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Jaiminho, o herói
de 1992
Gustavo Kuerten ainda era um juvenil, quando batia na bola
inspirado pelas vitórias de um paulista. Foi assim com Guga,
com outros tenistas das mais variadas faixas etárias e com
todos os brasileiros que se rendem às emoções do esporte.
Era início da década de 90. O tênis brasileiro vivia um
hiato, à espera de vitórias marcantes como às de Thomaz
Koch e Edison Mandarino na Copa Davis. Em 1992, Jaime Oncins
resolveu jogar tudo o que sabia. Em Davis, Olimpíada, ATP
Tour ou Grand Slam, não importava onde ou quem estivesse
do outro lado da rede.
Pela primeira vez desde que o Grupo Mundial, com acesso
e descenso, foi instituído em 1981, o time nacional de tênis
fez a torcida brasileira esquecer um pouquinho o futebol,
em 1992. A equipe dirigida por Paulo Cleto era liderada
por Luiz Mattar, tinha a experiente dupla formada por Cássio
Motta e Fernando Roese, mas foi o menino Oncins que decidiu
os confrontos.
No Rio de Janeiro, contra a temida Alemanha de Boris Becker,
Jaiminho conseguiu dois dos cinco pontos em disputa na melhor-de-cinco
válida pela primeira rodada da Davis.Venceu Carl-Uwe Steeb
(6/3, 4/6, 6/2 e 7/6) na sexta-feira e enlouqueceu a torcida
ao bater de virada Markus Zoecke (1/6, 6/4, 7/6, 2/6 e 7/5).
O próximo desafio seria a Itália, outra seleção favorita
mesmo jogando em território brasileiro. Mas a vibração do
público, o forte calor de Maceió e a segurança de Jaiminho
desbancaram outra potência. Mais um triunfo por 3 a 1, novamente
dois pontos cruciais de Oncins: 3 sets a 2 sobre Paolo Cané
(7/6, 4/6, 5/7, 7/5 e 6/3) e vitória sobre Stefano Pescosolido,
que perdia por 6/4, 6/3, 3/6 e 1/0 quando resolveu abandonar
a quadra.
Na fase seguinte, o Brasil caiu diante da Suíça, no carpete,
em Genebra. Não teve como parar o saque eficiente e a pressão
dos voleios de Jakob Hlasek e Marc Rosset Mas a chegada
à semifinal fica para a história como uma das quatro melhores
campanhas de todos os tempos.
Virada sobre Lendl em Paris - A Davis não resumiu
a temporada de 1992 para Jaiminho. Roland Garros reservava
uma das mais agradáveis surpresas para ele. Aos 21 anos
e 72º colocado na lista da ATP, o paulista teria seu ídolo
de infância como adversário: Ivan Lendl, então 11º do ranking
mundial e tricampeão do Aberto francês. Mas o fã não perdoou
o mito e marcou uma das mais incríveis viradas e uma das
mais importantes vitórias da carreira: 3/6, 3/6, 6/3, 6/2
e 8/6.
A partida começou numa quinta-feira e só terminou no dia
seguinte. Lendl tinha 5/4 e saque para garantir passagem
à terceira rodada, quando Jaiminho reagiu e empatou no quinto
set. Inseguro diante da vontade e da precisão do brasileiro,
Lendl usou sua influência e conseguiu interromper o jogo
devido ao mau tempo. Em todas as outras quadras, a paralisação
só ocorreu 15 minutos depois, quando a chuva realmente ficou
forte.
"No último ponto, meu coração estava a mil", comentou,
à época, o brasileiro que até então só havia obtido duas
vitórias no complexo de Roland Garros. "Passei uma noite
horrível, pensando o tempo todo o que poderia acontecer.
Eu me vi no match point, ganhando e perdendo o jogo", prosseguiu,
falando sobre a insônia.
A boa campanha começou com a vitória sobre o alemão Bernd
Karbacher (6/3, 2/6, 7/5, 4/6 e 6/4) e alegria durou mais
uma rodada, quando Jaiminho venceu outro alemão David Prinosil
(6/3, 6/3 e 6/2) na terceira rodada. Nas oitavas, o brasileiro
perdeu pra o tcheco Petr Korda, tão oitavo melhor do mundo,
por 6/4, 6/3 e 6/3.
Jogos Olímpicos: bronze escapa - A temporada 92
ainda guardava boas novidades para Oncins. Nos Jogos Olímpicos
de Barcelona, Espanha, ele voltou a brilhar nas quadras.
Foi barrado nas quartas-de-final pelo russo Andrei Cherkasov
(6/1, 6/4, 6/7 4/6 e 6/2), perdendo a medalha de bronze.
Naquela edição não havia disputa do terceiro lugar e Jaiminho
conseguiria a inédita medalha olímpica para o tênis brasileiro
caso passasse por Cherkasov.
Mas o brilho da campanha não foi ofuscada, já que Oncins
eliminou na segunda rodada um dos principais candidatos
ao ouro, o norte-americano Michael Chang, então 11º colocado
do ranking mundial. Foram 3 sets a 1, parciais de 6/2, 3/6,
6/3 e 6/3, numa vitória de cor dourada.
Jaiminho disputou também os Jogos Olímpicos em 2000, na
cidade de Sydney, Austrália. Ele e Guga, dupla de sucesso
na Davis, não conseguiram a mesma sincronia na Olimpíada
e perderam logo na estréia para os canadenses Daniel Nestor
e Sebastien Lareau por 6/1 e 6/4. Se pode servir de consolo
para os brasileiros, Nestor e Lareau acabaram conquistando
o título olímpico.
Dois títulos na ATP - Para fechar com todos os
méritos como o número 1 do Brasil em 1992, Jaiminho acabou
com um tabu na temporada. Conquistou o título do ATP Tour
de Bolonha, Itália, tornando-se o primeiro tenista brasileiro
desde os feitos de Maria Esther Bueno a ganhar um torneio
de primeiro nível na Europa. Também foi o primeiro depois
de Thomaz Koch a levantar um título de categoria especial
fora do país.
Na decisão do evento com US$ 260 mil em premiação, Jaiminho
calou a torcida local ao vencer o italiano Renzo Furlan,
então 76º do mundo, por 6/2 e 6/4. Foi o estímulo que precisava
para ir com toda a confiança a Roland Garros.
Em novembro, Jaiminho acabou com um tabu e ganhou seu
primeiro título de ATP Tour no Brasil ao ser campeão do
torneio de Búzios, no Rio de Janeiro. Foi o que precisava
para fechar a temporada como o melhor do Brasil, desbancando
o amigo Luiz Mattar.