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Futebol/Entrevista - (27/02/2009 10h15)
São Paulo (SP)

AFP
Ewerthon tem contrato com o Zaragoza até 2010

Por Helder Júnior

Ewerthon foi convidado a fazer uma peneira no Palmeiras aos 7 anos de idade. Torcedor do Corinthians, ele rejeitou a oportunidade de imediato. Pediu ao seu pai e futuro empresário que o levasse ao clube de coração, pelo qual conquistou a Copa São Paulo de Juniores em 1999, os Campeonatos Paulista de 1999 e 2001, os Brasileiros de 1998 e 1999 e o Mundial de Clubes de 2000. O início vitorioso de carreira conduziu o atacante por sete vezes à seleção brasileira e por sete anos à Europa, onde, mais de duas décadas depois de recusar o arquirrival, ele reviu seus conceitos.

Hoje, Ewerthon é profissional. Assim ele justifica, nesta entrevista à Gazeta Esportiva.Net, que poderia defender o Palmeiras no futuro, mesmo que a hipótese seja improvável. Orgulhoso por sua trajetória no futebol europeu, com passagens por Borussia Dortmund e Stuttgart, na Alemanha, e Real Zaragoza e Espanyol, na Espanha, o jogador aprendeu a ponderar as palavras. Evita, por exemplo, criticar o agora palmeirense Wanderley Luxemburgo, que o aconselhou a deixar prematuramente o Corinthians em 2001. Na época, irritou-se com a orientação do treinador: "Ele não é meu pai".

As chances de Ewerthon reencontrar Luxemburgo ou qualquer outro técnico de clube brasileiro, no entanto, são remotas no momento. Com contrato até 2010 com o Zaragoza, ele está engajado no projeto de reconduzir a equipe espanhola à Primeira Divisão. O atacante compara a experiência à passagem do Corinthians pela Série B do Campeonato Brasileiro em 2008. Da campanha que rebaixou o time do Parque São Jorge, ele não lembra nem quem era o último adversário. Mas não faltam torcedores para impedi-lo de esquecer as suas raízes: "Até hoje, sou conhecido como 'Ewerthon do Corinthians' em todo lugar que vou."

Gazeta Esportiva.Net: Você acompanhou a campanha do Corinthians na Série B do Campeonato Brasileiro?
Ewerthon:
Claro que sim. Não tenho muita paciência para assistir a jogos do futebol europeu. Apesar da distância, prefiro ver as partidas do Brasil pela televisão. Fiquei feliz por saber que o Corinthians voltou à Primeira Divisão. O clube fez um bom planejamento, contratando um treinador que conseguiu resgatar a imagem do time. Agora, a torcida está aliviada.

GE.Net: Você também está? Lembra do dia em que o Corinthians foi rebaixado à Segunda Divisão?
Ewerthon: Que dia foi mesmo?

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No Corinthians, festejando o Paulistão de 2001

GE.Net: Dia 2 de dezembro de 2007.
Ewerthon:
Eu estava na Europa nessa época, jogando. A temporada ainda não havia acabado. Foi contra o Goiás, né?

GE.Net: Contra o Grêmio, no estádio Olímpico.
Ewerthon:
Isso mesmo. A queda foi o momento mais triste da história do Corinthians, resultado da má administração do clube em anos anteriores. Ainda bem que um novo presidente assumiu e conseguiu reestruturar o Corinthians, com investimentos certos. Os reflexos disso apareceram em 2008.

GE.Net: Na época em que você jogava no Corinthians, já considerava o clube mal gerido?
Ewerthon:
Não. No meu tempo, era bem diferente. Tínhamos jogadores importantes no elenco e conquistamos diversos títulos, como o Campeonato Brasileiro e o Mundial de Clubes. Depois, o Corinthians se desestruturou e isso se perdeu. Já faz sete anos que estou na Europa, e muita coisa mudou de lá para cá.

GE.Net: Você também está disputando a Segunda Divisão na Espanha. É uma situação parecida?
Ewerthon:
Existe certa semelhança, sim. O Zaragoza é um grande clube do futebol espanhol, assim como o Corinthians é do brasileiro. No nosso caso, não houve uma mudança de presidente para este ano. Mas também contamos com um excelente treinador [Marcelino García Toral], que ajudou a equipe a se organizar corretamente, e ainda temos grandes jogadores. Estamos no caminho certo.

GE.Net: Mas a pressão por não estar na Primeira Divisão espanhola é menor?
Ewerthon:
O Zaragoza é tradicional na Espanha. Caiu na temporada passada por causa de má gestão, como normalmente acontece nesses casos. Existe uma pressão por isso, dos torcedores e moradores da cidade, que querem que a gente volte com um bom futebol. No Corinthians, foi a mesma coisa. A diferença é que, aqui, a torcida não fica ameaçando a família de ninguém, não bate nos atletas. A gente sabe que isso acontece no Brasil. É uma situação mais complicada.

GE.Net: E o contato com os torcedores brasileiros que te encontram na Espanha?
Ewerthon:
Até hoje, sou conhecido como 'Ewerthon do Corinthians' em todo lugar que vou. Onde quer que eu esteja, alguém está me chamando assim. Receber esse carinho é muito gratificante. Parece que continuo jogando no Corinthians. E olhe que faz muito tempo que eu saí do Brasil.

Acervo/Gazeta Press
Brasileiro também deixou a sua marca no Stuttgart

GE.Net: Não tem vontade de voltar?
Ewerthon:
Já estou muito bem adaptado ao futebol europeu. Graças a Deus, vim para cá e triunfei. Agora, com 27 anos, ainda pretendo continuar algum tempo por aqui. Mas quem sabe um dia eu não volto?

GE.Net: Quando esse dia chegar, será para o Corinthians? Você aceitaria defender um antigo rival, como o Palmeiras, ou o seu passado não permite?
Ewerthon:
[Pausa] Para falar a verdade, nunca pensei nisso. É complicado falar. Claro que saí da base do Corinthians e tenho uma ligação forte com o clube, mas já estou há muito tempo fora do país. Sou profissional. Não dá para dizer que jamais jogaria em determinado time. Posso jogar, sim.

GE.Net: Você acha que deixou o Brasil prematuramente?
Ewerthon:
Primeiro, recebi uma proposta do futebol espanhol, do Real Betis, que não era agradável. Havia uma pressão forte para que eu saísse do Corinthians, que precisava de recursos financeiros, mas eu estava vivendo uma fase muito boa no clube e achava que aquela oferta não iria me satisfazer profissionalmente. Depois de dois meses, o Borussia Dortmund me fez uma proposta excelente, que se encaixava no que eu estava esperando. Não havia por que não sair.

GE.Net: O Wanderley Luxemburgo te orientou publicamente a aceitar a proposta do Betis. Como você vê essa postura, anos depois? [Luxemburgo declarou: "Se eu fosse o pai do Ewerthon, o faria aceitar ir para a Europa". O atleta rebateu: "Ele não é meu pai".]
Ewerthon:
Acho melhor não polemizar. Não faz o meu tipo. O Luxemburgo tinha as suas razões, e não vou dizer que sofri pressão forte por parte dele. Só achava que não era o momento de sair.

GE.Net: Qual é o seu conselho para os jovens do Corinthians que atravessarão o mesmo dilema? Aconselharia o Dentinho, por exemplo, a sair assim que receber a primeira proposta do futebol europeu?
Ewerthon:
É complicado falar alguma coisa para os outros. Eu saí quando tinha 19 anos e sei que a adaptação é muito difícil. O jogador não pode visar só a parte financeira em um transação. Também precisa ponderar se esportivamente é válido mudar de país. A gente sabe que todos os atletas sonham com a Europa, mas aqui também não é mil maravilhas, como se fala. Se não fosse o meu pai, eu faria como muitos: pegaria os meus 15% e voltaria logo para o Brasil. Mas ele me ajudou a encarar as dificuldades e a me adaptar. Hoje, posso me orgulhar por ter construído praticamente toda a minha carreira no futebol europeu, atingindo a maturidade.

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A dívida do Borussia Dortmund impediu a permanência de Ewerthon

GE.Net: Você foi direto para a Alemanha. Em tese, a ambientação é mais difícil do que na Espanha.
Ewerthon:
O futebol espanhol é muito mais parecido com o brasileiro, sem dúvida. Além disso, o clima, o idioma, a alimentação e a cultura são mais próximos. Na Alemanha, é bem mais difícil. Tudo é totalmente diferente. Mas as coisas correram bem para mim lá. Vou ser bem sincero: se o Borussia não estivesse endividado, talvez eu defendesse o clube até hoje. Não tinha por que sair por nenhum outro motivo. Eu era ídolo na Alemanha, jogava com o estádio sempre cheio e estava completamente adaptado. Fazer o quê? São coisas que acontecem nas nossas vidas.

GE.Net: Mas, agora, na Espanha, teve o reencontro com o Ricardo Oliveira. Vocês jogaram juntos nas categorias de base do Corinthians, não foi? [O ex-são-paulino voltou para o Real Betis recentemente.]
Ewerthon:
Fiquei muito feliz com a chegada dele ao Zaragoza. Somos dois brasileiros, que se dão muito bem, ajudando o clube a sair de uma situação ruim. Nosso objetivo é acabar bem essa temporada. Depois, vamos ver como será. Tenho contrato até 2010. O futuro a Deus pertence.