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Reportagem/Futebol - (20/07/2009 10h15)
Tossiro Yamamoto, especial para a GE.Net - São Paulo (SP)

A PROFISSÃO AGENTE FIFA

O agente tem como função intermediar a negociação de atletas e buscar clubes para seus clientes. A comissão que recebe pelas transações é de 10%, mas pode variar de acordo com o acerto entre as partes. Para o consultor esportivo Nilson Ribeiro, o Brasil ainda tem um número pequeno de agentes. "Nossa média per capita (em relação ao número de atletas) é baixa. Precisaríamos ter no mínimo mil agentes para nos equiparar com a Europa", afirma.

COMO SE TORNAR UM

É preciso passar por uma prova da Fifa, cuja inscrição custa R$ 1.000,00. O teste tem duração de 90 minutos e é composto por 20 questões de múltipla escolha, sendo 15 em espanhol, sobre o regulamento da Fifa, e cinco em português, com conteúdo referente à legislação brasileira. Para receber a licença, o candidato precisa ter no mínimo o segundo grau de escolaridade e acertar 70% das questões. Um curso prepatório para a prova custa em média R$ 1.500,00 no Brasil.

No Brasil, apenas 282 pessoas têm licença da Fifa para agenciar jogadores de futebol pelo mundo. O que pouca gente sabe é que, devagar e elegantemente, as primeiras agentes mulheres também estão obtendo o aval oficial da entidade para exercer a função. Ao todo, elas já são dez e, com respaldo masculino, estão quebrando a barreira do preconceito e "indo para cima" no meio machista do esporte bretão.

"As habilidades não são definidas pelo sexo, e sim pela pessoa em si", afirma Maria Angélica Aguillar Effori, de 59 anos, uma das desbravadoras no ramo. Política, professora de biologia e ex-bancária, ela vê a sensibilidade feminina como ponto alto do seu sucesso e é uma das poucas que nunca precisaram enfrentar preconceito na profissão.

Como ferramenta, Maria Angélica utiliza os contatos do filho Nilo Aguillar Effori - que recentemente teve o nome ligado aos interesses do meio-campista corintiano Douglas - e o traquejo ganho durante os dois mandatos como vereadora de Santo Anastácio (SP). Apesar disso, deixa uma dica para as demais colegas.
 
 "O futebol é um meio difícil para as mulheres, assim como a política. Mas não temos que nos incomodar com alguém que por acaso feche as portas", diz a empresária, que procura ouvir as pessoas próximas aos atletas. "Recebi recentemente o governador (de São Paulo) José Serra, em Presidente Prudente, tenho essa facilidade. É preciso falar com as pessoas certas, conversar com a família do jogador e não ter problema nenhum de acesso", conta.

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Maria Angélica usa os contatos do filho e o traquejo adquirido na carreira política


Já a advogada Mariana de Abreu Pimentel, de 24 anos, usa a experiência do pai e colega de trabalho Ângelo Pimentel para driblar o fato de ser a agente mais nova do mundo. Assim que passou pelos testes da entidade máxima do futebol, em 2007, a mineira de Belo Horizonte, que agora atua com jogadores como os meio-campistas Rodrigo Tabata (do Gaziantepspor, da Turquia) e Wagner (do Cruzeiro), foi submetida a uma prova ainda mais embaraçosa.
 
"Um dirigente da Arábia não quis conversar comigo por eu ser mulher. Entendi, afinal, trata-se do costume local, que é diferente do nosso, e isso não me abalou. Mas já entrei na profissão com know-how, sabendo que sofreria esse tipo de preconceito, com dirigentes, jogadores e até esposas de jogadores ciumentas", revela Mariana. "Mas prefiro não trabalhar diretamente com o atleta. Gosto mais de trabalhar com a parte de contratos. Não posso dizer que sou 100% entendedora de futebol".
 
Outra que ingressou recentemente no meio é a economista paulistana Cristiane Bellassai, de 38 anos. Ela foi casada com um sobrinho de Sergio Cragnotti, presidente da Lazio na campanha campeã italiana da temporada 1999/2000. Seu ex-marido atuava como olheiro para o clube do tio e, depois de auxiliar algumas negociações de sucesso - como a do lateral esquerdo César e a do chileno Marcelo Salas -, ela decidiu se tornar agente de futebol, meio onde ainda nota ser contagiado por muita inveja.

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Cristiane acredita que seriedade é fundamental para sobreviver em um ambiente machista

"Uma vez levei um garoto a um clube, e os treinadores da base ficaram super estranhos comigo", diz Bellassai. "Fiquei sabendo depois por um diretor que o vice-presidente tinha perguntado quem eu era. Ele quer saber quem são os homens que levam os jogadores? Mas não ligo para isso, bola para frente. São cinco minutos de preconceito, logo em seguida a gente vai para cima, e não tem jeito", sorri.
 
O respaldo masculino inicial, concorda Bellassai, é um facilitador, contudo é o trabalho individual que definirá o sucesso feminino. "Tendo parceiros homens e mostrando que trabalha seriamente, fica mais fácil. O problema é quando alguma mulher que trabalha com futebol não passa essa imagem. Se uma for 'maria-chuteira', vira uma cadeia, e ninguém mais vai levar as outras a sério", adverte.
 
A imagem estética de fato poderia ser entrave para as agentes. Afinal, as pessoas envolvidas com futebol comumente não enxergam o lado profissional da mulher e preferem se interessar mais por sua beleza (ou ausência dela), como acontecem repetidas vezes com algumas jogadoras, árbitras e auxiliares. Com as empresárias não é diferente: algumas delas precisam lidar com cantadas de dirigentes e outros homens do meio.
 
Mariana Aidar, de 32 anos, é alvo constante desses atrevimentos masculinos. 'Pretendida' até hoje por um empresário espanhol que conheceu no ano passado, ela confessa que a cara de menininha atrapalha. "Todo homem adora cantar uma mulher. Acontece muito com diretor, atleta então nem se fale", diz. Mas algumas cartas na manga driblam quaisquer eventualidades. Como o simples fato de mostrar seu cartão profissional: filha de Carlos Miguel Aidar, ex-presidente do São Paulo, ela vê assim as portas se abrirem mais facilmente.
 
"Nunca imaginei que fosse trabalhar com futebol, sou formada em direito e veterinária, já trabalhei com loja. Mas meu pai conta que, no meu aniversário de três anos, eu pedi para ir de ônibus com os jogadores do São Paulo a um jogo em Taquaritinga", acrescenta Aidar, apaixonada pela profissão atual, que descobriu há cinco anos por meio de um amigo interessado em um contato de seu pai.

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Filha de ex-presidente do Tricolor, Mariana Aidar logo aprendeu a fugir das cantadas

A agente - que tem jogadores em times como São Paulo, Internacional e Barueri - não esconde, no entanto, que alguns truques femininos são úteis em negociações mais complicadas. "Em uma sala de reunião, sempre estou com mais uns cinco homens, e se o negócio está complicado, dou uma jogadinha de cabelo para o lado, faço aquele charmezinho para conseguir o que quero. Em 90% dos casos, isso dá uma ajudinha", brinca a empresária, que diz praticamente ter nascido no Morumbi.
 
Jorge Dorfman Knijnik, estudioso dos aspectos psicossociais do esporte e professor doutor na Universidade de São Paulo (USP), lamenta que haja pouco espaço para as mulheres no futebol. "No Brasil, o campo de supremacia da masculinidade é, literalmente, o campo de futebol. Em qualquer meio, algo novo gera reações, preconceitos. O que não pode ocorrer é discriminação", conclui o especialista, que ainda assim parece esperançoso com o avanço feminino na área esportiva. Avanço que, de cabelo longo ou curto, vem superando o preconceito.