O atacante Kléber, recém contratado pelo Cruzeiro, tem demonstrado que os ares mineiros não foram capazes de alterar seu comportamento agressivo - o que tem lhe rendido várias expulsões nos últimos jogos atuando pela Raposa. Os dirigentes e o treinador não sabem mais o que fazer.
Recentemente tive a oportunidade de participar de algumas entrevistas na mídia esportiva para debater o caso em pauta e gostaria de descrever os principais pontos abordados.
Formação ou deformação?
Os clubes de futebol insistem em não priorizar o trabalho psicológico nas equipes de base. Vários atletas com excelente capacidade técnica acabam não se profissionalizando por conta de necessidades emocionais, afetivas, sociais e psicológicas sumariamente ignoradas pelos dirigentes. Já, outros, como no caso de Kléber, sobrevivem por algum tempo devido a uma habilidade excepcional e fora do comum. No entanto, o talento não lhe garantirá vida longa no futebol se o comportamento não acompanhar sua evolução tática e técnica. Quem perderá com tudo isso? Os cofres dos clubes e, claro, o próprio atleta. Seu pedido de socorro é evidente. Só não percebe quem não tem capacidade ou mantém as vistas grossas diante de um patrimônio inestimável que tem prazo de validade limitado caso um suporte de orientação psicológica não seja oferecido.
Técnico treina e psicólogo atua
A maioria dos técnicos costuma assumir estas demandas para si, esquecendo que foram contratados apenas para treinar tática e tecnicamente os times. Este comportamento é reforçado por alguns dirigentes que insistem em afirmar que "basta saber conversar com o atleta, passar a mão na sua cabeça e dar carinho" para que tudo fique bem e ele renda o esperado dentro das quatro linhas. Esta é, infelizmente, a compreensão limitada que muita gente ligada ao futebol tem diante da Psicologia do Esporte, uma ciência tão importante quanto a Fisiologia, Medicina e demais áreas do treinamento esportivo. Quanto mais o tempo passa, menor é a valorização dos aspectos psicológicos no mundo da bola e maior é o prejuízo dos clubes por conta de atitudes como a do atacante do Cruzeiro.
Os amigos que acompanham o meu trabalho aqui na Ge.Net desde o início de 2002 já conhecem minha posição: cada macaco no seu galho. O psicólogo do esporte intervém nas esferas psicológica e emocional. Os técnicos, no treinamento tático, desenvolvimento e aprimoramento de habilidades, fundamentos e esquema de jogo. Nada mais. O problema é que hoje em dia muitos treinadores acumulam funções que não lhes dizem respeito. Tem muito técnico desempenhando (ou tentando desempenhar) papéis de médicos, psicólogos, empresários e tantos outros cargos.
A criançada e a escola da vida
Boa parte da garotada que começa a jogar bola investe, no futebol, o sonho de virar um grande astro e conquistar fortunas na Europa além de vestir a camisa da Seleção. Estes garotos são bombardeados por imagens, informações, apelos, idéias e sonhos exibidos nos canais de televisão a todo instante. Em qualquer escolinha de futebol, hoje em dia, garanto que a esmagadora maioria dos meninos gostaria de virar um Ronaldo no futuro. O exemplo está na crista da onda, como diria meu saudoso avô. O caminho para se chegar lá, no entanto, é sinuoso e envolve sofrimento, doação, talento, entrega e, claro, um pouco de sorte.
A cultura televisiva está cada vez mais pobre. Hoje, conversando com minha secretária, ela contava que a filha de dez anos não dorme antes de assistir o Big Brother. O programa é o tema preferido entre suas coleguinhas de escola. As mensagens subliminares ali presentes, venhamos e convenhamos, não são as mais adequadas para a criançada.
Alguns dirão: "é só não permitir com que elas assistam". Sim, amigos. Na teoria é fácil, mas o apelo sociocultural é ainda mais forte e os próprios pais são viciados nestes reforçadores e formadores de voyeurs.
Assim, os meninos crescem, entre sonhos e mensagens enviesadas. Não vivenciam fases importantes do desenvolvimento humano. As festas, namoros e baladas são abdicados em nome de um sonho maior. Quando alguns poucos conseguem chegar ao lugar que tanto almejam, não apresentam estrutura emocional para se manter.
É muito triste ver o Kléber pedindo socorro numa linguagem simples, direta e muito sofrida. Igualmente triste é perceber que os dirigentes não entendem este idioma e, através de punições (que a vida já tentou ensinar por diversas vezes), acham que vão colocar o garoto nos trilhos.
O dia que alguém conseguir abafar ou aniquilar a ativação deste jogador, ele jamais renderá o futebol que o credenciou como um dos principais goleadores do país. É preciso trabalhar adequadamente esta agressividade e conduzi-la de forma a contribuir com seu rendimento dentro de campo. E este trabalho não pode ser feito por treinadores que apenas "sabem conversar".
Será que ficou claro?
