Desta vez a pérola vem de Santos e tem nome: o diretor de futebol Adilson Durante Filho revelou que não quer psicólogo no clube. Justificou sua sábia decisão devido à contratação do treinador Vágner Mancini:"Não temos psicólogo, pois, para mim, esse papel deve ser do técnico. Além disso, o Mancini tem essa característica, pois conversa muito bem com o grupo, por isso acredito que ele fará esse papel muito bem", afirmou o diretor do Santos.
Sr Adilson, aqui no prédio onde moro tem um porteiro (por sinal se chama Adilson), e ele conversa muito bem. Tenho certeza que ele poderia fazer um precinho camarada para conversar com sua equipe. Todo mundo, por aqui, utiliza os serviços "psicológicos" do porteiro e, no final do ano, dão uma caixinha mais gorda.
Voltando ao Santos, logo no seu primeiro dia no clube, na última segunda-feira, o treinador teve de colocar em prática esse seu lado psicólogo. Na ocasião, o escolhido para uma "conversa a dois" (?) foi o goleiro Fábio Costa.
Outros nomes do elenco, como o zagueiro Fabiano Eller e o atacante Roni podem ser os próximos a se deitar no "divã" do treinador.
A banalização com que os aspectos mentais e emocionais é tratada no futebol chega a enojar. Confesso aos amigos que, após 16 anos de luta, defendendo com unhas e dentes a importância do trabalho psicológico no esporte (especialmente no futebol), o desânimo começa a bater na porta.
Enquanto não houver uma mudança radical na mentalidade dos dirigentes e treinadores, este quadro dificilmente será alterado ou abalado. A luz no fim do túnel está mais para frente, num futuro próximo, quando é esperada uma renovação no comando futebolístico nacional.
O que me assusta ainda mais é a postura do treinador Mancini ao aceitar as ordens da chefia de futebol do clube. Ele, que sempre prezou pela modernidade no futebol e reconhece a importância da conjugação das ciências esportivas em prol do treinamento esportivo, agora se curva diante da postura jurássica e retrógrada de mais um dirigente de futebol.
Ao Sr. Adilson Durante, aí vai um pequeno alerta: A Psicologia não se limita apenas ao consultório ou à esfera clínica, como muitos (infelizmente) ainda acreditam. Os primeiros estudos relacionados com a Psicologia do Esporte já comemoraram um século de vida. Refiro-me à Psicologia enquanto ciência, e não à "Psicologia" enquanto jargão popular.
A Psicologia do Esporte contribui para o controle da ansiedade pré-competitiva, gerenciamento da concentração de performance, motivação, coesão, auxiliando para a melhora do ambiente de trabalho e não apenas para resolver brigas de egos e vaidades entre atletas.
Esta ciência existe para além de Sigmund Freud. Ela conquistou espaço nos ginásios, campos, nas quadras, piscinas e praias. A modernidade esportiva pela qual o senhor reza em seu discurso deveria passar também pela consideração dos aspectos psicológicos na atuação dos atletas. Não são apenas os fatores técnicos e táticos que determinam o sucesso da performance de um time. Atualmente, entende-se o desempenho de um atleta ou equipe em forma de um triângulo, onde um dos vértices representa a esfera tática e técnica; a outra, a física, e, finalmente, a base, representada pela mente e emoções.
Desconsiderar ou desconhecer a Psicologia do Esporte nos dias de hoje não é compatível com o alvo dos que buscam a tal modernidade esportiva.Há muitos pesquisadores no mundo trabalhando a serviço do esporte e demonstrando excelentes resultados através desta abordagem.
Vou me aventurar na carreira de treinador. Se técnico pode ser psicólogo, por que os estudiosos da alma humana não podem escalar e comandar os times?
Já aviso que meu esquema tático favorito é o 3-5-2 , de preferência com as travas das chuteiras no peito do adversário!
