billie-Jean começava a registrar
seu nome na história de Wimbledon, tornando-se a recordista
de títulos no templo sagrado do tênis.
Após a última vitória no torneio (1979), com a parceira
Martina Navratilova, sua trajetória poderia ser resumida
em seis títulos individuais, dez em duplas e quatro em duplas
mistas. O recorde de Elizabeth Ryan, que entre 1914 e 1934
ganhara 19 títulos em simples, duplas e duplas e mistas,
já não valia mais.
Em 1968, tornava-se a primeira mulher a assinar um contrato
profissional como auxiliar da Liga Nacional de Tênis dos
Estados Unidos. Estavam no grupo Rosie Casals, Francoise
Durr, Ann Haydon Jones e mais seis homens (Rod Laver, Ken
Rosewall, Pancho Gonzalez, Andrés Gimeno, Fred Stolle e
Roy Emerson). Também neste ano, conquistaria individualmente
o Aberto da Austrália, o de Miami e Perth e, como de costume,
Wimbledon.
Nos intervalos dos torneios, Billie-Jean não tinha outra
coisa a fazer senão engordar sua conta bancária. Em 1971,
tornava-se a primeira mulher, em qualquer esporte, a ganhar
mais de US$ 100 mil em uma única temporada. Ela conquistou
17 dos 31 torneios individuais que disputou e 21 dos 26
torneios em duplas, outro recorde. Os depósitos do ano chegaram
a US$ 117 mil, uma incrível quantia para a época e que,
nos dias de hoje, valeria milhões. Em sua autobiografia,
Martina Navratilova a descreveu como uma "jogadora completa",
que fazia suas adversárias temerem seu backhand.
"Eu dava o saque longo e ela rebatia para baixo, bem na
linha do meu backhand. Eu dizia para mim mesma: 'Diabo,
como é que ela faz isso", escreveu Navratilova. Billie-Jean
impressionava cada vez mais por sua determinação e técnica.
De 66 a 72, ela havia ocupado o primeiro lugar no ranking
mundial cinco vezes. Entre as dez primeiras, porém, nada
mais normal do que encontrar seu nome por 17 anos (a partir
de 1960).
No ano de 1973, apesar das sucessivas operações no joelho,
um desafio pessoal: vencer o tenista Bobby Riggs, de 55
anos, na "Batalha dos sexos". As 30.472 pessoas do Houston
Astrodome e os 90 milhões de telespectadores por todo mundo,
puderam acompanhar uma partida espetacular, precisamente,
pela beleza e qualidade do jogo de Billie-Jean. No final
das contas, o sexo masculino se curvou, amargando uma derrota
por 3 sets a 0 (6/4, 6/3, 6/3). A partida havia crescido
em importância porque meses antes Riggs, ex-tenista profissional,
havia arrasado com Margaret Court, australiana que fez história
no tênis e foi a maior rival de Maria Esther Bueno. Depois
de vencer facilmente Court, Riggs declarou taxativamente
que nunca uma mulher venceria um homem, pouco importando
a diferença da idade. Billie-Jean ficou engasgada com as
declarações e propôs novo desafio, aceito de imediato por
Riggs. Mas desta vez a história teve um final que o falastrão
não esperava.
E surge a Associação feminina
O ato mais importante deste ano, porém, seria a fundação
da Associação Feminina de Tênis (WTA) e, um ano depois,
da Associação dos Esportes Femininos, ambas com a função
de divulgar o esporte e elevar a oportunidade de participação
de mulheres em competições esportivas. Até hoje a WTA comanda
o tênis feminino, cada vez mais forte e prestigiado.
Billie-Jean foi presidente da entidade por vários mandatos
e uma de suas maiores conquistas, como dirigente, foi a
equiparação dos prêmios entre os torneios masculino e feminino
do Aberto dos Estados Unidos.
Com a última vitória individual em Wimbledon (1975) e no
Aberto dos Estados Unidos (1974), mais a única em Roland
Garros (1972) e no Aberto da Austrália (1968), Billie-Jean
entrava para o seleto grupo de oito jogadoras a conseguir,
individualmente, títulos nos quatro torneios do Grand Slam.
Ao seu lado, aparecem nomes como o de Margaret Court, Maureen
Connolly, Shirley Fry, Steffi Graf, Doris Hart, Chris Evert
e Martina Navratilova. De quanto mais torneios participava,
mais vitórias ela conseguia. "Fazendo de tudo pelo tênis",
como disse Martina Navratilova, sua companheira em muitas
partidas de duplas, Billie-Jean encantava público e adversárias,
ganhando títulos em campeonatos de diversos países. Aberto
da Itália, de Tóquio, da África do Sul, Torneio de Estocolmo,
de Perth (Austrália), ou seja, os continentes foram conquistados,
um a um, restando apenas a América do Sul, embora o público
sul-americano tivesse a oportunidade de conferir suas habilidades
em diversas apresentações.
No final da carreira, mais uma surpresa: a incansável batedora
de recordes e limites, tornava-se a mais velha jogadora
a vencer um torneio da liga profissional, conquistando,
aos 39 anos e meio, o Torneio de Birmingham.
Daí, só reconhecimento: responsável, desde 1985, pelo equipe
feminina dos Estados Unidos; integrada ao Hall da Fama do
Tênis Internacional, em 1987; eleita em 5º lugar pela Sports
Illustrated, em 1994, como uma dos 40 atletas que mais contribuíram
para o esporte em quatro décadas; convidada a reintegrar,
em 1995, o conselho diretor da Federação Mundial de Tênis.
Este respeito resulta da paixão da tenista em divulgar e
promover o tênis feminino. Mera conseqüência desta realização,
as vitórias acabam ficando em segundo plano quando as estatísticas
dão lugar a sua personalidade. Guerreira, corajosa e, principalmente,
incansável, Billie-Jean revelaria o verdadeiro valor do
esporte feminino.