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Reportagem/Boxe - (17/07/2009 09h50)
Por Guilherme Ceciliano, especial para a GE.Net - São Paulo (SP)

O boxe não é o esporte mais popular do Brasil. Os campeões regionais e nacionais não são celebridades e poucas figuras conseguem se destacar esporadicamente, como Acelino 'Popó' Freitas, Adilson 'Maguila' Rodrigues, Servílio de Oliveira, Eder Jofre e Miguel de Oliveira. Em busca de reconhecimento e da popularização do esporte, duas vertentes expõem os contrastes da modalidade no País: um boxeador que gasta US$ 6 mil por mês para treinar em uma academia nos Estados Unidos e outros que têm que se preparar sob viadutos com material improvisado e de segunda mão.

Divulgação
Michael Oliveira posa entre seu treinador Danny Hawk e seu empresário (e pai) Carlos Oliveira

Assim, surge no país do futebol um boxeador de apenas 19 anos com pretensão de ser o melhor do mundo. Seu nome é Michael Oliveira, um jovem de família abastada, nascido em São Paulo, mas que desde os 15 dias de vida reside em Miami, onde pegou gosto pelo boxe junto com o avô, João Pedro, passou a lutar e chamar atenção de empresários como Don King e Oscar De La Hoya.

Para concretizar seu sonho de assumir o cinturão, Michael é auxiliado pelo seu treinador, o norte-americano Danny Hawk, seu pai e empresário Carlos Oliveira, além do apoio médico da Universidade de Miami, de uma nutricionista, assessores de imprensa, uma fotógrafa, entre outros. Ao menos 15 profissionais auxiliam diretamente o jovem, que, paralelamente ao esporte, cursa fisioterapia nos Estados Unidos.

Bem longe da realidade de Michael Oliveira, encontra-se o ex-pugilista Nilson Garrido, que é morador de rua e desenvolve um projeto de inclusão social embaixo de viadutos na capital paulista. E o principal objetivo do "Projeto Garrido" é treinar boxeadores, que conseguem superar as dificuldades e competir profissionalmente, como é o caso de Jaílton de Jesus, campeão brasileiro de boxe na categoria meio-pesado.

Porém o preparo de tais lutadores é totalmente diferente do convencional. Não há nutricionistas, médicos ou preparadores físicos. Os alimentos são doados por um restaurante e os equipamentos utilizados são sucateados ou improvisados. Mesmo assim o treinamento é duro e visa, além do condicionamento físico, a reabilitação social, uma vez que Nilson Garrido lida com moradores de rua, ex-drogados, ex-presidiários.

Fernando Pilatos/Gazeta Press
Nilson Garrido mostra sua academia improvisada na Zona Leste de São Paulo

"Já teve problema do cara chegar aqui e não poder correr por falta de ar. Aí eu virei para ele e disse: 'bebe um copo de leite'. Ele tomou e colocou umas bolas verdes pra fora. No dia seguinte, não queria tomar mais leite. Eu sei que foi indo e depois ele queria um litro de leite. Tem que ser assim para tentar desintoxicar primeiro para depois fazer os exercícios", contou Garrido.

No lado luxuoso do boxe brasileiro, Michael Oliveira, que se mostrou avesso às drogas e bebidas alcoólicas, sofre com outras dificuldades durante as duras sessões de preparação em Miami. "O treinamento é muito duro, tem dias que choro, tem dias que vomito após tanto esforço. Por isso, eu escuto Frank Sinatra indo e voltando do treino, pois me ajuda a relaxar", descreveu o jovem boxeador.

Outro aspecto que diferencia os boxeadores é a estrutura familiar. Se por um lado Michael Oliveira tem o pai, mãe e os irmãos sempre presentes, os "guerreiros", modo como Garrido se refere a seus pupilos, nem sempre têm tanta estabilidade dentro do lar. Porém, mesmo com tantas diferenças entre as duas realidades, uma coisa é comum a ambos: o desejo de estudar.

"A molecada que vem aqui tem problemas com a família e a gente não quer mostrar o futuro que eles provavelmente terão. Nosso objetivo é trabalhar para mudar o futuro, para que ele não seja incerto. Então, depois de um tempo aqui, eles pedem mais coisas, principalmente cursos profissionalizantes. Eu não prometo, mas eu procuro ver o que é possível fazer", disse Garrido, que também disponibiliza aulas de inglês, francês, musculação, judô, muay thai e até serviço de biblioteca nas sedes de seu projeto social.

"Eu estudo fisioterapia e quero montar uma academia não só no Brasil ou nos Estados Unidos, mas no mundo, para ajudar as pessoas mais carentes. Agora no boxe é raro ter apoio de muita gente. Por eu não precisar do boxe para viver, é um estímulo para eu me dedicar mais e focar nos meus objetivos", ressaltou Michael, que também tem uma preocupação social.

Contudo, a preparação dessas duas faces do boxe é fadada aos extremos. Segundo revelou seu pai e empresário, Carlos Oliveira, são investidos seis mil dólares por mês, em média, no jovem boxeador de apenas 19 anos. Ele treina ao lado de experientes lutadores e tem os melhores equipamentos de boas academias à disposição para se preparar.

Divulgação
Michael, que tem até fotógrafo em seu estafe, divulga seu trabalho com poses de modelo

Mesmo assim, o adolescente Michael Oliveira também tem que abrir mão de algumas coisas corriqueiras aos jovens para se transformar em um verdadeiro lutador. "Eu vou dormir e meus amigos vão se arrumar para sair. Mas eu estou pensando na frente. Quando eles estiverem começando na vida, espero estar por cima da carne seca", projetou, sorridente.

Debaixo do viaduto, apesar das aparentes dificuldades, os 'guerreiros' conseguem sobreviver. Não há brigas, nem hostilidade, nem drogas, nem tabagismo ou álcool. Nilson Garrido proíbe até seus pupilos de mexerem com as mulheres na rua, para evitar confusões desnecessárias.

As luzes são clandestinas, e servem para dar mais segurança durante a noite. Os equipamentos são de segunda mão e enferrujados. Apesar disso, doações de aparelhos de ginástica antigos de outras academias ajudam o projeto de Garrido.

"Nós temos uma desigualdade, não tanto com questão dos equipamentos. Mas não temos nutricionista, por exemplo. Então eles (boxeadores) acabam comendo qualquer coisa. Não temos uma rede de informações computadorizada, apesar de estarmos tentando conseguir uma doação disso. Tirando isso, não devemos nada para as demais academias", analisou Garrido.

Sem conhecer completamente o projeto dos boxeadores embaixo do viaduto, Michael Oliveira considera que, mais importante do que ter a estrutura para treinar, é usar destes aparatos com afinco para conseguir os resultados desejados.

"Eu acho que onde você treina não muda muito as coisas. Lá (em Miami) é melhor, estou treinando com dois campeões (Bernard Hopkins e Glen Johnson) que me ajudam muito, me dão toques e experiência. Mas com dedicação tudo é possível. Mas é claro que lá (nos EUA) é mais fácil", elogiou o jovem.

Fernando Pilatos/Gazeta Press
De frente para rua, os `guerreiros´ de Garrido treinam com equipamentos sucateados

Já Nilson Garrido diz que sente medo quando chega em um novo viaduto para montar seu projeto (já são três em funcionamento atualmente). Em São Miguel Paulista, o ex-pugilista, que conta com apoio da subprefeitura local, revelou que teve problemas com um policial militar, que estranhou sua presença no local.

Fora isto, há o agravante de Garrido viver em seus próprios projetos, que são abertos e protegidos apenas por uma faixa que separa a rua da academia. "Nós vivemos 24 horas em um risco constante, porque estamos no meio de lugares de baixa renda. Além do que, este local, antes de a gente chegar, poderia ser ponto de encontro de gangues, de tráfico de drogas, nunca se sabe. Mas o boxe reeduca as pessoas. Elas chegam aqui desacreditadas e conseguem se reabilitar. Tem dado resultado", garantiu o idealizador do projeto.